Matéria
no Observatório da Imprensa
Música para revitalizar o Português
no Timor
TIMOR LOROSAE
Música para revitalizar o português
Rosely Forganes (*)
Jovens de todo o Brasil vão ajudar na reconstrução
do Timor Leste, a mais jovem nação do mundo, principalmente
difundindo a língua portuguesa, proibida durante os 24 anos
da ocupação indonésia. Os jovens brasileiros
não vão dar aulas formais de Português, mas
uma formação original que mistura musicas de Leandro
e Leonardo e Chico Buarque, Zezé de Camargo e Luciano e Vinicius
de Moraes, Roberto Carlos e Caetano Veloso, Teixeirinha e Titãs.
Aqueles que já são ídolos dos timorenses com
artistas que eles não conhecem.
Estudantes de todas as universidades brasileiras poderão
participar do projeto, que foi concebido e será implementado
pela Universidade de São Paulo. O objetivo é contribuir
para o renascimento do português no Timor, escolhido como
língua oficial do país.
Num primeiro momento serão selecionados, capacitados e enviados
ao Timor 20 estudantes, formando um grupo experimental. Mas espera-se
que este seja apenas o primeiro passo de algo muito maior, não
só em ajuda efetiva mas também como marco do início
de uma mobilização da sociedade brasileira em prol
do Timor, explica o embaixador Jadiel Ferreira de Oliveira, representante
do Itamarati em São Paulo. Ele era embaixador do Brasil na
Indonésia desde 1995, representando o país durante
toda a crise e a guerra no Timor, posto que deixou apenas em setembro,
quando voltou ao Brasil. Jadiel de Oliveira visitou o hoje presidente
Xanana Gusmão várias vezes na prisão e esteve
no Timor durante a ocupação militar Indonésia
e depois da independência, oficializada em 20 de maio de 2002.
A iniciativa conta com o apoio do Ministério das Relações
Exteriores, mas a criadora e responsável pelo projeto, a
professora Magda Maria Sales Carneiro Sampaio, presidente da Comissão
de Cooperação Internacional da USP, quer a participação
da iniciativa privada num projeto inovador que tem por objetivo
dar nova imagem do Brasil no exterior. O projeto pretende inaugurar
uma nova fase de solidariedade internacional, mais rápida,
ágil, que envolva a sociedade civil por intermédio
da universidade. Esses 20 jovens devem ser apenas os primeiros.
"A cada seis meses pretendemos mandar uma nova turma, criando
um trabalho contínuo e relações permanentes",
disse.
Para quebrar barreiras
Esses estudantes brasileiros graduandos ou pós-graduandos
poderão contar com alojamento e comida no Timor, mais 200
dólares para despesas pessoais, e serão acompanhados
por professores e monitores. Esse estágio no Timor, além
da experiência humana que representa, terá peso acadêmico.
O ensino tradicional do português já está sendo
feito pelo próprio sistema educacional timorense, com todas
as suas dificuldades com apoio de Portugal e seu Instituto Camões,
e do Brasil, com organizações como o Alfabetização
Solidária e o Telecurso da Fundação Roberto
Marinho. Cada instituição se dedica a um público
específico, como as crianças do ensino fundamental
e médio ou adultos analfabetos.
A idéia é auxiliar no processo de revitalização
e disseminação da língua portuguesa, em vias
de desaparecimento após 24 anos de proibição,
entre todas as idades e os grupos sociais, recorrendo ao que o Brasil
tem de melhor aos olhos dos timorenses e de certa maneira do resto
do mundo nossa música. Esse foi um dos poucos traços
da cultura de língua portuguesa que nem a repressão
indonésia conseguiu sufocar. Roberto Carlos, Leandro e Leonardo,
Zezé de Camargo e Luciano conseguiram atravessar as fronteiras
e atingir em cheio os corações e mentes dos timorenses.
A música mais conhecida e tocada no Timor, entre todas, é
Pense em mim, de Leandro e Leonardo. "" Logo que cheguei
pedi aos alunos da escola para cantar uma música timorense.
