| Antônio Vieira e a Vila
de São Paulo
Juarez D. Ambires Sumário
O presente artigo chama a atenção para a figura do
jesuíta Antônio Vieira e sua relação
com os moradores da Vila de São Paulo, em fins do século
XVII, período em que os paulistas pleiteiam a administração
direta da mão-de-obra índia.
Palavras Chaves
Antônio Vieira – Vila de São Paulo – Século
XVII – Mão-de-obra Índia.
Abstract
The present article focuses attention on the figure of the jesuit
Antônio Vieira and his relationship with the dwellers of Vila
de São Paulo in the end of the XVII th century, of which
period the paulistans claimed for the direct administration of the
indian workers.
Keywords
Antônio Vieira – Vila de São Paulo – XVII
th Century – Indian Works
Não é Vieira, em sua multiplicidade,
um autor esgotado. Há muito ainda a se dizer sobre ele, havendo,
em verdade, ainda agora escritos seus por publicar e episódios
de sua vida não satisfatoriamente investigados. Um deles
é a sua relação com a Vila de São Paulo,
em fins do século XVII, circunstância que averiguamos
para montagem de dissertação de mestrado, defendida
em outubro de 2000, na Universidade de São Paulo, o que é
fato que, em nossa observação, não esgotou
o assunto, mas sim o abriu para pesquisa mais acurada, mais detida
em documentos de época, o que, aos poucos e não sem
dificuldades, estamos engendrando na rica fonte que é o Arquivo
da Companhia de Jesus, em Roma. Por isto e assim, ousamos dizer,
na extensão do que afirmamos, da necessidade de um projeto
(ao menos projeto) de reescrituração da biografia
do célebre jesuíta, havendo, em nosso modo de sentir
e pensar, a conveniência de se incluir o episódio que
averiguamos e, aqui, em artigo desenvolveremos, explorando de maneira
sucinta o que consideramos as coordenadas gerais de uma rica e intrigante
questão.
A princípio, imaginamos, cause a muito leitor estranhamento
deparar-se com a afirmação de que Antônio Vieira
é figura ligada à Vila de São Paulo e sua história.
Quando se trata de América Portuguesa, o que se encontra
com freqüência é a sua associação
ao Maranhão e Grão Pará, à Capitania
da Bahia e, nela, mais propriamente à cidade de Salvador.
Ainda para exemplo, vemos sua pessoa e nome ligados ao Rio Amazonas
( Vieira, em pirogas, por ele navegou), à Serra de Ibiapaba,
em atuais penedias cearenses, em missão de paz e catequética
junto aos Tobajaras. À Vila de São Paulo, porém,
a aproximação não é comum. A ligação,
contudo, existiu e é fato de importância nas duas histórias,
isto é, na da vida do jesuíta e na da povoação,
à época Vila de São Paulo de Piratininga.
A cronologia da associação bem referida é o
fim do século XVII, mais propriamente suas duas últimas
décadas, espaço de tempo que, na vida de Vieira, equivale
ao seu retorno definitivo ao Brasil; que, na vida da Vila de São
Paulo, equivale à expressão concreta (início
dos anos oitenta) da intenção de obter a administração
direta da mão-de-obra índia já cativada ou
na possibilidade de apresamento. Este fato é o pivô
da ligação mencionada. É preciso que se diga,
contudo, na seqüência da exposição das
idéias, que Vieira e São Paulo – na circunstância
representada por sua Câmara – entrarão em conflito,
devido às posturas e pretensões diferentes, ante o
assunto “administração do índio”.
Em 1681, mais propriamente em agosto deste ano, Vieira está
chegando à cidade de Salvador, vindo de Portugal. Premido
por diversas circunstâncias, mas particularmente pelo reestabelecimento
do Tribunal da Inquisição Portuguesa, o jesuíta
vê sua permanência na corte inviabilizada. Sedenta de
vingança, a instituição certamente faria de
Vieira seu primordial alvo, devido à responsabilidade deste
quanto ao veto papal que recaiu por cinco anos sobre os inquisidores
portugueses, tornando nulos, por todo período, seus atos.
