| Primeiras impressões
Daniel e Kelly
14/12/02
Olá amigos crocodilos,
Desculpem-nos o silêncio durante os últimos
dias, mas realmente não está fácil lidar com
a internet por aqui. Agora descobrimos um esquema menos caro na
Telstra e pretendemos acessar o e-mail uma vez por semana, como
rotina. Assim, nossas mensagens podem ter, de vez em quando, um
tom ultrapassado
Sim, estamos vivos e bem. No fim, os eventos do
último dia 4 não foram realmente tudo o que pareciam
ser. Um de nossos vizinhos, inclusive, disse já haver uma
certa rotina nos tumultos de final de novembro, mas que a partir
do começo de dezembro, tudo se acalma.
O Hello Mister já está até
funcionando de novo, com pequenas reformas, vendendo suas mercadorias
dentro de um prédio ainda marcado pela fumaça e com
as grades retorcidas pelo fogo. É um pouco a expressão
de Dili. Além de uma placa dizendo "open", há
uma faixa na rua em que se lê "Hello Again".
Acho incrível a mistura de padrões
e línguas por aqui. Dili é mesmo uma cidade de encontros.
O "taxi" convive com o "taksi"; o "Hello
Mister", como o "Obrigado Barraks" (assim, escrito
errado mesmo - o correto seria "barak" - alguém
sabe por que insistem no erro?). Temos um "Suzy Beauty Salon",
no meio da estrada para Komoro, ao lado de uma oficina mecânica,
e vemos dezenas de placas com uma reinvenção da ortografia
inglesa, como a de um cabelereiro unissex que diz "men in women"
(deve ser uma orgia...).
Dili é uma cidade entre padrões indonésios,
portugueses e australianos. Até nos tipos de tomada elétrica,
há os 3. Botijões de gás? Há que se
saber se o seu adaptador é australiano ou indonésio,
senão você não compra, ou compra o errado, como
fizemos. Há placas de lojas que dizem "Dili - Timor
Leste". Outras, "Dili - Timor Timur", e outras ainda
"Dili - East Timor". Emblemático.
Os restaurantes aqui são um espetáculo
à parte. Há 10 dias fomos a um chamado Ali Asian Food.
Uma lojinha de 10X5m. Na entrada, um balcão tipicamente local,
com a comida exposta em vitrine. Esse é o costume do "por
quilo" aqui. Você aponta ao funcionário, geralmente
mulheres, o que quer e ele/ela monta o seu prato. Paga-se por prato.
Neste restaurante, ficava uma mulher de rosto bem timorense atendendo
no balcão. Passando o balcão estavam as mesas, de
madeira, cobertas com toalhas xadrez, estilo cantina italiana, imundíssimas.
Havia tantas manchas que não precisávamos do cardápio,
podia-se escolher o prato pelas manchas da toalha. Mas havia também
um menu em plástico com bem uma centena de pratos, todos
identificados com fotos bem feitas. Nas várias sessões
do menu, cozinha Malaia, Tailandesa, Timorense e Ocidental (assim
posta, "Western Food"). Tudo em bom inglês, e com
os preços riscados. Os novos preços, escritos com
caneta hidrocor, eram a metade dos antigos. Sinal óbvio do
esvaziamento de internacionais que Dili viveu com a independência.
Uma vez sentados, veio nos atender um garçom indiano. Rosto
moreno, bem escuro, cabelos absolutamente negros e lisos. O estereótipo
do indiano. Combinava bem com o filme, também indiano, sucesso
recente de Boliwood (o centro de produção do cinema
indiano), a passar, em VCD, na televisão 29 polegadas ao
fundo. Como é normal por aqui, nunca sabemos em que língua
nos dirigir às pessoas. Começamos a nos arriscar com
um tétum rudimentar para sermos simpáticos. O garçom
se atrapalha. Não fala tétum, e rápido, faz
sinal para um sujeito que vai passando pela porta do restaurante.
O sujeito entra, e se oferece para ser nosso intérprete.
Fala um português perfeito. Pergunta de onde somos. Do Brasil?
Conhece bem o Brasil, já esteve em Brasília, no Rio,
em São Paulo. Nos espantamos. Ele já foi vice-ministro
na Administração Transitória, no tempo da UNTAET.
Depois de conversarmos um bocado, pedimos explicações
sobre um prato. Penso que o garçom deva falar bahasa. Vejo
o vice-ministro virar-se para o garçom e traduzir a nossa
dúvida... em inglês! O garçom fala inglês!
E nós a fazer toda aquela onda com um vice-ministro de intérprete,
para traduzir uma pergunta simples sobre um prato para o inglês!
Todas as dúvidas tiradas, escolhemos nosso prato. Kelly ainda
pergunta algo sobre um prato ao Ministro. O senhor come o quê,
aqui? Ele entende que está sendo convidado a jantar, como
retribuição pelo serviço, e responde, muito
solícito: "não , obrigado, já jantei."