E eles, sem pestanejar, cantaram: "Chora por mim, liga pra
mim", em coro, conta rindo Simone, missionária evangélica
brasileira que dirige uma escola no bairro de Komoro em Dili, capital
do Timor Leste. "O problema é que muitos cantam como
muitos brasileiros cantarolam em inglês, tentando imitar os
sons, foneticamente, sem entender muito. Temos especialistas capazes
de transformar essa paixão pela música brasileira
num verdadeiro programa de ensino", garante o professor Benjamin
Abdala Jr., vice- presidente do CCINT. Não será um
curso de Português no sentido tradicional do termo, afirma
o professor, mas de Comunicação e Expressão
em Língua Portuguesa. Além da música, a dança
e as artes cênicas farão parte dos recursos utilizados.
É a cultura brasileira num sentido mais amplo que os timorenses
vão poder descobrir com esse projeto.
Muitos timorenses têm, inclusive, um razoável conhecimento
passivo do português. A mais falada das 30 línguas
nacionais, o tétum, incorporou cerca de 30% do vocabulário
português, além de estruturas da nossa língua
ao longo de quase 500 anos de convivência pacífica,
segundo os lingüistas. Mas os timorenses são tímidos
e têm muito medo de cometer erros, preferindo não se
comunicar a falar de maneira errada. Músicas de que eles
gostam e que lhes são familiares, e que provavelmente muitos
sempre quiseram aprender a cantar, podem ser o meio mais fácil,
agradável e eficaz de quebrar essa barreira.
Ensino aberto e informal
Além disso, a prática compulsória da língua
indonésia levou os timorenses a perder a capacidade de pronunciar
certos fonemas, com os quais não tinham problemas antes.
Os indonésios roubaram até o nome dessas crianças,
indigna-se o padre João Filgueiras. Como é o seu nome?
Djiaum Brandau (João Brandão), eles respondem. Não
sabem mais pronunciar o jota ou o ão. "Cantando, as
peculiaridades fonéticas são assimiladas muito mais
facilmente." O padre Filgueiras é um dos três
jesuítas portugueses que permaneceram no Timor durante toda
a ocupação, apesar das perseguições
do regime indonésio. Mesmo nos anos mais terríveis,
ele foi o grande bastião da língua portuguesa no Timor,
ensinando clandestinamente o idioma proibido.
Essa forma de ensino servirá também para difundir
a cultura brasileira no Timor, da qual esse povo foi bruscamente
cortado com a invasão da Indonésia em 1975. Durante
o período português, os artistas brasileiros eram extremamente
populares no país, de Nelson Rodrigues a Wanderléia.
Os bailes de Dili se davam ao som de música da Jovem Guarda,
e os jovens da época imitavam nossos ídolos. O corte
foi tão brusco que durante muitos anos o Timor ficou totalmente
isolado do mundo, a ponto de o Timor ser talvez o único lugar
do mundo onde o cantor Teixeirinha ainda é ídolo.
Mais tarde, no fim dos anos 80, início dos 90, com uma relativa
abertura, cantores populares, como Leandro e Leonardo, conseguiram
atravessar a barreira.
A formação será aberta a todos os interessados,
tenham 7 ou 77 anos, inscritos na escola ou não. Basta querer
aprender. Mas o principal alvo são as faixas de 13 a 35 anos,
aqueles que menos contato tiveram com o português. A escola
timorense retomou o ensino em português no ano 2000, começando
pelo primeiro ano da escola primária, primeiro e segundo
no ano seguinte e assim por diante. Os mais velhos ainda falam português,
mesmo que com as dificuldades não tenham podido praticar
nem se atualizar.
O grupo que apresenta maiores dificuldades e até uma notada
resistência, quando não uma certa hostilidade com relação
ao português é exatamente o dos jovens. Tendo sido
escolarizados em indonésio, eles temem se tornarem cidadãos
de segunda categoria, sem acesso a empregos e oportunidades por
não conhecer a língua oficial do país. Mas
são eles justamente os maiores fãs de Leandro e Leonardo
e de outros artistas populares brasileiros. Outra vantagem é
que esse tipo de ensino, aberto e informal, permite progressos mesmo
aos que não podem acompanhar todas as aulas, por razões
de trabalho ou familiares.
Parte da identidade
O Timor Leste, a mais jovem nação do mundo, adotou
o português como língua oficial, juntamente com o tétum,
a principal língua local. No total, a antiga colônia
portuguesa tem cerca de 30 línguas e dialetos. Essa opção
pelo mundo da língua portuguesa foi concretizada no dia 31
de julho de 2.002, em Brasília, quando o Timor, até
então com o estatuto de observador, entrou oficialmente para
a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP),
na IV Cúpula da entidade.
