Massacre
no cemitério de Santa Cruz em Díli
ZITO, O SOBREVIVENTE
Certamente que já passou por ele na rua um sem-número
de vezes. ”Conheço esta cara de algum lado”,
terá desabafado para com os seus botões. E continuou
o seu caminho. Mas se tivesse parado e sobretudo reparado melhor
teria recordado uma imagem da televisão. Daquelas tremidas
e fugidias mas que ficam para sempre. Que marcam. Pedro CatarinoZito
SoaresÉ que durante muitos anos a imagem do seu rosto, e
de outros rostos da mesma história, foi sinónimo de
sofrimento. De revolta. Chama-se Zito Soares e é um dos jovens
que sobreviveu ao massacre de Santa Cruz, em Díli, Timor-Leste...”Os
indonésios mataram 271 pessoas mas há mais de cem
que continuam desaparecidas”, afirma. Foi há quase
14 anos anos, mas ele ainda se recorda como se fosse hoje.
Na vida de Zito Soares há um antes e um depois
do 12 de Novembro de 1991. Nascido há 33 anos na aldeia de
Bercoli, perto de Baucau, a sua vida sofreu o primeiro grande golpe
em 1979 quando o pai foi morto pelas tropas indonésias. A
família Zito tem mais nove irmãos é
então obrigada a fazer as malas e partir em direcção
à capital, Díli.
Entra no seminário e sonha ser padre. É
alí que os seus caminhos se cruzam com a onda de contestação
ao regime de Jacarta. Uma onda que não pára de crescer
até atingir o seu ponto alto no ano de 1991. Por duas razões.
Por um lado a tão desejada e esperada visita dos deputados
portugueses à capital timorense tinha sido adiada. Por outro,
a repressão era cada vez mais intensa, os timorenses pagavam
com a própria vida o desejo de liberdade.
Foi o que aconteceu a Sebastião Gomes, um
jovem assassinado pelas tropas indonésias nos últimos
dias do mês de Outubro de 1991 junto à igreja de Motael.
A celebração da missa de 14.º dia serviu aliás
de pretexto aos indonésios para descarregarem a sua fúria
assassina sobre os timorenses.
COBERTO DE SANGUE
Naquele dia Zito acordou cedo. Como de costume.
E foi ao seminário. Como de costume. Mas como o professor
faltou à primeira aula ele e os colegas decidiram ir à
missa de Sebastião Gomes. Depois tudo se precepitou. As imagens
da tragédia deixaram o Mundo em estado de choque. Quem as
viu certamente ainda se recorda que os timorenses tentaram com as
suas orações travar as balas assassinas disparadas
indiscriminadamente.
Quando acordou do pesadelo, Zito estava numa cama
de hospital com o corpo completamente coberto de sangue. “Fui
atingido pelos estilhaços”, afirma. Ao seu lado um
sem-número de militares indonésios arrebanhavam os
sobreviventes. “Eu consegui escapar porque o reitor do seminiário
disse-lhes:’este é um dos nossos”, recorda. Teve
sorte. “Só da minha turma morreram três alunos”.
Os tempos que se seguiram não são bons
de se recordar. “Foi um período bastante difícil”
– é tudo o que diz. Zito continuou no seminário
até que dois anos mais tarde se candidata a uma vaga para
uma universidade pública. Conseguiu uma bolsa de estudo e
partiu para Java estudar direito – “O povo indonésio
é muito acolhedor”. Mesmo assim a seiva da revolta
continuava a correr-lhe nas veias. E é assim que em Novembro
de 1994 ele e um grupo de colegas desferem um golpe que deixa as
autoridades de Jacarta à beira de um ataque de nervos.
O momento é escolhido a dedo – vários
líderes mundiais encontram-se na capital indonésia
para participar numa importante cimeira e o chamado ‘Grupo
dos 29’ invade a embaixada dos Estados Unidos em Jacarta.