A instituição, cujas atitudes e práticas Vieira
considerava (mormente aquelas contrárias aos judeus) para
todo o reino mais nocivas que a guerra, a peste e a fome, voltara
a agir. Sem proteção direta, pois o jesuíta
não é um valido de D. Pedro, tal como o queria, vê-se
o pregador mais que na contingência de aceitar a indicação
do Geral da Ordem (à época, Paolo Oliva) de tornar
ao Brasil e, em Salvador, organizar para publicação
os sermões ainda inéditos. Este Vieira – o retornado
– é o que, em paralelo aos arranjos de escritos, entrará
em confronto com os paulistas e seu querer. Assim, neste período
chamado o do Vieira escritor (Wílson Martins é o autor
da afirmação) é que as duas forças se
antagonizam. Alguns contatos, contudo, entre Vieira e os paulistas
já haviam ocorrido em passado mais recuado e o clima de oposição
já se fazia presente neste antes.
Educado nos exemplos de Nóbrega e Fernão Cardim, cedo
Vieira revelara interesses pela vida missionária, atribuindo
à catequese do índio grande importância. Em
sua ótica, o índio convertido é peça
de relevo para a concretização do projeto messiânico.
O reino de Portugal é a antecipação do de Deus
e na sua razão de estado, que é político-teológica,
o índio é súdito e seus préstimos seriam
de mérito, pois se concretizariam principalmente na defesa
militar da colônia e na produção agrícola.
Na visão do jesuíta, o trato com o silvícola
é objetivo, prático, e o bom índio é
o tutelado à Companhia, reconhecendo o mérito da vassalagem
ao rei português e à Igreja. Todos os que com a Ordem
disputam o índio são, nesta linha de raciocínio,
inimigos. O paulista é um deles, para não se dizer
o principal deles. As notícias de suas desavenças
com os jesuítas são antigas. Ao Colégio da
Bahia do Vieira noviço, para exemplo, já chegavam
os informes dos ataques dos bandeirantes às reduções
jesuíticas paraguaias. Contatos diretos também aconteceram.
Anos depois, já no Maranhão, Vieira encontraria a
bandeira de Raposo Tavares que, após três anos de perambulação
por sertões, chegara à região amazônica,
sempre no intuito do apresamento, como se já não bastassem
os reclamos por mão-de-obra índia da parte dos colonos
daquele estado. Assim é que do Vieira de 1681 se pode dizer
que, em terras da América Portuguesa reinstalado, só
retoma de modo mais direto, na linha de nosso tema, um velho assunto.
Acompanhando o velho, porém, há agora – as duas
últimas décadas do século XVII – uma
reivindicação, que reputamos audaciosa, de um grupo
que entendemos organizado e com poder de luta.
John Monteiro é, parece-nos, em suas pesquisas (Negros da
Terra é a principal delas) o estudioso que mais investe na
certeza de que os paulistas são, à época referida,
um grupo organizado entorno de seus interesses e bem representado
por sua Câmara Municipal. Luís Felipe de Alencastro
(O Trato dos Viventes é, no caso, o seu escrito de referência)
é estudioso que confirma a mesma idéia, embora em
paralelo repute como retrógrada a intenção
paulista, já que forma de resistência (se bem captamos
sua interpretação) à escravidão negra
que é, na sintonia histórico-econômica, a apropriada
para uma colônia de exploração. A atitude paulista,
porém – esta busca da administração direta
da mão-de-obra índia –, chama a atenção
para um segmento da economia que não é diretamente
o agro-exportador, mas que internamente assume responsabilidades
com isto, garantindo à colônia uma parte substancial
de seu abastecimento de víveres, para a manutenção
e desenvolvimento de uma vida cotidiana. Em concomitância
a este aspecto, o paulista está sendo o responsável
pelo alastramento das fronteiras da Colônia Portuguesa e será
o desencadeador de uma mudança de eixo econômico na
América Lusa. Do Nordeste, o forte dos interesses econômicos
migra mais para o sul com a descoberta do ouro das Minas Gerais,
fato que se atribui à ação paulista na exploração
da terra e que, na sua concretização, utiliza exclusivamente
mão-de-obra índia, ao que tudo indica. Quando da reivindicação
do paulista à Coroa para administrar diretamente o índio
apresado, o último dos fatos ainda não se desencadeou,
mas há fortes indícios de que irá ocorrer e
por mãos de exploradores saídos do planalto de Piratininga.
