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Coisinhas de Timor 10
OLÁ AMIGOS CROCODILOS.
COMO MEU ACESSO À NET SE RESTRINGE, POR ENQUANTO, A 3 VEZES
AO MÊS E, SENDO ASSIM, NÃO POSSO LER TODAS AS CORRESPONDÊNCIAS,
GOSTARIA DE PEDIR QUE AQUELES QUE POR VENTURA PRECISEM FALAR COMIGO,
É SÓ ESCREVER DIRETO PARA MIM (gutotimor@hotmail.com)
com o título “URGENTE” . MAS EM BREVE AS COISAS
VÃO MUDAR...
JOVENS: HÁ 3 SEMANAS COMECEI A DAR AULAS
DE PORTUGUÊS (INFORMAL) AOS JOVENS DE TAIBESI (BAIRRO ONDE
EU MORO. A EXPERIÊNCIA TEM SIDO MUITO GRATIFICANTE.
CRIANÇAS: O TRABALHO COM AS CRIANÇAS
DE CAICOLI CONTINUA CADA VEZ MAIS FORTE. NA SEMANA PASSADA FOMOS
À PRAIA (FOI UMA FESTA GERAL, VOLTEI PRA CASA “PODRE”,
MAS MUITO FELIZ). NESTA SEMANA ELES VIERAM AO CENTRO ASSISTIR AO
FILME “DUMBO” DUBLADO EM PORTUGUÊS DO BRASIL (COM
DIREITO A EXPRESSÕES DO TIPO “E AÍ, CARA”
E “TÃO DANDO UM GELO NO GAROTO”).
ENFERMEIROS: NA PRÓXIMA SEMANA TERMINA O
CURSO BÁSICO DE PORTUGUÊS PARA OS ENFERMEIROS E FUNCIONÁRIOS
DE DUAS CLÍNICAS DE SAÚDE. AINDA NÃO SEI SE
VAI TER CONTINUIDADE, MAS COM CERTEZA FOI E ESTÁ SENDO UMA
DAS MINHAS MELHORES EXPERIÊNCIAS.
PRIVILÉGIO: SOU REALMENTE PRIVILEGIADO,
POIS NO ATUAL MOMENTO TENHO A OPORTUNIDADE DE TRABALHAR E APRENDER
MUITO COM CRIANÇAS, JOVENS E ADULTOS.
PRIVILÉGIO-II: COMO JÁ DISSE EM OUTROS
EMAILS, AGORA ESTOU MORANDO, TRABALHANDO E CONVIVENDO COM PESSOAS
QUE TIVERAM PAPÉIS DETERMINANTES NA LUTA PELA INDEPENDÊNCIA.ENTRE
ELAS, TENHO CONTATO MAIS PRÓXIMO COM A MANA LINA E O PADRE
MARTINS (QUE ESTÁ NO LIVRO DA ROSELY). NÃO ME CANSO
DE OUVIR TODA SEMANA AS HISTÓRIAS DE VIDA, SOFRIMENTO E SUPERAÇÃO
DESSE POVO MAUBERE.
AGORA AS “COISINHAS DE TIMOR-10”
TÍTULO: O PRECONCEITO MORA AO LADO, TEM
NOME E ENDEREÇO!
Sim, é verdade! O preconceito mora ao lado.
A mais ou menos uns 500 km de Timor, mas tem um representante preconceituosamente
eficaz que fica à distância de apenas 7 km do CJPAV
(Centro Juvenil Padre António Vieira).
Seu nome: logo vocês saberão.
Sua aparência: nada agradável.
Sua atitudes: dissimuladas.
Seu caráter: o que é isso?
Seu objetivo: minar o ensino da língua portuguesa, entre
outros.
Uma dessas minas foi colocada aqui no CJPAV...
... a embaixada australiana alugou o salão do CJPAV para
fazer uma exposição de arte aborígene (os primeiros
habitantes e legítimos donos das terras australianas). As
obras são mesmo lindas. O problema é que os comentários
sobre as obras estão em língua indonésia e
inglesa apenas. Fiquei indignado, revoltado, ultrajado, inconformado
e outros “ados” mais.
Não podia me calar diante de tamanho descaramento
e insulto. Rapidamente preparei o contra-ataque. Durante a Cerimônia
de inauguração da exposição (que estava
repleta de pessoal da “alta sociedade”: parlamentares,
embaixadores, etc), eu perguntei (perto de outras pessoas) à
organizadora da exposição (australiana que trabalha
na embaixada aqui) o porquê de não haver comentários
em tétum e português, já que essas são
as línguas oficiais do país. Fiz questão de
perguntar em tétum, pois sabia de antemão que essa
funcionária o falava bem. Ela não ficou nada feliz
com a minha indagação e deu a desculpa esfarrapada
de que não tinha tradutor. Então disse que ela mesma
o poderia fazer, afinal dominava o tétum. Enquanto isso um
timorense e um outro malae (estrangeiro) acompanhavam o colóquio.
Conclusão: ela procurou, diplomaticamente
(é claro), se livrar da minha presença o quanto
antes. Se para nós brasileiros, normalmente já é
difícil conseguir visto para Austrália, para mim (a
partir de agora) isso se torna tão fácil quanto um
fanático brasileiro torcer para a Argentina. Devo ter entrado
na lista das “personas non gratas”... e tenho orgulho
disso.
Como se não bastasse o relatado acima, essa
mesma funcionária e mais um dos seguranças da embaixada,
tiveram o disparate de cometer mais uma atitude hediondamente preconceituosa
e paradoxal...
... o Luca, que é suiço e idealizador
da “Arte Moris” (a única escola de arte de Timor)
trouxe, à convite do CJPAV, 10 alunos timorenses da escola
para a inauguração e esses jovens artistas timorenses
foram barrados; somente o Luca (porque é malae) pôde
entrar.
Eu, a Fátima e a Rosalina só soubemos
do ocorrido depois, pois senão teríamos evitado esse
ato absurdamente preconceituoso contra o povo timorense. Realmente
não nasci para viver nesse meio da alta sociedade e confesso
que algumas situações (como essas duas que eu acabei
de citar) me dão nojo, desdém, asco, repugnância,
aversão... eu me coloco na pele desses jovens artistas timorenses...
imagine serem impedidos de entrar para ver uma exposião de
arte que acontece no seu próprio país. A propósito,
que eu saiba nenhum artista timorense foi convidado para a “Cerimônia
de Inauguração” da exposição de
arte do povo aborígene que assim como o povo maubere
ainda hoje carrega na pele as marcas indeléveis do
preconceito por parte do governo australiano. Tudo isso me fez lembrar
de uma canção do nosso querido Caetano...
“Quando os homens exercem seu podres poderes...”
protestos do guto. |