| QUANDO O ARROZ FLORESCER...
*Pe. Chico Moser
“Qual é a causa porque o teu milho não espiga?
Qual é a causa porque o teu arroz não floresce?
Qual é a causa da tua fome? Qual è a causa do
teu suor sem fim?”
(Kolele Mai Fco. Borges da Costa)
A resposta do poeta timorense , no poema acima , estava implícita:
era o colonialismo. Ele mesmo morreu baleado no primeiro dia da
invasão da Indonésia, 7 de dezembro de 1975. O mundo
estava ocupado e distraído com a derrota no Vietnam. Estou
finalmente em Timor Leste há mais de dois meses.
Moro em Dili, a maior das cidades, quase 200.000 habitantes. Um
belíssimo porto. Atrás as montanhas. Timor, terra
ainda desconhecida à industria turística. É
uma questão de tempo, porque tem belezas e cores para dar
e mostrar.
Todo dia saio de manhã, cedinho.
Voltei a estudar em tempos de aposentadoria.
Mergulhei no estudo do Tètun, umas das 42 línguas.
A juventude foi obrigada a aprender a língua do ocupante
(o bahatsa). A política era apagar as línguas, destruir
a resistência, “substituir” o povo timorense com
as famosas “transferências” forcadas. Há
dois anos, desde 20 de maio de 2002, o povo desta ilha resistente
tenta subir a ladeira da justiça, da dignidade. 50% é
juventude. Existem em Dili 7 pequenas universidades. Numa delas,
que eu conheço, estudam 3.000 jovens todo dia. A cidade é
mais parecida com um grande acampamento. Cidade de muitos “malai”,
assim os nativos chamam os estrangeiros. São padrões
de vida diferentes.
Para os de fora, supermercados e mercadorias a preço de
dólar. Os Timorenses, empobrecidos e estressados pela guerra,
vivem, na maioria, abaixo do nível da pobreza. Sabe-se que
o modelo ocidental, recolher dinheiro no mundo para pagar aqui os
técnicos dos paises ricos, tem custado demais. Os militares
dos capacetes azuis da ONU estão retirando-se devagar porque
ainda há perigos nas esquinas.
Participei de uma jornada sobre saúde e pastoral da saúde,
com gente de toda a ilha e foi surpresa agradável a qualidade
dos debates e da reflexão.
Recuperar a saúde individual e coletiva é um desafio
urgente. A cidade está renascendo lentamente. Impressiona
a quantidade de prédios e construções carbonizadas,
antigos
hotéis, repartições públicas, inclusive
a casa de dom Belo, o bispo Nobel da Paz, tudo ardeu durante 15
dias, quando as milícias e os militares indonésios
se retiraram, assassinando, queimando e destruindo. O pesadelo e
o horror permanecem no inconsciente.
Comissões “pela verdade e pela reconciliação”
trabalham há 4 anos. Esse ano serão publicados os
relatórios.
Mas, os dois generais que comandaram as operações
de extermínio, serão candidatos às eleições
no dia 02 de julho próximo. Acompanhem!
O povo cala, parece tímido, mas è porque ainda não
confia. Pouco a pouco as estruturas e os serviços são
reconstruídos. Mais difícil é recompor a vida
, as relações feridas.
Aqui, tudo se encontra. Todos os povos, ONGs, UM, Organizações
trabalham. A queixa é grande em relação à
distancia desses técnicos da vida real, humilde desse povo
“baixinho, amorenado. Crianças e jovens, de uma beleza
encantadora, sorriem largamente e cumprimentam. A Igreja Católica
teve papel histórico grandioso na época da ocupação.
É,
porém, uma Igreja que não conheceu o concílio
Vaticano II, Igreja Povo de Deus , comunidades de base. Há
poder concentrado nas Congregações presentes. Cuidam
um pouco de si mesmas, não marcam presença ativa junto
aos sofredores: constatação feita pelo novo Bispo
de Dili, na Sagração no dia 02 de maio passado, diante
de 20.000 pessoas em bonita celebração campal.
Há esperança, há confiança nas lideranças
que foram, durante tanto tempo, à luta da independência.
A natalidade é elevada.
Nascem muitas crianças, mesmo em contextos de risco e fragilidade.
São muitas tarefas ao mesmo tempo. Cuidar da vida “ferida
como esta”, na palavra do Zé Vicente.
Caminho pelas ruas, reconheço os sinais da realidade urbana,
a lógica da exclusão aumentando: turmas de crianças
pedindo esmola, perambulando em pequenos bandos, o lixo e os esgotos
a céu aberto. A informação é pouca,
os jornais começam a circular, um canal de TV , algumas rádios.
Luz elétrica racionada. Isto na cidade porque na serra distante
onde vivem antigas populações e onde trabalham duas
equipes de irmãs brasileiras, existe um gerador parado por
falta de combustível e as comunicações não
existem, a não ser a rádio de emergência da
polícia.
O campo de trabalho é grande.
Penso por onde deve andar o caminho da missão. Penso no
grão de mostarda que está crescendo, na força
extraordinária desses enfraquecidos e encurvados sob o peso
que carregam. Admiro algumas dezenas de pessoas que eu conheci (e
quem sabe quantas mais?).
Tecelãs e tecelões de um dia novo.
Ficou um povo de viúvas e órfãos, de deslocados
e traumatizados. Mas é um povo que
herdou o gosto da festa: cantam bonito, gostam de corais. Nós,
das comunidades brasileiras, temos belas experiências a contar,
mas timorense capricha no canto, na liturgia, na dimensão
da alegria. É um contrapeso importante.
Ligar missão e cura, contatos humanos freqüentes, ver
a possibilidade de estender pequenas redes de comunidades urbanas,
como estações da Vida ou pontos de encontro. Caminho
apressadamente pelas ruas, olho e gravo as pichações
ainda intactas da guerra, em tètun, em português e
em bahtsa: há um quê de ameaça nessas frases.
Ninguém as apagou. Como os prédios, às centenas,
chamuscados, queimados.
Precisa de tempo. A memória das vítimas (mais de
200.000) está ainda viva nas mentes e corações.
Uma amiga, antes de partir, na Messejana, me colocou em crise,
dizendo: “Vale a pena ir tão longe” ?
A resposta provisória é mais ou menos assim: “Talvez
demorei demais”. Timor Leste, ‘Lorosa’ (o Sol
que levanta). É o primeiro país que o Sol vê,
ao surgir, toda manhã . Outro dia me despedi da repórter
de guerra Rosely Forganes, paulista, que escreveu “QUEIMADO,
QUEIMADO, MAS AGORA NOSSO”.
Vale a pena ler algo novo. Algo sempre está acontecendo,
um pouco mais ao leste, para um leste mais distante.
Amanhã, em Dili.
*Pe. Chico Moser é missionário fortalezense em Timor
Leste e leitor da edição eletrônica semanal
do Boletim da AnotE.
25 de Junho de 2004 |