A Coroa contando com isto para o engrossamento do seu erário
dá em definitivo o sim aos paulistas em 1694 , um ano após
as descobertas auríferas, e o ratifica por cartas régias
de 1696. O Vieira contrário à intenção
da Câmara da Vila de São Paulo enfrenta, assim, um
grupo com poder de fogo e de uma órbita de influência
já espraiada por diversos setores e segmentos, inclusive
no seio da própria Companhia de Jesus, o que muito molestará
e indignará o jesuíta que, neste seu retorno, ainda
defende a idéia de que o grande papel da Ordem é o
trabalho missionário. Para Vieira, a formação
de um grupo de apoio à intenção paulista no
interior da Companhia é traição e as atuações
distintas gerarão uma contenda que é das mais polêmicas
a envolver jesuítas, na vida da Colônia. A briga à
distancia (Vieira versus paulistas) dá-se agora diretamente,
no Colégio dos Jesuítas da Bahia (alguns jesuítas
versus Antônio Vieira). Nesta discordância, estruturam-se
com certeza dois grupos que serão, já à época
designados, segundo Serafim leite, por “Vierista”, contendo
este obviamente Vieira e seus partidários, e por “Alexandrista”,
o grupo contrário aos pareceres de Antônio Vieira e
liderado por Alexandre de Gusmão, jesuíta intimamente
ligado à concretização da vitória paulista.
Este mesmo grupo alexandrista será, em paralelo, alcunhado
“grupo dos estrangeiros”, por coligar padres de nacionalidades
diversas, mas particularmente jesuítas italianos, dois deles
nomes de importância na observação do cotidiano
econômico da colônia: George Benci e João Antônio
Andreoni – o Antonil do famoso Cultura e Opulência do
Brasil por suas Drogas e Minas. Sobre estes jesuítas, unidos
na oposição, cabem algumas elucidações,
mesmo que perfunctórias. Na linha de pensamento do historiador
e jesuíta Serafim Leite, os desacertos e, na extensão,
a derrota de Vieira marcam o fim de uma era na história da
Companhia de Jesus no Brasil.
Grande desafeto do pregador, nesta contenda, será Alexandre
de Gusmão. É que devido ao mencionado intuito que
domina o jesuíta retornado, opor-se-á Vieira à
construção do Colégio e Seminário de
Belém da Cachoeira, na Bahia – idéia gestada
e capitaneada por Gusmão. Para o pregador, a investir-se,
que se empregue dinheiro na formação de noviços
afeitos à vida nas missões e, para tanto, dominante
do principal de seus instrumentos de trabalho – línguas
índias, das quais Vieira gaba-se de conhecer nada menos que
oito. Na argumentação de Hoornaert, o Colégio
estaria, no caso, distante desta indução. Ficaria
mais já a representar um espírito quando pouco pendente
para o citadino e para a formação das elites da terra.
O Alexandre de Gusmão diplomata – afilhado do jesuíta
de mesmo nome – envolvido posteriormente (século XVIII)
nas negociações dos limites dos territórios
português e espanhol é um exemplo; Bartolomeu Lourenço
– o inventor da passarola e valido de D. João V –,
outro.
Ainda componentes do grupo de oposição a Vieira, que
não podem passar sem referência, seriam Jacob Roland
e George Benci, este italiano, tal como Andreoni e tal como o já
mencionado; aquele, flamengo. Ambos, marcados pelo cotidiano da
América Portuguesa, deixaram obras de importância ligadas
a ela e obras relevantes em nosso tempo. A produção
de Benci, para exemplo, é grande contribuição,
quando se pensa o resgate econômico e social de nosso mundo
açucareiro. Seu escrito Economia Cristã dos Senhores
no Governo dos Escravos abre espaço em nossa opinião,
para uma obra da importância da de Andreoni. Seu trabalho,
se bem pensado (e nisto certamente se incluiria também o
de Antonil), faz-nos encontrar em suas entrelinhas a figura do jesuíta
conselheiro, que revela o quanto o nosso colonial é uma cronologia,
cujo econômico se justifica pelo teológico ou, ainda,
tem a teologia na base central da defesa para a natural perpetuação
do sistema escravagista, de um mundo de hierarquia, no qual ordem
e modelo são palavras que não ecoam no vazio e o senhor
de terras (no caso, o senhor de engenho) é o personagem nuclear.
Segundo Serafim Leite, Benci participa diretamente da contenda,
vindo à Vila de São Paulo para, em nome de Gusmão
– o provincial – negociar. Isto vem a ocorrer em 1685.
