| A Luta de Galos

Luta de galos 1
A Luta de Galos
(desporto número um dos Timorenses)
Galo doido, meu brinquedo,
Aninhado nos meus braços.
Sinto o meu coração preso
Só de pensar no combate.
Pintei-lhe de verde as penas
Só a pensar no combate.
(in “Um Cancioneiro Para Timor”
– Ruy Cinatti – 1996)
A luta de galos é uma das tradições
mais antigas de Timor.
Pensa-se que foi trazida para a Europa pelos navegadores portugueses
e espanhóis depois destes terem estabelecido relações
comerciais com as populações indígenas das
terras que descobriram.
Ainda nos dias de hoje, este “desporto” tem muitos adeptos
em vários países (nomeadamente no sul de Espanha,
no Brasil, em Macau, etc.). As grandes quantias de dinheiro envolvidas
nesta barbárie são provenientes das apostas angariadas
pelos promotores da Luta de Galos.
Estes galos são treinados especialmente para este tipo de
combate que normalmente (eu diria sempre...) acaba com a morte de
um dos adversários, não tão raramente com a
morte dos dois.
Os governos aprovaram leis para acabarem com estes espectáculos
deprimentes mas basta o pagamento duma licença a título
excepcional para que a realização do combate já
seja permitida.
As associações de defesa dos animais continuam a lutar
para que estes tristes, deprimentes e cruéis espectáculos
sejam erradicados do planeta.
Mas voltando a Timor...
Muitos dos governantes, mesmo antes do 25 de Abril,
tentaram acabar com este espectáculo bárbaro, mas
as multas aplicadas ou o pagamento de licenças era o suficiente
para que estes espectáculos se realizassem... e uma lufada
de dinheiro fresco foi sempre bem vindo às sempre depauperadas
finanças desta província esquecida!...
Mais recentemente, aquando da consulta popular para a elaboração
da Constituição Timorense, os legisladores tentaram
introduzir medidas restritivas para os jogos de sorte e para a Luta
de Galos. Da consulta popular então efectuada a opinião
geral foi a da manutenção da Luta de Galos por esta
ser uma expressão da cultura tradicional timorense
2.

Galo de luta, na mão do tratador 3
O galo timorense, lutador por excelência,
está representado na moeda de 10 centavos que circula actualmente
neste país, como homenagem não só à
sua cultura mas também à determinação
do povo timorense na sua luta pela Independência.
No passado, como nos dias de hoje continuamos a ver essas aves garbosas,
com penas de cores vivas e variadas, debaixo do braço de
um timorense, que o transporta com um orgulho muito peculiar...
Não vou contar uma Luta de Galos que se
tenha passado nos nossos dias, não porque elas tenham sido
estripadas de Timor, mas sim por falta de informação.
Pergunto aos meus amigos que residem em Timor e aos que regressam
que me contem as suas experiências ou a sua vivência
numa luta deste tipo... às vezes chego a ficar com medo!
Alguns afastam-se de mim e vão vomitar; outros ficam de todas
as cores e passam semanas sem me dirigirem a palavra!
Por acaso, num telefonema que fiz ontem (28 de Agosto) para Timor,
soube que as lutas de galos continuam, são feitas à
luz do dia, sem qualquer restrição e com público
sempre disposto a apostar e a incitar os seus favoritos. Talvez
o que se esteja a perder como tradição é o
transporte: dantes, debaixo do braço ou no ombro do dono;
hoje já se vêem galos transportados em camionetas!...
Resta-me, assim, recordar a história que
me foi contada por um timorense de pele ressequida e de olhos brilhantes,
com um cigarro ao canto da boca disforme e quase sem dentes, de
idade indefinida, que conheci já altas horas da noite, no
exterior do Pavilhão de Timor, na Expo 98, em Lisboa.
A história passou-se em Timor em
1936.
Falou-me nos diferentes galos de Timor, pretos,
brancos ou coloridos, todos eles imponentes, com grandes caudas,
muitas penas nas asas e um tom vermelho, agressivo, nas suas cristas.
Galos que andavam à solta, esvoaçando entre as árvores
ou empoleirados no alto dos telhados.
Os esporões destacavam-se das suas patas, suas armas de guerra
e de masculinidade, que exibiam entre um bater de asas, um estender
de pernas e um esticar lânguido do pescoço, soltando
um cacarejar que arrepiava!
Falou-me do Hekik (tradução
literal ‘picar’, dar ‘picadas’) um soberbo
galo de cores vistosas que ele sempre levava ao ombro ou debaixo
do braço para todo o lado onde fosse.
Olho negro, matreiro, Hekik nunca deixava
de dar a sua bicada numa manga apetitosa que, para os lados do mercado,
aparecesse à sua frente!... e tão rápido o
fazia que o dono da peça de fruta sempre desconfiava do vizinho
do lado e nunca d aquele galo anichado no ombro, olhar semicerrado,
distante, mostrando uma pata onde fazia questão que vissem
o seu esporão!
Quando chegavam à noitinha a casa logo saltava para o chão,
esgaravatava a terra à procura de minhocas, grãos
de milho para terminar na sua ração deixada, pelo
dono, no seu cantinho ao lado do bebedouro, feito de casca de cocos.
Depois soltava um longo cacarejar, sacudia bem as suas asas e majestosamente
voava até ao telhado onde adormecia até ao acordar
do sol.
O dia que o Hekik mais
temia - o da luta - (ou será o que mais desejava? - todo
o galo que se preze tem que passar por esta provação...).
O seu dono aprazou o combate que teria lugar próximo do mercado
já seu conhecido.
Esse dia foi diferente dos demais, quente e abafado,
em que o sol veio também ele assistir à luta!
Mas Hekik olhou tudo à sua volta
e parecia tudo diferente. Até o próprio ar que respirava.
Até o ombro do seu dono lhe parecia diferente...
As pessoas começaram a surgir vindas não se sabia
bem de onde.
Apareceu um compadre que trazia de baixo do braço um galo
de cor indefinida. Falaram qualquer coisa enquanto armavam rapidamente
uma arena e o galo viu-se frente a frente com o seu adversário.

