| O Palácio das Cinzas
de Xanana
Palácios de contos de fadas, ou de rainhas
e reis verdadeiros trazem-nos à ideia rica e bela e soberbas
habitações de privilegiados, que a fortuna fez vir
ao mundo em berço de ouro, ou que uma boa estrela ou varinha
mágica transformou de pobres em ricos, virtuais correcções
de injustiças sociais ou outras.
Palácios podem ser dourados, como nos contos das mil e uma
noites, ou de corais cobertos das mais lindas algas e espécies
marinhas, como os das sereias de Andersen, ou até medonhos
e misteriosos como os dos condes, das histórias de terror,
ou cheios de seguranças, como o da rainha Elisabete II do
Reino Unido, mas ruínas de edifício que foi incendiado
e de mau aspecto, só existe um e é mesmo de verdade.
Situa-se do lado direito da estrada que liga a Rua das Madres de
Balide, direcção do Matadouro, próximo de Caicoli
e está identificado com uma faixa azul presa na fachada principal
onde se lê Palácio das Cinzas, para que não
haja dúvidas.
Como o nome indica todo o edifício, uma estrutura de paredes
com os espaços das janelas vazios, tecto incompleto, com
aspecto de muito destruído, chão de cimento cujo piso
deixa adivinhar que antes, terá tido um revestimento apropriado.
As paredes negras de fumo lembram as chamas devoradoras que se seguiram
ao referendo de 30 de Agosto de 1999 que deixaram o desventurado
país ainda mais pobre.
É aí que fica a residência oficial do primeiro
presidente da RDTL – Kay Rala Xanana Gusmão, líder
carismático, como é reconhecido, interna e internacionalmente.
O ex-comandante das FALINTIL escolheu-o para seu local de trabalho
e de recepção de visitas oficiais num momento em que
todo o país se estava tentando erguer das cinzas que literalmente
devastaram vidas e bens materiais.
Se muitos políticos famosos se afirmam demagogicamente como
qualquer um dos outros que governam e na verdade não o são,
pelo menos nas condições de habitabilidade, o presidente
Xanana comunga com a maioria dos seus concidadãos um espaço
de trabalho com péssimas condições físicas.
«Para ele», testemunha Emília Pires, «a
liderança não está no poder, para se encher,
mas no trabalho e na solidariedade» e recorda-se que «num
domingo, estávamos lá a preparar o espaço para
a inauguração, houve muitas sugestões para
o nome, como ´casa queimada’ mas o presidente pegou
na que eu sugeri, Palácio das Cinzas e foi com esse nome
inaugurado a 28 de Outubro de 2002. O presidente foi eleito a 14
de Abril de 2002, tomou posse em 20 de Maio e até essa data
28 de Outubro, tinha trabalhado no Palácio do Governo».
Na ideia de Kelly Silva, antropóloga brasileira, o presidente
quer assumir num gesto, embora simbólico, um apelo à
solidariedade interna e também externa, pois vê nesse
gesto «uma estratégia para demonstrar também
aos de fora que o país necessita de apoios». Contudo,
parece que ninguém, nem mesmo alguns taxistas sabem ou reconhecem
de imediato o local onde fica o Palácio das Cinzas. Esse
não parece ser um edifício referência no roteiro
da cidade e Kelly elucida «é assim, também com
a pobreza que existe no mundo em tão grande escala e também
ninguém a quer ver!».
Os dois sorridentes e tranquilos seguranças do Palácio
da entrada pouco mais solicitam a quem chega, do que o registo do
nome e serviço que desejam. Qualquer um ou uma, pode ir lá
sem cerimónia e tal como noutros espaços de Díli
também por aí se movimentam animais domésticos
alheios a presidentes e VIPs, que neste Palácio ou no bloco
imponente das Nações Unidas no outro lado da estrada,
com grande parque automóvel não nos deixam esquecer
que este mundo tem dois lados, quase tudo para poucos e quase nada
para tantos… Em Díli, uma estreita estrada os divide
e um gigantesco rendimento per capita também.
Lúcia Serralheiro Díli, 5 de Setembro
de 2003.
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