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Ao Leste, rostos e semblantes

Pe. Chico Moser


“... recebei, ambos, estas folhas de bétel, tomais, os dois, estes bocados de areca, para que o hálito e o sopro vos penetrem..."

(Ritual tradicional de Timor)


1. PROLOGO DE 1999. Era um menino timorense, traquina, de palmo e meio, que nunca teve um teto. Dormia onde dava. Num banco de jardim, no passeio da beira-mar. A maior parte das vezes, estacionava o corpo franzino na frente ao Hotel Mahkota. Mal acordava, abastecia-se com um pacote de jornais e desembrulhava um sorriso. Nem precisava anunciar o “Suara Timor Timur” (A voz de Timor) para convencer o mais reticente dos leitores. Em Dili, todo mundo conhecia o menino dos cabelos cor de canela.’ Hello, Mister! ’ – apresentava-se com um sorriso largo. Depois, estendia um exemplar do “Suara”. O ritual, naquele setembro de 1999, nos dias do após–referendum, repetia-se todos os dias. Mas Dili tinha deixado de oferecer a mínima condição de segurança. Os jornalistas que o procuravam todos os dias, conheceram pela ultima vez, o seu olhar, no primeiro sábado de setembro. Ele, do outro lado da fachada de vidro do hotel, naquela hora, tentou enfiar mais um jornal. O seu sorriso murchou no exato momento em que, no interior do salão , o representante das Nações Unidas agradeceu a colaboração de tropas indonésias pelo sucesso da consulta popular. Ainda hoje, os amigos que conheceram aquele menino traquina de palmo e meio , aquele menino timorense franzino e de cabelo cor de canela, sabiam que ele tinha um sexto sentido... Hoje em dia, dezenas desses meninos, espalham-se pela cidade, multiplicando a presença daquele jornaleiro-mirim.

2. ANJOS DA CARA SUJA. Um simples quintal, uma gramática arcaica para manter viva a liberdade, dispor-se a recolher e enxugar lagrimas : elementos que fizeram diferença profunda em relação ao ocupante indonésio durante 24 anos. No bairro de Lahane (Dili), essa luta foi tarefa persistente e teimosa do jesuíta pe. João Felgueiras, que a repórter Rosely Forganes apelidou de “O Anjo do aeroporto” nos fatídicos dias do referendum de ’99. Nas semanas passadas, susto e dor tomaram conta de centenas de amigos e amigas, quando foi noticiado o agravamento do estado de saúde dessa histórica-octuagenária figura da resistência. Mas ainda não foi desta vez, porque o padre João estará logo de volta ao seu Ambiente amado.


3. BOCAS VERMELHAS. Nas feiras livres ou ‘bazares’, para enfrentar as longas horas de trabalho e de espera, mulheres e homens trabalham e conversam. Enquanto isso, ‘mascam’ um cocktail de soda caustica, nozes de areca, envoltas em folhas de betel : ahu (cal), folhas de betel (malus) e a noz de areca (bua). Mascar a noz de areca é costume dos mais antigos entre os Povos da Ásia. Esse exercício garante o tanto de energia para chegar ao fim do dia. Mas, o ritual possui também razoes sociais e culturais. Mascar a noz de bétel é como definir a pertença ao mundo adulto da maturidade. A noz de bétel representa a força generativa da mulher, o fruto da arequeira a força vital do homem, o cal, a semente da reprodução. O processo do ‘mascar’ provoca abundante salivação vermelha.Acredita-se que, cuspir a saliva, é como devolver a terra o sangue do parto. Oferecer a noz do bétel a um viajante é como dizer “Bem-vindo/bem-vinda ao convívio”. ‘Mascar’ o bétel proporciona doce ebriedade , quem sabe a memória de remotas jornadas pré-históricas. Mano, não recuse a oferta do bétel !