Na década seguinte, destaca-se Andreoni que, em 1694, como
secretário acompanha o provincial (outra vez Gusmão)
ao planalto e dá conta, ao que tudo indica, das negociações
(à ocasião, firmadas no Colégio dos Jesuítas
da Vila), na Ânua de mesma data. Com a diáspora destes
estrangeiros posterior ao passamento de Vieira, Benci é enviado
a Portugal, onde falece em 1708. Dos italianos, então, fica
na Bahia dos mais importantes apenas Andreoni que, agraciado com
proteções (tal como outrora contara com o apadrinhamento
de Vieira, segundo Serafim leite) vem a ocupar cargos de importância
na hierarquia da ordem (virá a ser Reitor do Colégio
da Bahia e Provincial, apesar de estrangeiro) e de influência
no plano social, como confessor e assistente de grandes autoridades
(confessor, sê-lo-á de D. João de Lencastre;
consultor e assistente na área jurídica, de D. Sebastião
Monteiro de Vide, para a ordenação das “Constituições
Primeiras” do Arcebispado da Bahia). Nem em tudo, porém,
os dois jesuítas italianos – pertencentes ao grupo
apelidado de “os estrangeiros” – estarão
em litígio com Vieira e fato merece ao menos pequena menção.
Andreoni e Benci, pelo conteúdo de suas obras, concordam
com o célebre jesuíta em ao menos um ponto: irmanam-se
nos receios quanto à descoberta de ouro na colônia,
por conta de seus efeitos desagregadores. Para os economistas e
o pregador, o metal seria elemento de instabilidade e corrupção,
a ameaçar o que é sólido e, verdadeiramente,
dá sustentação: a lavoura, mormente a de cana
e, na extensão, o seu modo de vida. Em sua principal obra,
Andreoni explicita esta sua crença e Benci também,
em seu escrito. Isto, contudo, como já o vimos, não
impedirá os seus pareceres e atitudes favoráveis aos
paulistas, na contenda em questão. A nós parece-nos
impossível que desconhecessem os empenhos das gentes de Piratininga,
apoiadas por atitudes da Coroa, no afã de localizar ouro
e outros correlatos de importância. A busca da exclusividade
na posse e utilização da mão-de-obra índia
não se daria apenas para o seu emprego na lavoura. A história
da Capitania, desde há muito, já o confirmava. Qual
a causa da aparente contradição? O fato, em verdade,
ainda demanda pesquisa. Benci e Andreoni são personagens
da história ainda com muito a dizer, acreditamos. Jacob Roland
é, por sua vez e em nossa opinião, outra personagem
importante a requerer atenção. Os informes que dele
temos são os dados por Serafim Leite que em sua História
da Companhia de Jesus no Brasil, ao nos elucidar sobre a contenda,
toma o partido de Vieira, deitando aos da oposição
o estigma de traidores. Roland, na escrita do historiador da Companhia,
é apresentado assim. Os componentes de sua biografia, porém,
são escassos. No seu envolvimento na contenda é que
mais o conhecemos.
Ao contrário do que talvez se possa pensar, Roland, ao chegar
ao Brasil, envolveu-se no trabalho missionário. Sua destinação
foi o sertão baiano. Pelo que se apreende, Roland pelejou
nas missões da banda oriental do São Francisco e mostrou-se
empenhado. Indispôs-se, e mais de uma vez, com os bandeirantes
da Casa da Torre, sob a liderança do capitão Garcia
d’Ávila, grande proprietário dos sertões
às margens do rio. Sua prática de criação
extensiva de gado levava ao alastramento de seus latifúndios.
A ocupação de novas terras, porém, efetuava-se
sob intenso confronto entre invasores e índios, aldeados
ou não. Ao que tudo indica, foi ainda no sertão baiano
que Roland teve seus primeiros contatos com os paulistas. Em suas
andanças confrontaram-se estes com os homens de Garcia d’Ávila.
A circunstância estabelece a camaradagem entre o jesuíta
e os bandeirantes de Piratininga. A contenda pela posse dos índios
administrados, ao sul, terá Roland em São Paulo e
assumindo atitude favorável aos paulistas e por escrito.
De sua lavra é o (em título contraído) “Apologia
pro paulistis”, documento que o põe em desentendimento
direto com Vieira. Nele, o jesuíta, ao contrário do
famoso pregador, defende a idéia de que o paulista é
parte da igreja e tem direito à comunhão, porque o
apresamento do índio é a possibilidade da cristianização,
à época o passaporte para a civilidade. O documento
é de 1684, ano intenso para Roland que, ainda nele, deixa
o Brasil com destino à África e lá falece,
não se arrefecendo por isto a oposição a Vieira
que, como se constata (disto esperamos ter dado conta) é
intensa. As atitudes do pregador, na contrapartida, vão se
sucedendo à medida dos acontecimentos. Para se dar um pouco
mais conta disto, é preciso retornar-se ao período
do Vieira Visitador. Nele (1688 a 1691) é que o vemos mais
ativo no, já várias vezes referido, empenho para o
retorno ao ideal missionário, assunto sempre a merecer atenção.
