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Daniel e kelly 27/12/02

Caros amigos,

Ficamos contentes de saber que nossa mensagem foi promovida ao estatuto de crônica, mas realmente não era para tanto. É apenas uma mensagem. Talvez a melhor das que a gente ainda vai escrever, pois é a que fala das primeiras impressões. Aliás, o ruim do trabalho antropológico é mesmo isso, as primeiras impressões são sempre as mais ricas. Com o tempo a gente se familiariza com as paisagens daqui e os relatos necessariamente vão ficando menos surpreendentes. A estréia é sempre o ponto mais alto do nosso texto. Se formos fazer um relato freqüente ele logo ficará chato e frustrante. Então, não podemos prometer a tal crônica semanal. Mas sempre que tivermos algo a dizer, escreveremos.

A novidade por aqui é que agora temos quase 24 horas de luz por dia. A promessa era de que a partir do dia 20, por causa do natal, não faltaria luz em Dili. É verdade que chegamos a ficar 4 dias inteiros com luz - chegamos a nos dar ao luxo de deixar louça na pia de um dia para o outro, na certeza de que haveria luz (e água) no dia seguinte para lavá-la. Mas ontem a festa acabou, e já ficamos algumas horas sem luz. Dili tem agora novos geradores - doação da Noruega - e a tendência é a redução dos cortes. Vamos ver..

O calor também tem diminuído com as chuvas, o que já nos permite dormir sem ventilador, quando necessário. As coisas estão melhorando! Acho que é o clima natalino. Sorte do Guto, que chegou semana passada.

Mesmo assim não temos podido dormir muito. No sábado acordamos às 6h da manhã com o barulho do escapamento solto do carro do vizinho, que estaciona bem em frente à janela do nosso quarto. Além do barulho, a fumaça entra pela janela, quase nos intoxicando. Já pensei se isso não é tentativa de homicídio, alguma nova técnica de resistência timorense contra os Malai. Domingo acordamos com outro vizinho ouvindo música hindi no último volume, às 6h30min - é a trilha sonora daquele bendito filme do Ali Asian Food, sucesso do momento. Não sei, mas acho que deve haver, na legislação timorense, casos em que é permitido matar o vizinho. Deve haver. E do jeito que as coisas aqui se resolvem por meio de katanas, não devem ser poucos. Acordar o vizinho às seis da manhã no domingo com escapamento solto ou som no último volume deve ser caso para katana.

Mas olhamos pelo lado positivo: acordamos cedo e aproveitamos melhor o dia. E o que não falta são coisas a obervar. Aliás, nossa casa é ótima para isso. Temos uma varanda que dá direto para a rua, sem muros, e passamos sempre algumas horas observando a rotina da vizinhança por aqui. Os vizinhos são ótimos, muito abertos e preocupados conosco. Temos também vizinhos eventuais, os soldados australianos, que passam de quando em quando fazendo a ronda em torno da Embaixada, aqui perto. Dia desses passou a dupla de soldados enquanto as crianças jogavam bola em frente à nossa casa. Foi uma cena fantástica: dois brutamontes -- e eles andam todo equipados, com cantil, metralhadora, um cinturão à lá Batman, roupa camuflada e óculos escuros -- parando para bater bola com a criançada do bairro. Timor, terra de encontros...

Outra novidade é o natal. Dili já está cheia de presépios. Montam-se grandes presépios pelas ruas, com estrutura de madeira e palapa, cobertos por folhas de palmeira, com a representação do nascimento de Jesus. Ainda não tivemos tempo de observá-los em detalhes, mas como as boas misturas de Dili, vê-se que a palapa se mistura com guirlandas de plástico colorido, estampas impressas e luzes pisca-pisca. À noite, vêm-se pessoas reunidas em torno dos presépios até tarde. É bonito de se ver. Parece-nos até agora que o natal por aqui ainda é menos comercial.

Este final de semana pudemos acompanhar uma celebração de natal organizada pelo Levi e pela Simone, com a participação de outros missionários brasileiros em uma aldeia próxima a Dili. Foi muito bonito, e muito interessante. Os brasileiros têm mesmo um jeito especial para se aproximar dos timorenses. Vê-se que todos ficam muito à vontade. Por um lado o cenário lembra muito algumas paisagens do sertão nordestino. Por outro, os brasileiros se esforçam muito para entender e se fazer entender com os timorenses. Conseguem mesmo se comunicar bem em tétum com o pessoal, coisa que ainda não vimos da parte de outros internacionais por aqui.

Bom, passado o natal teremos outras impressões, e voltamos a escrever. Por enquanto, desejamos a todos um natal repleto de alegrias, e que em 2003 as realizações de todos sejam a melhor expressão de seus sonhos.

Um grande abraço,

Daniel e Kelly

PS. Rosely, pode deixar que assim que virmos a Lambada mandamos lembranças. Olá Valmir, também estamos curiosos para te conhecer. Por sorte não temos que intermediar brigas familiares com a proprietária, que é aliás uma famosa cantora por aqui - a Farida. E ainda bem, pois ela é da família do Alcatiri, e briga familiar com essa familia não deve terminar bem.

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ROSELY FORGANES
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