4. POVO DA ESPERANCA. Se você levantar os olhos, de manhanzinha, para o alto da montanha de Dare, no alto de Dili, você enxergará umas casinhas pintadas de azul, no meio da mata verde. Lá vivem Jovens, na seqüência do tempo, moças e rapazes, pertencentes ao Instituto Secular Timorense (‘Irmãos em Cristo’). Leigos e leigas, que pretendem re-editar para o nosso tempo de modernidade, a Radicalidade do Evangelho cristão. Idealizadora e fundadora é a Mana Lu (irmã Lourdes), jovem profetisa, timorense da gema, totalmente dedicada à implantação de núcleos de fraternidade em todo o território. Propõe a mística do serviço aos mais desvalidos , a pedagogia da Presença no meio dos humilhados, a oração e o trabalho até à exaustão das energias para idealistas seguidores e seguidoras. Procure por esses Mensageiros da Esperança, por exemplo, na Clinica do Bairro Pité, junto ao amigo de antiga data, Dr. Daniel Murphy ou na casa de acolhimento do bairro Kulu-Hun ou na Montanha de Timor, aos pés do Ramelau. Sal ,luz, fermento, fragrância de bom perfume , semente não contaminada para uma geração sedenta de autenticidade, é Mana Lu. Um pouco para cima o seu olhar, Irmão !

5. A ECONOMIA DOS PERDEDORES. Visitar demoradamente os quatro mercados de Dili, ou de todas as aldeias, povoações e praças da Montanha, é como sentir de perto a expressão forte comunitária da cultura timorense. Olaria, cestaria, cordoaria e fabricação de esteiras, tecelagem e trabalhos em ouro, produtos de barro, bens de agricultura, frutos do mar e das colheitas, entremeadas de trocas animadas de informações , de conhecimentos, estreitamento de laços. Não sò a simples troca de mercadorias para sobreviver. Homens e animais, mulheres e crianças, em convívio decente e fraternal. Gentes que percorrem dezenas de quilômetros a pés, quase sempre descalços, para negociar pequenos pacotes de amendoins, mercearias variadas, retratos bíblicos e rosários, afinal, produtos de primeira necessidade. É a economia de um povo miúdo e fragilizado, de ambulantes e biscateiros, que deveriam contar bem mais nos gabinetes oficiais...
Mesmo assim, veja como é fraterno e acolhedor esse povo, quando ri (sorri) para você , com a boca cheinha de dente branco.

6. JÁ 1OO ANOS EM SOIBADA. Tendas do povo são tendas de festa, são tendas de libertação. A condição humana precisa caminhar e acampar. O povo de Timor, em peso, é aguardado para a comemoração dos 100 da cidade de Soibada, de 15 a 17 de outubro. Ficou famoso ,durante décadas, o dialeto de Samoro, assumido como língua-padrão em Soibada, que foi , a partir dos finais do século 19 e até a segunda guerra mundial, o principal centro missionário e cultural de Timor. Os missionários de Soibada publicaram muitas composições religiosas (traduções e resumos da Bíblia, orações), eles que tinham um ótimo conhecimento do tétum clássico e tentaram expressar-se numa linguagem muito pura, baseada no dialeto de Samoro. O colégio de Soibada exerceu enorme influencia em todo o território, por ser a única escola secundaria em Timor, e também por ser destinado à formação de MESTRES-ESCOLAS, aos quais eram confiados, ao mesmo tempo, o ensino das letras primarias e a catequese nas escolas rurais. Esses Mestres que funcionavam como Assistentes do clero, constituíram até um passado recente, a única classe culta de Timor e desfrutavam até tempos recentes, de grande prestigio, principalmente nas zonas rurais ,mas também em Dili, onde constituíam grande percentagem do funcionalismo publico. Depois da segunda guerra mundial, prevalecerá o tétum-praça, isto é a polarização no meio urbano de Dili, tão característica dos tempos atuais. Nessa semana, peregrinos, aos milhares, saem de antigos e distantes rincões para Soibada , como rios que invertam o caminho, do Mar para a Montanha. Dias de ‘peregrinação’, nas noites , pousando em baixo de arvores seculares. A festa, os corais, as mesas um pouco mais fartas, o reencontro dos filhos e filhas com os Pais da terra. Digamos que os tempos de arame farpado acabaram em Timor, terá chegado o tempo do pão para todas as bocas, promessa de uma vida que seja melhor do que a dos antepassados? 100 anos de memória, outros tantos de desafios !

