| “Timor-Amor” –
1974

Ruy Cinatti
Poeta, Agrónomo, Etnólogo, Antropólogo e Investigador
Vou dedicar este e outros trabalhos a Ruy Cinatti.
A ele, directamente, porque foi um homem que deu e dedicou o melhor
da sua vida em prole do desenvolvimento de Timor que amou como se
sua Pátria fosse!
Através dele, do seu exemplo e da sua paixão a essa
Terra de mil encantos, dedico-o a todos os Homens, Mulheres e Crianças
timorenses de todos os tempos que, com o seu espírito de
luta, a sua fé e, sobretudo, com o seu sacrifício,
ajudaram a criar a mais jovem nação do século
XXI - Timor Lorosa’e.
Premonição
Hei-de chorar
As praias mansas de Tibar e de Díli,
As manhãs, mesas de bruma, de Lautém,
Os horizontes transmarinhos de Dáre
As planícies agrícolas
De Same e de Suai.
“Timor-Amor” –
1974
Ruy Cinatti
Estava a arrumar a estante e dei por mim a folhear vários
livros que retratam Timor ao longo destes séculos...
Reparei que em todas as obras que Ruy Cinatti escreveu – quer
seja a sua Poesia espalhada por uma boa dezena de livros quer seja
toda a sua investigação nos vários saberes,
todos têm o mesmo denominador comum: Timor e o seu profundo
amor por Timor.
Foi através da Poesia que conheci Ruy Cinatti.
Através dela fui conhecendo o seu espírito de aventura,
o seu amor e o seu “dar-se” ao povo de Timor (comparando
com as “crónicas de Guto”, Cinatti faz-me lembrar
uma espécie de Guto da segunda metade do século XX...
sem uma Rosely – e a comunidade de Crocodilos, claro - a dar-lhe
força!!).
Mais tarde acabei por descobrir o Agrónomo, o Etnólogo,
o Antropólogo e o Investigador que se deixou enfeitiçar
pela natureza deslumbrante, pela paisagem magnífica e acolhedora
de Timor e do seu Povo, através dos “cartapácios”
que a Milú classifica como “Motivações
para os meus alunos”.
Ruy Cinatti nasceu, em Londres, em 1915, filho
de um diplomata português e de mãe de ascendência
italiana.
Desde muito jovem que a poesia lhe esteve no sangue. “Nós
não somos deste mundo”, o seu primeiro livro de
poesia, dedicou-o, em 1941, à memória de sua Mãe.
Foi galardoado com o Prémio Antero de Quental (“O
Livro do meu Amigo Nómada” – 1958), Prémio
Nacional de Poesia (“Sete Septetos” –
1967) e Prémio Camilo Pessanha, da Agência do Ultramar
(“Cancioneiro para Timor” – 1968).
No início de 1946 Ruy Cinatti, engenheiro agrónomo,
foi convidado pelo governador de Timor, Oscar Ruas, para secretário
e chefe do seu gabinete.
Chegou a Timor em finais de Julho de 1946. Foi encontrar aquele
território desbastado e deixado a saque pelos japoneses,
como consequência da II Guerra Mundial.
Iniciaram-se de imediato os trabalhos de reconstrução
da ilha. Ruy Cinatti fez um levantamento de todo o território,
recolhendo espécimes da flora local. Foi aqui que descobriu
plantas desconhecidas do mundo científico, a que deu o nome
de “Podocarpus Imbricata” (uma espécie
rara de Pinheiro Bravo), “Eucalyptus Cinathiensis”
e “Justitia Cinatti” (espécies raras
de Eucaliptos).
Durante as suas deslocações pelo interior de Timor
travou conhecimento com os indígenas, a sua cultura, as suas
tradições e os seus conhecimentos. Quanto mais os
conhecia mais admirava aquele Povo...“o timorense é
a nossa melhor arma política; sem ele não teria sido
possível conservar a soberania portuguesa durante a guerra,
num território tão distante da metrópole...
O timorense é um ser adulto, pensante, com uma personalidade
social definida e responsável´1.
O trabalho e as pesquisas que desenvolveu em Timor foram incluídas
na sua tese de licenciatura (Reconhecimento em Timor)
que apresentou e defendeu em Lisboa (em 1950) e que obteve a classificação
de 19 valores.
Regressou a Timor como chefe dos Serviços de Agricultura,
cargo que nunca chegou a ocupar pois o novo governador queria-o,
não no meio dos indígenas e a fazer pesquisa pela
ilha, mas sim sentado a uma secretária a mexer em papeladas.
Ruy Cinatti sempre acreditou que o desenvolvimento agrícola
desta Província só seria possível com uma articulação
entre a cultura local e o respeito pela conservação
das florestas.
Mas os entraves, a indiferença e o ostracismo que as autoridades
portuguesas sempre dedicaram àquele território e sem
qualquer possibilidade de concretizar a missão a que se propôs
desenvolver em Timor, pediu a sua transferência para a Junta
de Investigação do Ultramar, em Lisboa.
Pouco antes de regressar a Portugal manifestou-se violentamente
contra a atitude prepotente do governador de Timor que proibiu o
uso da “Lipa” (pano tradicional usado pelos
homens em volta da cintura). Cinatti, protestou vivamente, classificando
essa atitude de prepotente, de falta de respeito e de consideração
pelos usos e costumes locais e uma afronta à dignidade dos
timorenses.
