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Economicamente, à luz da vela

O País está hoje melhor do que ontem, ou orgulhosamente dependente dos países doadores?
Esta é a pergunta. A resposta, essa, cada um que fale por si.


Na sequência da reunião com os parceiros de desenvolvimento de Timor-Leste dava-se conta da nota positiva ao desempenho económico do país no último ano mas, ao mesmo, tempo referia-se ao facto que, “no conjunto, estas tendências implicam que a pobreza está provavelmente a aumentar". Parece-nos assim haver aqui uma clara contradição.

Quase a completar 3 anos de independência reconhecida internacionalmente, e depois de realizar mais um encontro com os países designados parceiros do desenvolvimento, importa reflectir sobre o estado da Nação em termos da economia, do desenvolvimento e do progresso que se registaram ao longo dos últimos 35 meses de governação timorense, liderada pelo primeiro-ministro Mari Alkatiri.


Por mais que se queira ver o contrário, as estatísticas mostram que a pobreza em Timor-leste continua a ser uma realidade

Considerando que o Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN) constitui um bastião de referência do governo, estabelecendo o enquadramento para a gestão económica do País, constata-se que os objectivos do Plano determinam, basicamente, um desenvolvimento e progresso justos no que toca à atenção dedicada à educação, à saúde e ao bem-estar de toda a população. Prevê ainda a promoção do crescimento económico, a manutenção da estabilidade dos preços, o fomento do emprego e a redução do desemprego, o estabelecimento de um sector bancário e financeiro forte e uma gestão fiscal prudente. Em linhas gerais, estes eram os principais objectivos designados há 3 anos atrás. Hoje, grande parte desses objectivos parece estar longe de serem conseguidos. Senão, vejamos:

Economicamente dependentes

O abrandamento na actividade económica, iniciado em Maio de 2002 com a redução da presença da ONU, não só continuou como se agravou e segundo estimativas do Banco de Desenvolvimento Asiático (BAD), as taxas de crescimento positivo do Produto Interno Bruto serão nos próximos anos das mais baixas da região Ásia-pacífico.

Por outro lado, com uma balança comercial altamente deficitária e sem sinais evidentes e concretos de melhorarias significativas esta manter-se-á em valores percentuais do PIB incomportáveis para a economia timorense.

Em termos de Estabilidade Macroeconómica as pressões inflacionárias verificadas antes da independência baixaram, mas a contracção na actividade económica resultou igualmente num enfraquecimento considerável da procura de mão-de-obra, agravando ainda mais o desemprego. Por outro lado, os vencimentos praticados em Timor-leste continuam a ser nominalmente superiores aos praticados noutros países na região o que constitui um confrangimento a nível da apetência para o investimento no sector privado, perdendo ainda o País competitividade internacional. O mais grave é que, em termos sociais, os vencimentos reais em Timor-Leste não são mais altos do que nos países vizinhos, o que de imediato nos diz que o poder de compra dos timorenses é efectivamente inferior.

Quanto aos desenvolvimentos fiscais, Timor-Leste continua a viver com défices orçamentais a aproximarem-se da barreira dos 10% do PIB, sendo a situação fiscal tão simples quanto esta; o País produz muito pouco e, como tal, as receitas fiscais são o que são, muito poucas. A nível da execução fiscal, a rigidez e insensibilidades praticadas nas alfândegas por vezes é de tal forma que doar para Timor-leste se torna difícil, quanto mais investir.
Ainda assim, o valor dos empréstimos bancários subiu significativamente quando comparados com os 10% do valor dos depósitos verificados em 2002. Apesar da entrada em cena de mais um banco estrangeiro, o cenário relativamente aos financiamentos permanece sensivelmente o mesmo, continuando, praticamente, a ser um só banco a agir como catalizador da economia. O mesmo que já o vem fazendo desde 1999.
Ao fim de três anos de independência, Timor-leste continua a apostar num sector bancário…, sem um banco timorense.


Os vencimentos praticados em Timor-leste continuam a ser nominalmente superiores aos praticados noutros países na região o que constitui um confrangimento a nível da apetência para o investimento no sector privado, perdendo ainda o País competitividade internacional. O mais grave é que, em termos sociais, os vencimentos reais em Timor-Leste não são mais altos do que nos países vizinhos, o que de imediato nos diz que o poder de compra dos timorenses é efectivamente inferior.