7. ‘SABEMOS QUANTOS SOMOS’. A população timorense cresceu com grande aceleração nos últimos anos. Em 1980 eram 550 mil pessoas, e, em 1990 cresceu para 747 mil e neste ano de 2004, o Censo recente confirmou a casa dos 924 mil 642 timorenses. Uma equipe de 4.000 recenseadores recolheu dados através de um inovador sistema de registro chamado de GPS. Primeiro, foi captar e registrar, agora cabe interpretar sem susto. A população timorense aumentou em 17 % em relação ao levantamento de 2001 : 467 mil 757 homens e 456 mil 885 mulheres, uma realidade esta que contraria a média mundial, mas que aqui em Timor significa elevada mortalidade materna. Quanto ao numero de habitações (casas e residências) o Census concluiu que existem 194 mil 943 casas, por todo o território nacional. Atenção : em Dili, aconteceu o maior crescimento, aumento de 39 %. A capital sofreu um afluxo da zona leste (Zona da segunda cidade de Timor que é Baucau): a população masculina desloca-se rapidamente para Dili, em busca de trabalho e em seguida traz a família. Milhares de jovens correm para cidade maior para estudar. ‘Desafio de grande dimensão ‘-diz o primeiro ministro Mari Alcatiri. Os números falam em alto som : há mulheres demais morrendo no primeiro parto, há desinformação e desigualdade no seio da população. Tomar posição frente aos números afirma a liderança feminina Maria Filomena Maia.

8. “MULHER, BATA O TAMBOR”. Babadok é igual a ‘Tamborim’, o nome de um prestigioso jornal do movimento das Mulheres em Timor. Existem varias organizações de Mulheres e a Fokupers (fórum das mulheres de Timor). A opinião e o poder publico sempre acompanham com atenção as decisões e propostas expressas nos congressos nacionais de Mulheres, como a poucos meses, no II° Congresso das Mulheres em Dili. Diziam as faixas espalhadas pela cidade: ”Amamos muito a cultura do nosso país, mas precisamos trilhar novos caminhos”. Referencia a costumes seculares que nem sempre consideravam a mulher como sujeito humano e político, também alusão aos graves problemas de violência domestica que permanecem na ordem da vida familiar de hoje. O espaço da mulher em Timor é merecido e reconhecido: centenas delas foram ‘estafetas’ de informação nas montanhas durante a guerra, lutaram com os homens lado a lado, foram defensoras da vida na retaguarda da luta contra o opressor indonésio , pagaram alto preço de tortura nas prisões de Becora , Balide, Baucau... Um simples sinal, mas evidente, dessa visibilização da força feminina, é o grande numero de mulheres que desfilam de moto, seguras e elegantes, pelas ruas da cidade. Os olhos masculinos, de soslaio, acompanham admirados (ou ciumentos ?).