Galos em posição de desafio 4
Rapidamente uma multidão ululante apareceu, cercou e encheu
por completo o recinto da luta.
Naquele mesmo instante as apostas começaram a surgir vendo-se
notas a passar rapidamente de mão em mão... as apostas
subiam à medida que a hora do combate se aproximava.
Já dentro da arena, os dois galos são previamente
“preparados” pelos respectivos donos/treinadores que
lhes amarram pequenas facas afiadas aos esporões das patas.
Depois começam a atiçá-los um contra o outro...
A multidão grita, salta, empurra-se, comprime-se
contra o recinto...
Os dois galos encontram-se no meio da arena e giram à volta
um do outro como que medindo forças ou estudando o adversário.
De repente batem as asas, alongam os pescoços, saltam de
unhas em riste, espetando-as nas carnes. Rolam-se pelo chão
e de novo atacam, agora de bicos e esporões em riste.

Galo atacando 5
De olhos esgazeados, alucinados e gritando de prazer
os apostadores parecem-se mais com predadores sedentos de sangue...
o mesmo sangue que começa a correr pelas penas dos galos
e que salpicam o chão e as pessoas mais próximas!...
Os galos param um momento como que a retemperar
forças ou a medir o adversário!
A multidão enfurecida não os deixa
saborear o último momento de descanso antes da partida dum
deles deste mundo...
E de novo se enroscam um no outro, penas pelo ar, corpos rebolando-se
na poeira do chão... e pedaços de carne sanguinolenta
esvoaçando no meio dos animais que piam, que gritam!... os
gemidos de dor dos galos já se confundem com o delírio
da multidão que grita, que se contorce, que bate palmas...!
É chegado o êxtase completo quando um dos galos, já
ferido de morte, cai em estertor...
A multidão cala-se por um momento enquanto o galo se imobiliza
no solo, soltando um suspiro... as luzes deste mundo vão-se
apagando para o galo vencido e, enquanto este se estira no chão,
misturado com a poeira que cai, ouve-se de repente a algazarra dos
vencedores que riem, que saltam, que guincham, enquanto recebem
o dinheiro das apostas...
O galo ainda ouve, muito ao longe, os insultos e ainda sente a vergonha
da derrota...
Acabam por esquartejá-lo... mas as luzes apagaram-se todas!
O dono do galo vencido e os perdedores da aposta
afastam-se lentamente do local de combate, de cabeça baixa,
derrotados, humilhados...
Terminou este espectáculo bárbaro...
a única manifestação bárbara do povo
timorense, normalmente pacífico, sempre simpático,
afável, amigo!
Na arena improvisada resta apenas sangue, e pó
salpicado com nódoas de um vermelho vivo, e penas, e pedaços
de carne!...
O silêncio cai à medida que a arena
fica sem espectadores, sem artistas, sem empresários...
O dia está a terminar...
O sol, coberto por um clarão carmim, já se dirige
para o poente, para o mar sereno que se confunde, lá muito
ao longe, com o azul débil do céu que pronuncia a
noite.
Os timorenses, os malai brancos, os chinas partem
para suas casas, sobem às colinas, como se fossem apenas
sombras num desmaiar do dia.

