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Daniel
Da motoca ao helicóptero
Enfim as chuvas chegaram para valer. Horas de chuva por dia, às
vezes torrencial, daquelas que se tem a impressão de que
o telhado da casa não vai agüentar, e logo você
se afogará com o resto do mundo, às vezes chuvisco
fino, desses que entram pelo nariz, pelos olhos e pelos ouvidos,
como se a gente morasse mesmo dentro de uma nuvem. A temperatura
baixou, e as gripes chegaram. Tanto que esses dias tomei meu primeiro
banho quente em Timor. Panela no fogo, alguns minutos de espera,
mistura com água no balde, e pronto. Já podemos tomar
banho de caneca, com água morna. Que delícia! Já
tinha até me esquecido de como é relaxante ouvir o
barulho da chuva lá fora, sentindo a água morna escorrer
pela pele da gente. Saio com outra energia.
E energia é do que mais tenho precisado nos últimos
dias. É que aceitei um desafio maluco - o que a gente não
faz quando as contas apertam no fim do mês... Entrei como
sociólogo responsável pela realização
de um "Beneficiary Assessment Survey" (BAS - um survey
para levantamento dos impactos junto aos beneficiários) de
um projeto de microcrédito do Banco Mundial. Desafio: percorrer
6 distritos realizando entrevistas com mais de 120 pessoas em pouco
mais de uma semana. Para quem conhece as estradas de Timor, sabe
porque chamo o desafio de maluco. Mas antes de enfrentar as estradas,
pude curtir uma experiência fantástica. Como um dos
distritos a entrevistar é o de Oecusse - o enclave timorense
na parte indonésia da ilha - e a distância impediria
qualquer tentativa de acesso por terra ou mar dentro do prazo da
pesquisa, consegui que me levassem para lá em um helicóptero
da ONU.
Timor é mesmo a terra das minhas primeiras experiências.
Um mês depois de estrear na moto, ando de helicóptero
pela primeira vez na vida. É um progresso considerável...
Cheguei ao heliporto às 5h30 da manhã. Não
preciso dizer que estavam todos com a cara amassada. A minha surpresa
foi ver o número de pessoas que estava ali para embarcar.
Éramos bem umas vinte. Uns tantos soldados e oficiais da
PKF, um grupo de uma ONG da área de saúde, eu e mais
um do projeto de microcrédito. Na hora fiquei preocupado.
Quer ver que apareceu uma emergência e vão me deixar
de fora do vôo? - como eu não era "U.N."
(staff da ONU) meu número de prioridade era 6, o mais baixo
da lista. Ou então arranjaram um avião, não
é possível meter tanta gente num helicóptero,
é? É. A máquina era enorme. Um helicóptero
russo de transporte de tropas e cargas, em que cabiam muito bem
22 pessoas, mais tripulação e algumas toneladas de
carga. Quando ligam-se as hélices, a experiência é
incrível. A primeira sensação é de que
se está dentro de uma batedeira. Tudo sacode, chacoalha em
movimentos circulares como se fosse uma máquina de lavar
roupa. Taí, para sentir-se dentro de um helicóptero,
sente-se numa máquina de lavar roupa e ligue a centrifugação
no máximo. Quando ele começa a subir, a sensação
é fantástica. Tudo pára de sacudir, e parece
que estamos em uma grua ou num elevador, subindo suavemente. Só
que não há último andar, ele sobe, sobe, sobe...
Em menos de uma hora estávamos em Oe-cussi. As paisagens
pelo caminho foram lindas. Montanhas, as marcas dos rios que só
existem durante a chuva, mas que arrastam toneladas de pedras e
cascalho pelo caminho, o azul esverdeado do mar. Em Oe-cussi, o
ar puro das montanhas e o brilho do sol na vegetação
enchiam qualquer um de alegria. Logo começamos a buscar os
beneficiários do projeto para as entrevistas. Das 8h30 da
manhã às 8h30 da noite, rodei tanto por Oe-cussi que
não o esquecerei tão cedo. Entre uma entrevista e
outra, paramos no monumento português em Lifau - o primeiro
lugar a que chegaram os portugueses em 1515 e a primeira capital
de Timor, antes da transferência para Dili no século
XVIII. Como em todos os pontos de descobrimentos portugueses, lá
estão um canhão e uma cruz, com a inscrição
(não sei se recente, ou não) "Aqui Também
é Portugal". Não consegui descobrir, mas se a
inscrição ali esteve durante os 25 anos de ocupação
indonésia, não deixa de ser incrivelmente irônico.
