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Daniel - 17/01/2003
Curiosidades



Cara Milena, Rosely, Walmir e demais interessados,

Come-se, sim, carne de cachorro aqui (Asu -- lê-se áçu). Mas isso não tem nada a ver com os espetinhos que se vende na rua. Os espetos são os "sate", um prato típico, feito com carne de gado intercalada com bastante gordura, e que são uma delícia (pelo menos até agora não me provocaram caroços).

A carne de cahorro aqui é muito cara, e é vista como uma especiaria, a ser servida em ocasiões muito especiais. Uma amiga nossa, brasileira, que era vegetariana há 6 anos -- herança do período que passou na Índia -- foi a um almoço de natal na casa de amigos timorenses e descobriu que o prato era Asu. E não tinha como recusar, pois é um prato caro que não podia ser desprezado. Teve que romper seu vegetarianismo logo com um caõzinho!

A carne de cachorro não é vendida em mercado. Às vésperas de eventos significativos, passa um vendedor com os bichinhos ainda vivos, oferecendo. Compra-se o cão vivo e se mata apenas no dia do preparo. Os cães domésticos não correm o risco de ir para a panela simplesmente porque são esqueléticos. Acho que não dão nem para sopa.

Aliás, a relação dos timorenses com os animais é algo interessantíssimo. Andando pelas ruas de Dili podemos encontrar centenas de porcos, cabritos, galinhas e até mesmo vacas passeando pelas áreas verdes. Cria-se muito animal, livremente, por aqui. Mas não é para um uso prático, como imaginamos. Apesar de haver centenas de porcos no nosso bairro, quase não ouço os bichinhos sendo abatidos, nem nunca vi gente vendendo salame ou toucinho por aí. Os animais não são reserva de calorias. São reserva de riqueza. Eles são a poupança da família. Conversando com o Luís Quintaneiro, um simpático economista que trabalha na Autoridade Bancária, ele falou da dificuldade em medir nível de renda em Dili, pois grande parte da riqueza das famílias não está em moeda. Esta não é uma economia monetarizada. Muito da riqueza aqui circula com quatro patas e abanando o rabinho. É assim, por exemplo, que se explica algo que sempre me inquietou. O valor de um boi, por exemplo, é medido pelo tamanho do chifre. Quanto maior o chifre, mais velho o bicho, e mais caro ele é. A princípio achei maluquice. Se é um boi velho, devia valer menos, não é? É o que pensamos com nossa lógica utilitarista. Mas aqui a lógica é outra. Esse boi é uma poupança que existe há muitos anos, logo deve possuir um saldo elevado. E assim vemos os fundos de investimento dos timorenses fuçando na nossa porta, balindo na equina e pastando nas praças. É trocando animais que se pagam dívidas, fazem-se casamentos (paga-se o barlaque) funerais, lutos e deslutos.

Sobre a internet, Milena, seu namorado deve ser um afortunado que trabalha na ONU. Na verdade, há várias internets por aqui. A dos pobres mortais é a da Telstra, cara e inconstante. A ONU tem um servidor próprio do PNUD, que oferece inclusive acesso discado às ONGs. Além disso, o Instituto Camões e o Banco Nacional Ultramarino (BNU) tem também servidores próprios, embora não ofereçam o servico de acesso discado (funcionam apenas como cibercafé - gratuito, mas com uma fila de espera que gira em torno de 50 minutos).

Quanto aos carros, o Waldir lembrou bem. Os carrões asiáticos, que custam fortunas no Brasil, são bens baratos e relativamente acessíveis por aqui, pois vêm aos montes dos países de origem a baixo custo. Isso cria paisagens estranhíssimas para um brasileiro. Vê-se, por exemplo, um Hyundai moderníssimo, com pintura perolizada e o diabo a quatro, estacionado em frente a um restaurante feito de zinco, caindo aos pedaços. Certamente é mais barato comprar o Hyundai do que reformar minimamente a casa.

Bom, e já que o GUTO resolveu espalhar notícias a meu respeito, fico à vontade para contar algumas dele. Em sua dura jornada de navio, teve de enfrentar a adversidade dos engraçadinhos de plantão, que faziam mil trocadilhos com seu nome. "Uto", em Bahasa, é piolho. Imaginam pelo que passou o pobre rapaz. Mas logo ele conquistou a simpatia e a admiração dos passageiros, dando demonstrações de suas habilidades paranormais. Com um conjunto de 5 cartelas plásticas com números aleatórios, era capaz de descobrir a idade de qualquer um. Quase foi adotado como o feiticeiro do navio, e o vidente da aldeia em que mora hoje, em Dili, já deve estar bastante preocupado com essa concorrência malai.

Um grande abraço a todos,

Daniel



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