9.AMARELO SUBMARINO. De que cor eram pintados os submarinos americanos que, durante a ocupação Indonésia, cruzavam as abissais profundezas dos mares de Atauro, a ilha deitada em frente à Ilha de Timor ? À boca pequena, comenta-se que existe uma nova presença americana em Timor, com desejos inconfessados de transformar Atauro em base militar. O que è certo, por ora, é o interesse turístico em aumento, como demonstra a Aldeia de ecoturismo, Tua Koin chamada. Uma antena de comunicação telefônica foi instalada há poucos dias, e não é pouco. Atauro é de origem vulcânica.
Atualmente, ainda existem vestígios do fenômeno vulcânico que deu origem à Ilha: as fontes de água quente de Maumeta e Fatolela, entre outras. “Ilha dos cabritos” era chamada. ‘Pérola de Timor’, hoje, atávica terra de pescadores, mergulhadores de profundidade, que, mesmo com poucos recursos técnicos, óculos de madeira e lanças artesanais, realizam façanhas incríveis. Navegam em ‘beiros’, barcos cavados do tronco de arvores, com estabilizadores laterais, memória de navegações pré-históricas. A ilha de Atauro foi lugar de exílio de importantes lideranças no tempo da ditadura de Salazar, prisão dos renitentes, buraco dos inconformados, ilha sem retorno para algumas lideranças, mas também espaço de segurança no tempo das milícias assassinas em ’99.
“Atauro, à vista” –gritam os turistas e os estrategas das bases militares.

10.“DEUS É O NOSSO TRONCO E A NOSSA RAIZ”. Durante séculos, os povos que praticavam rituais e crenças inspiradas no ‘animismo’ eram chamados de ‘povos gentílicos ‘. Mas, uma compreensão mais atenta e baseada na convivência direta , obriga não só’ o cientista, mas o animador de comunidades e o líder religioso a re-interpretar o significado carregado de sentido, dos mitos e lendas que transmitiram a visão de mundo e do cosmos às comunidades da Montanha, por tradição oral, através dos famosos ‘lia-nain’, isto é Senhores da palavra narrada. Contam, os Guardadores dessa cultura secular, a historia do ‘kaleik talim’, nome de uma gigantesca planta trepadeira timorense, que dá uns frutos grandes , que, em tempos imemoriais, que ligava a terra e o céu, de tal forma que se podia ir e vir de lá para cá e de cá para lá e subia-se ao céu para buscar fogo e cozinhar. Um dia, uma mulher subiu ao céu para ir buscar fogo para a comida, mas demorou demais, observando crianças no jogo do ‘laleik’, com os frutos daquela planta, com que os pequenos brincavam, esquecendo, na terra, os filhos entregues ao pai, chorando com fome. E o pai, desesperado pela inexplicável demora da mulher, pega um machado e corta a planta trepadeira, tendo ficado, desde aquele tempo, muito distantes o céu e a terra. O céu subiu, subiu...E, pronto, nunca mais ninguém subiu ao céu nem do céu desceu a terra. O pesquisador pergunta ao velho Narrador : “Onde é que fica esta raiz do kaleik talim ?”. Recebeu ele a seguinte resposta : “Alguns dizem, lá, na Ponte Leste, outros no meio da Ilha de Timor. Quer saber mesmo onde é que cresce essa kaleik talim ? E’ aqui, no intimo do coração”. O Sábio sorri e confirma.

“Timor Loro Sa’e” relembra, em tempos de nova ‘dispersão’, como hoje, a importância de dialogar com as antigas sabedorias, com as mudanças de hoje, com as novas provocações vindas da economia de mercado : ‘somos como uma arvore que tem de crescer forte, onde cada um é um ramo que floresce e frutifica e onde , afinal, todos assumimos as mesmas raízes, os mesmos troncos e a mesma Fonte Luminosa (Maromak, nome de Deus em Tétum)’.

11.Rostos e semblantes surgem, todo dia, um pouco mais ao Leste do mundo Ocidental: quando o outro me aparece no seu rosto, reconheço-me então sem poder. O rosto do outro timorense, escapa ao sistema do nosso mundo, ‘entra no nosso mundo como um estranho que pede hospedagem e por ele nos tornamos responsáveis ‘. Nos rostos e semblantes de Timor, recebemos, quem sabe, o anuncio de nossa própria humanidade. Como os fios coloridos e entrelaçados do tecido de um novo ‘Tais’, há um tempo traje e moeda, e urdido em conjunto pelas Mulheres.

Como fios entrelaçados ao cotidiano da vida que sempre teima.

Chico Moser, Dili, 10/10/04

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