| Regina Brito
Desabafo
Timor Loro Sa’e é uma página
nova: na vida dos timorenses e na vida daqueles que por aqui passam.
Sempre é assim, quando um mundo que parece novidade se descortina
à nossa frente – mundo que se mostra novo, ainda que
seja a rua nossa de todo dia.
Estar aqui é assim: descobertas de cheiros,
de histórias e de sussurros... Encontros barulhentos em ruas
desordenadamente cheias de tudo: crianças, containeres, ambulantes,
microlets, cambistas, cães... Reencontros esquisitos com
cenas já vistas em outros sítios... Redescobertas
inevitáveis de seres que nunca quisemos ser...
Estranhamente, estes homens, estas mulheres querem nos ouvir...
Gostam de nossos sons... Sorriem, sinceramente, com nossa presença...
Percebem o que falamos?... Precisam disso que, presunçosamente,
parecemos lhes dar?
Talvez não haja resposta: calam-se, pois não
seríamos capazes de entendê-los. Não pela dificuldade
da língua – pobre de nós, que só falamos
o português! – mas pela diferença de vida.
Penso muito no “Seu” João... “Seu”João
Magno. “Seu” João de Ainaro. De um sorriso timorensemente
dolorido, magnanimamente doce. Quem sou eu para dizer-se meu servo,
“Seu” João? Quem sou eu para ensinar algo para
quem sofreu a vida? Para esse que sabe o que é calar uma
língua? Para quem conhece a verdade da fome? Para quem, de
fato, já sentiu dor? Para quem experimentou a frieza de todas
as montanhas? Quem sou eu para querer mexer numa existência
tão próxima do sublime? Eu, sempre tão mesquinhamente
eu mesma... ou nem sequer isso...
Participamos de uma missão de solidariedade.
Que solidariedade é essa a nossa que carrega o peso de uma
série de atos unitários? Egocentricamente solitários.
Egoistamente solidários. Insuportavelmente solitários.
Maquiavelicamente solidários.
Estar com aqueles homens e mulheres é a verdadeira
solidariedade. Solidariedade de não ser só. Solidariedade
de ser sol. Solidariedade de sorriso sincero. Solidariedade de querer
todas as coisas. Solidariedade de cada palavra. Solidariedade de
gestos contidos, mas reais. Solidariedade de esperar pelo outro.
Solidariedade de vontade de vida.
“Seu” João, desculpe-me por essa violência
camuflada de solidariedade.
“Seu” João e todos os outros joões e marias
e ximenes e belos e gusmões... é que me pegam pela
mão e me ensinam... A ter qualquer esperança. A olhar
nitidamente em volta. A oferecer uma força silenciosa. A
buscar uma fé. A ser povo de um país. A transformar
palavras em atos. A acreditar que o outro pode ser bom. A tentar
fazer-me um pouco gente.
Dili, 24/08/01
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