Ôps, desencontros. Descobrimos ainda que o vice-ministro,
vestido em um jaleco branco, trabalha na farmácia ao lado.
Isto é fantástico. Vamos a um restaurante bem popular
e temos como intérprete um ex-ministro que trabalha no balcão
de uma farmácia, fala português, conhece bem o Brasil
e nos traduz para um garçom indiano, em inglês! Só
em Dili....
A estética de tudo por aqui é bastante
apimentada. Tudo tem cores fortíssimas e muito som. Pegar
uma microlete é uma viagem fantástica. Adesivos por
todo lado, dance music no último volume. Ontem peguei uma
que tocava uma versão "bate-estaca" de Aquarela
do Brasil. Os restaurante têm decorações espetaculares,
misturando retratos de santos católicos, latinhas de refrigerante
coloridas e pinduricalhos mil. Os pratos há de vários
tipos: de travessas de plástico made in China a bandeijinhas
subdivididas, com motivos infantis. Os guardanapos costumam ser
rolos de papel-higiênico. Sinceramente, lembro da discussão
que pintou na lista sobre a qualidade da música brasileira
que toca aqui, e não tenho dúvida: é a música
perfeita para a estética local. Em um restaurante assim ou
em uma microlete colorida, é "fuscão preto"
e "entre tapas e beijos" o que mais combina. Um João
Gilberto seria a coisa mais deslocada do mundo para a estética
local. Se eu fosse timorense, adoraria Zezé di Camargo e
Luciano.
Mas nem tudo são flores por aqui. nossas
condições de vida não são as melhores.
Temos luz cerca de 12 horas por dia. Quando não há
luz, não há água, pois essa vem de um poço
antigo (tem mais de 100 anos!) atrás da casa, puxada por
uma bomba elétrica. O calor e os mosquitos completam o cenário.
Mas vamos nos virando. Aliás, me pergunto como que ninguém
ainda criou um Procon por aqui. A energia elétrica é
caso de polícia. Não tem hora para faltar. Já
passamos mais de 40 horas sem luz quando uma árvore derrubou
a rede aqui perto. A rotina do apagão é inconstante.
Normalmente a luz falta em horários alternados, por períodos
de 3 a 4 horas, 3 vezes por dia. Mas há dias em que não
falta nada, e outros em que falta o dia todo. E custa caro. Há
quem pague contas de 500 dólares por mês. Mas se você
quiser pagar, precisa ir até um lugar (que ainda não
sei onde fica), dar o número do relógio, voltar no
dia seguinite, pegar o boleto, pagar no banco e voltar lá
para darem baixa. Não espanta que muitos não paguem
luz.
O lixo é outra história. Ricardo,
cadê você que ainda não nos encontramos? Estamos
curiosos para te conhecer. Manda uma mensagem para o nosso celular
(043 882 9518). Temos um lixão atrás de casa, e não
sei como podemos, ao menos, evitar que ele cresça.
Politicamente, é fácil perceber que
a situação é bem mais complexa do que parece.
Sentimos Díli como uma panela de pressão, e com problemas
na válvula, podendo explodir a qualquer momento. Além
de um grande faccionalismo interno, que ainda vamos levar muito
tempo para entender, há uma desigualdade social gritante,
agravada pelo cenário que se cria com os salários
internacionais da ONU. Em alguns lugares, trabalham, lado a lado,
técnicos da ONU com salários de 7 a 10 mil dólares,
e funcionários do Estado timorense, ganhando menos de 100.
E o mercado aqui é mesmo uma loucura. Com consumidores que
ganham 10 mil dólares, os comerciantes (especialmente chineses
- latu senso - e australianos) podem cobrar extravagâncias.
Uma peneira de metal custa 5 dólares. Um pote de plástico
chinês, destes que se compra no Brasil por 1,99 reais, aqui
custa até 6 dólares. Coisas absurdas, e que complicam
ainda mais o cenário de Dili. Para além disso, podemos
ver já um problema geracional emergindo. Como Rosely já
dizia no livro, há uma nova geração que pede
dinheiro, nas ruas. Aprendeu a dominar a lógica ocidental
da esmola. Os antigos não toleram isso. E a geração
intermediária ganha salários de 80 dólares,
certamente menos do que as esmolas rendem. Mais uma peça
na guerra das gerações de Timor.
Há muito ainda por ser entendido por baixo
da capa de tranquilidade que a rotina de Dili apresenta. Mas isso
já não são coisas para primeiras impressões.
Bom, desculpem tomar tanto tempo, mas estamos cheios
de primeiras impressões antropológicas sobre Dili,
e quisemos aqui compartilhar algumas com vocês.
Um grande abraço a todos, e até a
próxima.
Daniel e Kelly |