Como é bom de ver, tanto o governo de Dili (Timor) como o
governo central (Lisboa) ignoraram pura e simplesmente o seu protesto!
Em 1956, já em Lisboa, vê-se confrontado com a opinião
pública que classificava o timorense como “...
preguiçoso, arredio a qualquer esforço a que não
seja forçado e pouco afeito a estímulos progressivos...”.
Indignado, publicou um manifesto “Em Favor dos Timorenses”
em que rebateu com veemência estas afirmações
gratuitas e transmitidas por aqueles que desconheciam a realidade
timorense...
Em 1958 entregou ao governo o “Plano de Fomento Agrário
para Timor” e preparava-se para regressar para aquela
província para pôr em prática o seu plano, quando
na altura da partida, através da Junta de Investigação
do Ultramar, foi convidado a frequentar durante três anos
um curso de Etnologia e Antropologia, na Universidade de Oxford,
em Inglaterra.
Em 1961 regressou, mais uma, vez a Timor. Desenvolveu trabalhos
de pesquisa na sua área, travando laços de amizade
com os timorenses, chegando a fazer um pacto de sangue com dois
chefes tribais. Este momento sublime, a sua união e ligação
pelo sangue a um Povo e a uma Terra está traçado no
poema que se segue:
Pacto de Sangue
Nobres há muitos. É verdade.
Verdade. Homens muitos. É muito verdade.
Verdade que com um lenço velho
As nossas mãos foram enlaçadas.
Nós, como aliados, eu digo.
Panos, só um, tal qual afirmo.
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Água de Héler! Pelo vaso sagrado!
Nunca esqueça isto o aliado.
Juntos, combater, eu quero!
Com o aliado, derrotar , eu quero!
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Poderemos, talvez, ser derrotados
Ou combatidos, mas somente unidos.
Este pacto de sangue, além da grande honra que representou
para um estrangeiro, deu-lhe abertura aos recintos sagrados, às
iniciações tribais e acesso aos vestígios arqueológicos.
Descobriu pinturas rupestres, recolheu histórias, mitos e
tradições que, mais tarde, deixaria em livros.
Por esta altura foi decretado o ensino obrigatório da língua
portuguesa em todas as escolas timorenses. A esta medida que Cinatti
aplaudiu, responderam os timorenses com um aumento muito significativo
da população escolar.
De regresso a Lisboa (1963) publicou estudos sobre as plantas e
um tratado sobre a província de Timor.
Em 1966, num colóquio nos Estados Unidos pediu a protecção
das jazidas pré-históricas e dos monumentos históricos
que descobriu. Para evitar a delapidação do património
cultural de Timor e para recolher amostras da presença de
um elefante pré-histórico, a comunidade científica
pressionou o governo português a enviá-lo a Timor.
Ruy Cinatti ficou, durante todo o mês de Agosto de 1966 (e
pela última vez) em Timor.
De regresso a Lisboa e sentindo o tempo a fugir-lhe, publicou vários
livros de poesia em que o tema é Timor:
“Um cancioneiro por Timor” (1968); “Uma
sequência timorense” (1970); “Ali também
Timor” (1973), “Paisagens timorenses com vultos”
(1974); e “Timor-Amor” (1974).
Ruy Cinatti tem uma obra poética muito difícil em
que encontramos paralelos com as paisagens por onde passou, o retrato
da sua própria vida, o desencanto com o mundo que o rodeava
e Timor, o lugar onde se encontrava consigo e com a natureza ("...
posso fazer qualquer coisa útil quer no campo científico
quer no campo social, aqui em Timor, onde já sou irmão,
por pacto de sangue, de muitos timorenses.”2)
Em 1975 escreveu uma carta para o Diário de Notícias
(que nunca chegou a ser publicada) onde chamou a atenção
para o perigo que Timor corria, e que veio a confirmar-se meses
mais tarde (7 de Dezembro de 1975) com o bombardeamento de Dili,
a invasão e posterior anexação de Timor Leste
pela Indonésia.
Foi um rude golpe, do qual nunca mais chegou a recuperar.
Morreu a 12 de Outubro de 1986, com 71 anos de idade, vítima
de um cancro pulmonar. Está sepultado no cemitério
dos ingleses em Lisboa...
Acredito que Ruy Cinatti, por sua vontade, se sentiria tão
bem num abraço dessa terra que tanto amou, descansando em
paz à sombra de um tamarindeiro...
Termino, como comecei! Porque o mundo é uma constante de
voltas, de idas e vindas, de amanhecer e pôr-do-sol, de luz
e trevas, de desânimo e de aspirações...
Amanhã é um novo dia...
Voltarei com Cinatti, pois factos curiosos marcaram a vida deste
Homem que amou Timor como sua Pátria.
Hei-de chorar
As praias mansas de Tíbar e Díli,
As manhãs, mesas de bruma, de Lautém,
Os horizontes transmarinhos de Dáre
As planícies agrícolas
De Same e de Suai.
José Gomes
23 de Julho de 2004
1 Em “A condição
humana em Ruy Cinatti” – estudo sobre a vida e obra
de Cinatti, pelo Pe. Peter Stilwell.
2 Carta a Jorge de Sena, ao recusar o convite
que este lhe fez para ensinar agronomia no Brasil.
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