As prioridades que não se cumpriram:

E no que concerne à estabilidade do País e à redução da pobreza, duas das áreas com prioridades imediatas estabelecidas em Janeiro de 2003 pelo actual governo, o cenário não é muito melhor:

O governo previa o estabelecimento de parcerias com a Igreja e parceiros privados para a área da educação; no entanto, a tentativa de implementação da polémica medida sobre o ensino facultativo da religião nas escolas públicas gerou uma onda de descontentamento em crescendo e deu origem à maior e mais longa manifestação popular na história de Timor-Leste independente, criando uma onda de instabilidade social sem precedentes no País.

Ainda na área da Estabilidade o governo pretendia, mas não conseguiu, estimular a criação de empregos, especialmente para os jovens e veteranos, estando ainda muito aquém o desenvolvimento da anunciada “política nacional de emprego”, ligando os ministérios relevantes e os investimentos públicos e privados.

Aquém ficou, também, a área da Redução da Pobreza, igualmente com prioridades imediatas traçadas há quase 3 anos atrás, não se verificando durante esse período o tal crescimento económico rápido considerado pelo governo como um pré-requisito para a redução sustentada da pobreza.

Por outro lado, não se verificaram apoios suficientes ao desenvolvimento do sector agrícola pelo que a segurança alimentar da maioria da população continua demasiado vulnerável. É conhecido o facto de que em Timor-Leste a segurança alimentar está principalmente ligada à existência do arroz e do milho, estando consequentemente ligada às colheitas destes produtos, praticamente inexistente durante os “meses magros”, entre Outubro a Março, precisamente quando se multiplicam, todos os anos, relatos da existência de fome em várias partes do País. Por mais que se queira ver o contrário, as estatísticas mostram que a pobreza em Timor-leste continua a ser uma realidade.

E o Ambiente?

Um quadro legal e regulador continua por ser eficazmente implementado a nível da gestão do ambiente, continuando-se a verificar-se altos níveis de desflorestação e de erosão dos solos. Por outro lado, sabendo-se que a maior parte dos timorenses depende de uma agricultura de subsistência e da exploração de uma série de recursos naturais, mantém-se assim o risco de incorrer mais danos ambientais e de se afectar a sustentabilidade dos ecossistemas.

Por último, as Infra-estruturas, o Investimento e o Desenvolvimento do Sector Privado

O governo identifica a necessidade de remover impedimentos ao investimento mas, na verdade, não desenvolve, em tempo oportuno, o ambiente adequado para que este se proporcione. A tão propagada lei do investimento ainda não é uma realidade e, mesmo que o seja de imediato, não conseguimos antever os reais benefícios da mesma a curto e médio prazo. Será essa lei que vai trazer investimentos para Timor-leste?

Na verdade, não acreditamos que a captação de investimento estrangeiro se resuma à implementação de um pacote de leis, mas sim na criação do elemento fundamental, a confiança, resultante da reunião de um conjunto de factores essenciais. E, nesse capítulo, os investidores estrangeiros até podem questionar: “mas, se nem o Estado Timorense investe no próprio País, porque que é que hei-de ser eu a fazê-lo?”

A prestação de bons serviços públicos, nos quais se incluem a água, o saneamento, a electricidade, as estradas, os meios de transporte aéreos e marítimos, as telecomunicações, os serviços postais e vários outros serviços de apoio, são vitais para o desenvolvimento da economia timorense.

O governo reconhece isso e considera ainda que a existência de boas infra-estruturas físicas é de uma importância extrema com implicações em relação ao desenvolvimento nacional, económico e humano. Admite, ainda, que é igualmente crucial para a redução da pobreza e para o desenvolvimento humano e que a sua contribuição para a geração de emprego é substancial.

Sabendo isso, encaramos o facto de que os desenvolvimentos infraestruturais não podem ser responsabilidade do sector privado, assim como o fornecimento fiável dos serviços essenciais, na ausência de iniciativa privada, devia ser também uma obrigação do Estado, incluindo a electricidade. Neste capítulo, quase seis anos depois da saída dos indonésios e 3 anos volvidos de independência, andamos quase à luz da vela.


Para esta senhora, quais os reais benefícios da anunciada verba prevista de US$4,5 biliões poupados até 2030, segundo o modelo proposto para a gestão das receitas do petróleo, que assenta na criação do chamado Fundo Petrolífero?

 

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ROSELY FORGANES
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