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Recordações de Timor

Recordar Timor...

Estamos em Dezembro.... um dia frio e chuvoso, tão propício aos serões à lareira!

O tema “Timor” é uma constante em nossa casa. Sabe bem voltar ao passado, aos enlevos da nossa meninice, àquelas recordações que marcaram uma parte importante das nossas vidas...

Como nunca lá estive, delicio-me com a voz da minha mulher que, nos serões da nossa intimidade, nos transporta a essa ilha do outro lado do mundo, falando com enlevo da terra onde nasceu. E de mãos dadas caminhamos lado a lado pela terra das mil essências e dos mil sonhos, num passeio agradável através da sua meninice e da sua adolescência...

Já não sei se me deixo levar pela imaginação ou se realmente me sinto banhar nas águas calmas e cálidas da baía de Dili, afagando na praia da Areia Branca centenas de peixes lindos que, como rebanhos coloridos se deleitam, indolentes, saboreando uma mistura de miríades de bolhas de ar e qualquer alimento, no meio de uma flora matizada, nas límpidas águas do Pacífico.

Pela sua voz cavalgo um Kuda[1] branco, crinas ao vento, nervoso mas de músculos bem firmes... e sigo serra a cima, pelos sopés verdejantes do Monte Ramelau[2], respirando a brisa fresca da montanha!

No cume descanso da cavalgada e espraio o meu olhar pela paisagem que dança diante dos meus olhos...

E deixo-me levar, deleitado, pelos cânticos das mais variadas aves que fazem a saudação ao Sol do dia a dia.

Mas Timor não é só isto.

É uma fonte inesgotável de sensações e nostalgias. Quem lá nasceu e lá viveu sente-as bem junto ao coração e jamais as pode esquecer. Quem por lá passou sente-se preso por um apelo, uma espécie de chamamento que irradia daquele solo misterioso, uma espécie de dor que é feita ao mesmo tempo de angústia, de ansiedades e inquietações!

É o chamamento pungente do outro lado do mundo, da mãe-Pátria do Homem e da invocação da Vida ...

Timor é isto e muito mais!

“São as imagens de infância, o cantar dos Tokés[3] que povoavam o tecto da nossa casa, as correrias loucas com os amigos através dos caminhos ladeados de cafezeiros, o suave aroma das acácias rubras que ladeavam as largas avenidas por onde passava, as rosas do meu quintal cujo aroma atraía a gula das abelhas das redondezas, o latir do velho Tejo quando me sentia chegar da escola, pedindo uma suave carícia no seu focinho húmido, o macerar entre os meus dentes do aromático pau de canela que acabara de tirar da caneleira e que, no meio dos seus frondosos ramos, me deleitava...”

Timor é isto e muito mais!

“São as catatuas, donzelas de branco, toucado amarelo, olhos de rubi; são os louricos, de cores verde, vermelho e amarelo, de deslumbrante coloridos, que se passeavam pelo meio das pessoas tecendo comentários no palrar das suas gargantas...”

Timor é isto e muito mais!

São os Pôr do Sol inebriantes, uma mistura de vermelhos e púrpuras, as Auroras deslumbrantes de luz, de cores quentes, mistas de doçura e luxúria...

Timor é isto e muito mais...

São hoje cada vez mais só recordações!... que deixam cair a sua cor, o seu odor, a sua presença e que se diluem na patine cinzenta do tempo que passa...

São as recordações dos dias vividos sob os trópicos, dias cheios de sol, de luz, de perfumes exóticos e inebriantes, cheios de vida, cheios de sonhos, de dias feitos de horas diferentes — mas que nem por isso deixaram de ser dias vividos intensamente...

... e que já passaram!


Dili - Praia da Areia Branca

José Gomes


[1] Kuda – cavalo, em Tetum (a principal língua de Timor).

[2] Monte Ramelau – pico mais alto (2.920 metros) da cadeia de montanhas na parte mais a oeste de Timor.

[3] Toké – espécie de lagarto ou sardão cuja voz imita esta palavra.

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