Mais uma vez as imagens correram Mundo. E o presidente Suharto é
obrigado a ceder – os estudantes timorenses recebem guia de
marcha para Portugal. “No princípio foi difícil.
A língua, o clima, tudo era diferente. Mas o pior é
que não estava preparado mentalmente para o que vim encontrar”,
reconhece.
Primeiro estranhou, depois entranhou. E recomeçou
a sua vida praticamente do zero. Primeiro numa pensão em
Carnaxide, depois numa residência universitária em
Santa Apolónia. Entretanto mudou de curso e de cidade –
foi para Coimbra estudar Relações Internacionais.
Está actualmente no último ano do curso
mas tenciona ficar mais um ano em Portugal para amealhar novas ferramentas
para poder atacar o regresso a Timor-Leste. É por isso que
dá o corpo ao manifesto numa empresa especializada em assessoria
de imprensa. “Vou ver se o meu chefe me deixa ficar aqui a
trabalhar durante mais uns tempos”, desabafa. E só
depois é que Zito fará a viagem mais desejada. A viagem
de regresso ao seu país.
TIMOR NA INTERNET
Desde que saiu de Timor-Leste que nunca mais regressou.
É muito tempo, são muitas saudades. “A minha
mãe também já morreu. Mas ainda lá tenho
nove irmãos”, informa. Mesmo assim mantém-se
informado sobre tudo o que se passa no seu país. A tal ponto
que ele e um grupo de outros compatriotas criaram um sítio
na Internet onde se pode saber tudo, ou quase, sobre o país
de Xanana Gusmão. Se quer saber mais consulte o www.uc.pt
/ atc.
AMIGOS FAMOSOS
Muitos dos colegas de Zito Soares dos tempos do chamado
‘Grupo dos 29’ já regressaram a Timor-Leste.
E alguns ocupam mesmo lugares de destaque na administração
do primeiro país do século XXI. É o caso de
Arsénio Bano, secretário de Estado do Trabalho no
Governo de Mari Alkatiri. E também de Domingos Sarmento,
que estudou psicologia em Coimbra e agora trabalha no Gabinete do
presidente, Xanana Gusmão.
AFINAR A VOZ
Zito Soares tem um grande sonho. Quando regressar
a Timor-Leste quer abrir a voz e assentar arraiais num grupo coral.
Cantar é aliás uma das suas grandes paixões
– a outra é o futebol – e sonha conjugar os ritmos
tradicionais timorenses com a música sacra. Como pretende
estar à altura do desafio tem aproveitado a sua estadia em
Portugal para frequentar vários cursos de formação
tanto em direcção coral como técnico-vocal.
A HISTÓRIA
12 NOVEMBRO DE 1991
Soldados indonésios disparam sobre a multidão
que se manifestava no cemitério de Santa Cruz, em Díli.
O balanço do massacre é de 271 mortos. Mas trata-se
de um balanço provisório porque, passados 14 anos,
ainda há cerca de 100 pessoas que continuam desaparecidas.
Este acontecimento trouxe de novo para a ribalta o sofrimento do
povo timorense.
30 AGOSTO DE 1999
Os timorenses respondem com um categórico
“não” à integração na Indonésia
durante uma consulta popular, organizada sob a égide das
Nações Unidas. Mal são conhecidos os resullos,
militares indonésios dão o tiro de partida a uma vaga
de intimidação e destruição sem precedentes.
Os relatos da tragédia chocam a comunidade internacional.
20 MAIO DE 2002
Depois de muita dor e sofrimento Timor-Leste transforma-se
no primeiro país do século XXI. Xanana Gusmão,
o mítico comandante da guerrilha, toma posse como primeiro
presidente. Apesar da euforia o horizonte está carregado
de nuvens. É que, apesar da esperança chamada petróleo,
Timor-Leste é um dos países mais pobres do Mundo.
Jorge Araújo
http://www.uc.pt/atc/
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