Durante 24 anos o português foi proibido no Timor. Segundo
os timorenses, muitos foram assassinados pelos indonésios
pelo simples fato de serem professores de Português. Mas todas
as lideranças do Timor sempre se manifestaram a favor do
português como língua oficial, porque profundamente
ligada à identidade nacional.
Mesmo com a saída dos indonésios, em outubro de 1999,
as pressões contra o português não acabaram,
embora tenham mudado de tipo e natureza. A Austrália, potência
regional, pesou para que fosse privilegiado o inglês. Outros
preferiam o indonésio, uma variação do malaio,
a língua mais falada nessa região do mundo.
No Timor existe o que se apelidou de geração Timtim,
que nada tem a ver com o herói das histórias em quadrinhos
que corre o mundo atrás de aventuras. Vem de Timor Timur,
a maneira como os indonésios designavam a parte da ilha que
invadiram. A geração Timtim foi criada e escolarizada
em indonésio e tem medo de ser transformada em cidadãos
de segunda categoria se o português passar a ser língua
oficial.
No entanto, outros jovens, mais politizados, defendem ferrenhamente
o português. A Ojetil, Organização dos Jovens
do Timor Leste, criada em 1985, com Xanana Gusmão entre os
fundadores, teve papel central na resistência à invasão
indonésia, principalmente nas cidades. Foram eles que organizaram
a série de manifestações que culminou com massacre
de Santa Cruz, em 1991, que revelou ao mundo o que estava acontecendo
sob a ocupação indonésia. Muitos jovens chegam
a defender que o indonésio seja a língua oficial,
por comodidade, porque é o que eles aprenderam, afirma Eládio
Faculto, presidente da entidade. "Nós, da Ojetil, defendemos
o português como língua oficial, porque ela faz parte
da nossa identidade, pelos laços históricos e políticos
que ela representa."
Fator geopolítico
Segundo Eládio, essa foi uma decisão política
longamente amadurecida. "Nós não aceitamos que
certos jovens defendam a língua do invasor, que nos oprimiu,
nos massacrou, como língua oficial do novo país. Eles
fazem isso porque não têm coragem de aprender um novo
idioma, mas é um absurdo. A juventude deve ter a coragem
de aprender, de recomeçar, porque a escolha da língua
oficial é uma decisão política fundamental.
Eles têm que deixar de ser preguiçosos, inclusive porque
não é tão difícil assim, o tétum
incorporou milhares de palavras e expressões do português."
Para o líder dos jovens timorenses, além da identidade
há outras razões para escolher o português como
língua oficial do Timor. "A língua portuguesa
é muito importante porque ela é falada em outros países,
em vários continentes, é uma língua internacional,
uma abertura para o mundo."
A Assembléia Constituinte do Timor Leste, democraticamente,
acabou escolhendo o português e o tétum como línguas
oficiais. Mas deixou uma brecha que pode esvaziar totalmente essa
decisão. Foram aceitas como línguas de trabalho, além
das duas oficiais, o inglês e o indonésio, por tempo
indeterminado. Na prática, isso significa que qualquer empresa
ou instituição que se instale no Timor pode utilizar
uma dessas línguas, em vez das oficiais, e exigir que seus
funcionários sejam fluentes nelas.
A língua mais utilizada corre o risco de ser a dos maiores
investidores. Se o Brasil, que representa sozinho 80% dos falantes
de língua portuguesa no mundo, não apoiar o Timor,
o inglês, que os australianos fazem tudo para impor, pode
acabar vencendo a batalha, apesar dos laços históricos
e da escolha democrática feita pelos timorenses.
O problema da língua hoje ultrapassa muito o plano cultural,
tendo se transformado num fator geopolítico. O idioma e as
associações entre países que ele pode criar
é uma porta para os investimentos. E em casos como o do Timor,
os investimentos podem influenciar decisivamente na escolha de fato
do idioma.
Programa
A largada do projeto foi dada em 3 de fevereiro, às 14h,
no Anfiteatro da Escola Politécnica, Prédio da Administração
da Poli., Av. Prof. Luciano Gualberto Travessa 3, nº 380.
Informações e inscrições
CCInt Telefone 3091-2248 (Marina ou Rodrigo); e-mail ccintdiv@edu.usp.br
(*) Jornalista, autora do livro Queimado queimado, mas agora nosso.
Timor, das cinzas à liberdade, Editora Labortexto, Prêmio
Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos pela série
Vozes do Timor. E-mail: rforganes@uol.com.br
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