A subida de Vieira à condição de Visitador
coincide com o afastamento de Gusmão do provincialato. Já
conta Vieira, à ocasião, oitenta alquebrados anos,
o que não o impede, porém, de dedicar-se com verve
a seu intuito. Mesmo impossibilitado de viajar, devido à
idade e à saúde precária, da Bahia vemo-lo
lançar chispas. Para o convencimento de seus noviços,
lança mão de seu maior recurso: sermões, e,
não sem razão, os seus principais trabalhos para a
sensibilização são chamados “Exhortações”.
Os anos de 1688 a 1689 constituem o período em que ocorrerão
e quatro serão estes sermões. Destas peças
a mais importante será a primeira, a “Exortação
I em Véspera do Espírito Santo” que, como as
demais, é escrito que traz as preocupações
de Vieira com as missões na América Portuguesa, o
espírito e a prática missionária e a relação
disto com a sociedade colonial.
Não sem propósito é que Vieira prega a sua
“Exortação I”, às vésperas
do Pentecostes de 1688. A sua esperança era a de que o Espírito
Santo agisse nos corações dos novos da Companhia e
os cooptasse para o ideal missionário que tem, em essência
última, o próprio Vieira como protótipo e traz
como marca, segundo os estudiosos do Vieira missionário,
cinco condições. Há de ser o missionário
um despojado, um conhecedor de línguas índias, um
defensor de suas ovelhas, um soldado fidelíssimo do rei,
um persistente incansável. Esta como que “teoria do
missionário” migra do terreno prático –
a vida pregressa do Visitador – e vai para os bancos do Colégio
da Bahia, onde a autoridade da liderança a oficializa e a
torna matéria de aprendizagem, julgada, na circunstância,
mais importante que toda e qualquer forma de erudição.
Todo este empenho, entretanto, não faz retroagir o que já
os paulistas haviam conseguido para a administração
direta dos índios. A visita de homem da confiança
de Vieira – o jesuíta Francisco Frazão –
à Vila de São Paulo não repercute a favor do
segmento vieirista. O retorno de Gusmão às condições
de Provincial foi, em sentido último, a pá de cal
sobre o empenho do pregador e seus apoios. Haverá, ainda
e contudo, expressiva reação de Vieira. Encontramo-la
presentificada no seu “Voto sobre as dúvidas dos moradores
de São Paulo acerca da administração dos índios”
que vem datado de 12 de julho 1694. Em janeiro do mesmo ano, porém,
estivera em São Paulo novamente o Gusmão segunda vez
Provincial (1694 a 1697). Com carta régia de plenos poderes
para negociar, representando na situação a Coroa,
ratificou o que já se acertara na negociação
da década anterior, em 1685. Um reforço para esta
ratificação vem do Governador para o Provincial. Assim
e com isto, permanece o empenho de Benci já firmado há
quase dez anos. Para selar definitivamente a vitória paulista
no aspecto em questão, D. Pedro II expede em 1696 (26 de
janeiro e 19 de fevereiro) cartas régias que dão aos
moradores de Piratininga a situação de administradores
diretos. Francisco de Matos, o próximo Provincial, desencadeou
a dispersão (diáspora) dos jesuítas estrangeiros,
mas não pode desfazer o que conseguira o antecessor. Em paralelo,
a vitória se ampliaria em seu poder, por conta das múltiplas
significações que desencadeou ou trouxe atreladas
a si.
Referências Bibliográficas
- Alencastro, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes. São
Paulo, Companhia das Letras, 2000.
- Blaj, Ilana. A Trama das Tensões. São Paulo, Humanitas,
2002.
- Calmon, Pedro. História do Brasil (3 vols). 3ª edição,
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1969.
- Hoornaert, Eduardo (Coord). História da Igreja na América
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- Monteiro, John. Negros da Terra. São Paulo, Companhia das
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- Puntoni, Pedro. A Guerra dos Bárbaros. São Paulo,
Hucitec/Edusp, 2001. |