Às 15h, fizemos uma pausa. Enquanto esperava a retomada das
entrevistas, fiquei olhando o mar e me perdendo em matutações.
Fiquei pensando que era um privilégio ter ido a Óe-cusse
por via aérea. O próximo pesquisador que porventura
vier a fazer o BAS de um novo projeto de microcrédito certamente
terá que ir para lá quando a ONU já tiver partido
daqui. E aí só restará o transporte por mar
(1 dia de viagem) ou terra (sabe-se lá se você chega...).
Todas as ligações aéreas dentro de Timor são
feitas pelas Nações Unidas, que tem uma tremenda estrutura
para tanto. Aliás, essa foi uma das minhas descobertas. Achei
que a coisa era bem mais simples. Mas não, a ONU tem uma
divisão responsável por fazer essas ligações,
que administra um volume considerável de vôos, rotas
e aeronaves diariamente. É a MOVCON, quase como o nosso DAC,
ou a Infraero, ou os dois juntos, não sei. Sei que, por exemplo,
nosso "check-in" em Oe-cussi estava marcado para as 7h45min.
Soubemos disso no dia anterior, quando fomos ao escritório
da UNMISET por lá para confirmar se nossos nomes estavam
na lista dos vôos da manhã seguinte. Em Oe-cussi há
uma pista de pouso de grama, e o lugar do tal "check-in"
era um quiosque que mais parecia uma churrasqueira de parque. Quando
chegamos, já havia bastante gente à espera. Às
7h45 chegou um carro da ONU com o pessoal da MOVCON - quatro soldados
australianos, com o logo da divisão de transportes no braço.
Traziam uma balança. Instalaram a balança no quiosque,
tiraram a lista de nomes do bolso, e começaram o check-in.
Ganhei até um cartão de embarque!
Mas, voltando às minhas matutações, comecei
a sentir de perto o quanto muito do que se vive em Timor é
ainda exceção. E lembrei como as pessoas, ao menos
em Oecussi, já viam com saudades a exceção
que viveram no tempo da UNTAET. Vários dos entrevistados
haviam dito, até então, que a situação
agora estava muito mais difícil que há alguns anos.
Os projetos da ONU e de ONGs já quase não existiam,
e com a sua redução reduzia-se também a circulação
de dinheiro, a busca por serviços locais (transporte, guias,
motoristas, mecânicos, etc.), as opções de emprego,
enfim, a economia se retraíra.
Nisso, passa à minha frente, quebrando grosseiramente a serenidade
do mar e das minhas idéias, uma escavadeira enorme, branca,
com o "U.N." pintado em grandes letras pretas. Logo atrás,
um trator de esteira, desses para conservação de estradas,
também das Nações Unidas. No isolamento de
Oe-cussi, aquela presença enorme e ruidosa chamava a atenção.
E mais ainda pelo fato de não serem máquinas de Timor,
mas da ONU, que um dia iriam embora. E então, como Timor
faria os serviços que hoje vem sendo feitos por este equipamento?
Lembrei-me de uma informação da Kelly, pela qual o
exército de Timor não teria nem ao menos um helicóptero,
pois a aquisição de um desses equipamentos equivalia
ao orçamento anual de todo o Estado timorense. É claro
que poderia ter se recebesse como doação, tal como
os geradores que hoje garantem a Dili 24 horas de luz por dia, doados
pela Noruega, ou os detetores de bomba da polícia, doados
pela Austrália, ou a reconstrução do prédio
administrativo da prisão de Becora, paga pela Dinamarca,
ou como os cadernos de multa da polícia, também doação
australiana, ou como a reconstrução do edifício
do Liceu, doada pela prefeitura de Lisboa, ou como tantas outras
coisas mais, que um dia certamente se acabarão.
