| Timor: Segundo Acto da Paixão
Na noite queimada de Díli
um homem cruzou as ruas, deteve-se nas praças,
olhou os escombros fumegantes,
os corpos apodrecendo entre ruínas,
ouviu o rumor surdo das preces
e o sussurro da encomendação das almas.
Não falou com ninguém,
nada quis perguntar
sobre o espectáculo da morte em seu redor,
talvez por lhe causar demasiado horror.
Continuou a caminhar, devagar,
como se sempre tivesse conhecido
a geografia e o sentido daquele lugar.
Ninguém quis saber o seu nome,
a sua origem e o seu destino.
Foram-no deixando passar, devagar,
sem sequer repararem
que dentro do corpo cansado
havia um homem exausto a chorar.
Quando um bando de algozes
na embriaguez do vinho,
no tonitruar das vozes
por fim o mandou parar,
ele parou sem deixar que vissem
que estava, baixinho, a chorar.
E quando um deles,
apontando-lhe uma arma, lhe perguntou
“quem és tu e que pensas de tudo isto?”
ele ergueu os olhos para o céu
com um sofrimento nunca visto
e respondeu num murmúrio:
“vim cá morrer pela segunda vez
e o meu nome é Jesus Cristo”.
José Jorge Letria
11 de Setembro de 1999
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