| A Saída do Paraíso

Praia da Areia Branca – Dili –
Timor
Este Fevereiro frio trouxe-me à memória
os tempos da minha juventude e o nosso grupo de voleibol que se
reunia (de Setembro a Junho), todos os fins de semana de manhã
numa das muitas praias da Foz do Douro, no Porto. Fizesse frio,
estivesse sol ou chuva, aquela dúzia de amigos, em fato de
banho, “aquecia” em jogadas disputadas com brio profissional
e que terminavam sempre com um bom banho nas águas do Atlântico.
Se bem me lembro, nessa altura do ano –era ainda jovem e com
o sangue na guelra! – atirava-me à água (que
não estava tão fria como nos meses de Verão)
e depois de um banho de mar reconfortante lá regressava a
casa onde me esperava a refeição do meio dia.
A Milú, por sua vez, recordou a sua juventude em Timor.
Falou da praia da Areia Branca, da sua atracção pelas
conchas e pelos búzios que apanhava com todo o carinho (ainda
hoje guarda religiosamente muitos exemplares que apanhou nessa altura!),
os pedaços de coral que saiam do grande recife... Lembrou
as águas tépidas e límpidas que banhavam a
praia... e como se divertia a brincar com os peixes de mil cores
que passavam por ela, em cardumes, sem mostrar medo...
Ao classificar umas fotos antigas, deparei com uma fotografia da
referida praia e dei por mim a associá-la a um quadro pintado
recentemente pela Milú...
Lembrei-me de um pequeno conto que escrevi em 1999...
Dedico-o a todos os namorados, neste vosso e nosso Dia de S. Valentim.
A Saída do Paraíso
(Adaptação livre de um conto Maubere)
Nos princípios do Princípio, diz-se
em Lautém (pequena aldeia situada na ponta leste da Ilha
de Timor) que tudo já existia — as montanhas, as árvores,
os mares, os rios, os animais, as pessoas.
Nada nascia e nada morria.
As folhas continuavam nas plantas, os frutos ofereciam as suas belas
cores e as suas formas apetitosas, mas continuavam dependurados
nas árvores.
Os homens existiram sempre homens... não envelheciam e nunca
iriam envelhecer! Não nasciam crianças...
Nada nascia, crescia ou morria!
Os animais e as pessoas estavam lá... não estavam
adormecidas mas também não estavam acordadas.
Passavam uns pelos outros, sorrindo indiferentes ao tempo que não
corria... sem se preocuparem em saber quem eram, nem para que servia
tudo aquilo que existia à sua volta.
Não pensavam... e como não pensavam, não tinham
necessidade de falar!
A Lua brilhava nos céus e aspargia com tons prateados do
seu belo manto, aquela terra adormecida...
E passava, passava e continuava a passar lá longe, por cima
de Lautém.
Passou, passou e continuou a passar...
Um belo dia alguém sentiu e percebeu que a Lua tentara desde
sempre dizer qualquer coisa...até lhes fazia sinais!
- O que é aquilo? - perguntou esse alguém um dia.
Foi a primeira frase que se disse e a primeira pergunta que foi
feita!
Desde esse dia todas as pessoas interrogaram o céu e interrogaram-se
umas às outras. Começaram, então, a ser capazes
de perguntar e responder. A sua inteligência despertou e perceberam
que a Lua, cada vez que passava, era sempre diferente. Umas vezes
mostrava caras, outras lagos, montanhas, flores, mãos, frutos,
gestos...
Foi assim que começaram a olhar, com curiosidade,
à sua volta, a copiar tudo o que viam, a comer os frutos
que pendiam, apetitosos, das árvores ávidas de fazer
nascer Vida.
E repartiram os frutos uns com os outros.
Foi assim que nasceu o Tempo e a Vida.
Os Homens já nasciam crianças!...
As pessoas, os animais e as plantas já envelheciam!
As mulheres e os homens começaram a olhar para as suas diferenças...
que sensação!
As aves, em bandos, enchiam o céu prenhe de cores, com o
seu alegre chilrear. Os animais afagavam-se no manto verde, indolentes
e ronronavam em volúpias de desejo.
Os homens e as mulheres, olhos nos olhos, mãos nas mãos,
descobriam, em cada dia, um mundo diferente...
E partiram pela ilha...
Nascera o Amor...
ahh!... e como isso era bom!
E as crianças riam!...
José Gomes

Pôr do Sol - Acrílico s/ tela
- Lourdes Gomes
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