O descontentamento local com as dificuldades e a fala de projetos
voltou na conversa com alguns jovens, ainda no meu descanso em frente
ao mar. Exercitando meu tétum - passei o dia tendo que me
comunicar assim, o que foi ótimo - puxei assunto com um simpático
"Oecussi kapas los" (Oecussi é muito bonito). "La
kapas," disse o menino, desmentindo-me. "Brasil kapas,
Oecussi la kapas". Seu sonho era falar português para
ir morar no Brasil. Em Oecussi, não valia a pena. "Não
há carros, não há serviço, Oecussi não
é bom". E eu, adorando aquilo pela sua tranqüilidade,
me dava conta de como as expectativas do ser humano podem ser diferentes.
Mais tarde, já indo para novas entrevistas, vi outra cena
marcante, e minhas matutações continuaram. A caminho
de um subdistrito na zona rural, uma tubulação de
água estava sendo instalada às margens da estrada.
Eram tubos pretos que iam sendo encaixados uns nos outros. À
frente, uma equipe de trabalhadores timorenses e um engenheiro malai
com cara de australiano conferiam o encaixe dos tubos com um equipamento
cheio de fios ligados a um computador. Pensei comigo: caramba, acho
que nem no Brasil instalamos tubos com tamanha tecnologia. Assim
como os tubos, de repente, as várias imagens se juntaram
em minha cabeça, e minhas matutações concluíram
algo. A ligação aérea dentro de Timor é
exceção. As máquinas para serviços de
infra-estrutura são exceção. A tecnologia,
os equipamentos, a mão-de-obra e o dinheiro para obras de
qualidade são exceção. Tudo isso vai ou já
está indo embora. Em muitos setores já se foi, e o
povo reclama disso. De 1999 a 2001 Timor foi transportado do inferno
ao paraíso, e agora se vê, de súbito, abandonado
no purgatório. É fogo. Quem quer aceitar a normalidade
quando a exceção foi muito melhor? A situação
de qualquer governo, num tal contexto, fica mesmo complicada. Afinal,
não dá para competir com a ONU. Mas como fazer as
pessoas entenderem isso no Timor Profundo?
Lembrei do que vi na viagem que fizemos, há umas três
semanas, a Baucau. Pelo caminho, víamos centenas de campos
de arroz. Alguns eram lindos, verdadeiras paisagens de filme, ladeados
por palmeiras, prateados pelo reflexo da água que corria
de um socalco a outro, manchados pela névoa do tempo de chuva
e emoldurados pelos vales e montanhas ao fundo. Uma beleza que tocava
a alma. Mas muitos mais estavam completamente secos, abandonados.
Os canais de irrigação precisavam de reparos que ainda
não haviam sido feitos. Durante décadas as comunidades
locais se organizavam antes das chuvas para reparar manualmente
os canais. Nos últimos anos, com os projetos internacionais,
máquinas vieram para fazer o serviço. Hoje, as pessoas
já não reparam seus canais, mas esperam, em vão,
pelos projetos que já se foram.
Fiquei com a impressão de que Timor terá que fazer
a experiência inversa à que eu tive. Enquanto eu me
acostumei com minha motoca, pulando os buracos das ruas de Dili,
tomando chuva no lombo e levando fumaça na cara, para depois
me deslumbrar com o helicóptero russo que viaja a mais de
200 por hora, o Timor de hoje primeiro deslumbrou-se com o suporte
e a tecnologia excepcional que se montou por aqui. Agora terá
que aceitar os trancos da motoca. A normalidade não é
nem será fácil.
PS. Kelly me lembrou depois que as máquinas
que eu vi em Oecusse, como algumas outras máquinas pesadas
da ONU que ainda estão em Timor, ficarão por aqui
quando a UNMISET acabar. Resta saber como se fará (e quem
a fará) a sua manutenção...
PS2. Para combinar com o clima "vale-tudo"
ainda vigente na ortografia do Tétum, escrevi "Oecusse"
de todas as formas que já vi por aqui. Quem quiser conferir,
volte atrás.
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