Galo de Timor 6
Hekik segue com os olhos
fechados debaixo do braço do seu dono. Sente que o bater
do seu coração se confunde com o do dono, sente o
cheiro do dono que o aconchega ao colo... e isto faz-lhe esquecer
as dores, o corpo moído, aquela experiência que gostaria
não repetir mais.
O cheiro de casa começa a dar-lhe tranquilidade, assim como
a canção de embalar que, em surdina, cantava o seu
dono...
É chegada a noite e ouve-se o grito dos tokés, o som
dos grilos, o restolhar das folhas das árvores, o cair das
águas da ribeira, o cheiro da terra orvalhada...
Chegaram a casa!
Sente a água fresca com que o dono lhe lava as feridas do
combate, o carinho com que lhe fala... não, não apetece
comer! Apenas beber uns goles daquela água fresca, repousante,
mas que lhe faz doer o bico e a garganta...
O sono começa a chegar mas o galo já não tem
forças para chegar ao telhado... nem para esticar o corpo!
Ahhh! E como ele gostava de se estirar de uma ponta à outra
do corpo! Mas só de pensar nisso as suas dores aumentam.
Não importa, naquela noite vai dormir ao lado do dono, numa
esteira colocada no chão. Nessa noite não vai ter
medo nem das cobras nem dos gatos selvagens... o seu dono está
na “lantén”7 , ali ao seu lado e por tecto vai
ter um belo céu cheio de estrelas vivas.
Fechou os olhos...
E sonhou com um dia de sol brilhante, com água fresca, com
as galinhas, de lindas penas e olhos brilhantes que logo de manhã
o despertarão, ávidas de ouvir as suas aventuras.
Século XXI:
A luta de galos está quase eliminada na Europa. No entanto
continua a ser praticada em Espanha, mais propriamente na Andaluzia,
no México, na Tailândia, no Brasil, em Timor Leste
e outros países.
Nos dias de hoje, em Portugal, matam-se touros, em nome duma tradição,
com milhares de pessoas numa arena improvisada gozam, gritam, batem
palmas com o sofrimento do animal.
Na vizinha Espanha e em muitos outros países continuam os
espectáculos de touros de morte, com arenas cheias de bárbaros
que aplaudem animais em sofrimento e algozes que os maltratam, antes
de os matar para gáudio dos assistentes.
Em tempo de férias grandes abandonam-se cães e gatos
nas estradas e, mais recentemente, nas auto estradas.
As Associações de Defesa dos Animais batem-se em todo
o mundo para eliminar de vez esta mancha de crueldade e sensibilidade
ainda hoje praticada pelo Homem.
29 de Agosto 04
José Gomes
1 Galos em posição
de desafio – Foto cedida pelo Prof. Almeida Serra –
Timor, Fev. 2003.
2 O galo é um dos motivos
artísticos mais utilizado pelos timorenses, nomeadamente
em seus panos, cestaria e outras manifestações artísticas
(observação da Milú, depois de ter lido este
trabalho).
3 Galo de luta na mão do
tratador – Foto de 1966 – Timor; (não consegui
identificar o autor desta fotografia. Sei que foi militar, e esta
acção decorreu em Remexio).
4 Galos em posição
de desafio– Foto de 1966 – Timor; (não consegui
identificar o autor desta fotografia. Sei que foi militar, e esta
acção decorreu em Remexio).
5 Galo atacando–
Foto de 1966 – Timor; (não consegui identificar o autor
desta fotografia. Sei que foi militar, e esta acção
decorreu em Remexio).
6 Galo de Timor – Foto de
J. Paulo Coutinho – Blog “Viadupla de um fotojornalista”.
7 “Lantén”
– A Milú não se recorda como se escreve esta
expressão em Tétum. É uma expressão
que lhe ficou no ouvido. “Lantén” é uma
espécie de cama primitiva, normalmente feita de bambu, onde
os timorenses estendiam a sua esteira e dormiam. |