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Conhecendo um pouco da língua portuguesa

Regina Helena Pires de Brito[1]

Antes de descrever a presença da língua portuguesa em Timor Leste, vale um pequeno passeio pelas suas origens – o que nos ajuda a perceber as distinções que se estabelecem entre línguas de famílias tão distintas: aquela do grupo românico e esta do grupo malaio-polinésio.

A língua portuguesa originou-se do latim, que era a língua oficial do Império Romano. A Península Ibérica (que corresponde, hoje, à Espanha e Portugal) foi uma das províncias dominadas pelos romanos, que levavam sua língua para as regiões conquistadas.

A língua latina apresentava basicamente duas formas: o latim clássico ou culto, usado pelas pessoas cultas e pela classe dominante, e o latim popular ou vulgar, empregado pelo povo em geral: comerciantes, soldados etc. Foi essa variedade do latim a assimilada pelos povos conquistados, que se mesclou com as línguas faladas nas colônias romanas. Além disso, e em decorrência de outras invasões e influências, o latim vulgar que havia chegado às diferentes colônias foi se transformando e, com o tempo, constituiu novas línguas. Damos o nome de “românicas” às línguas que vieram do latim vulgar – dentre elas, está o português.

A expansão marítima empreendida pelos lusitanos espalhou a língua portuguesa rapidamente por todas as partes do mundo. O mundo lusófono é avaliado hoje em cerca de 210 milhões de pessoas, considerando os países em que é oficial e as comunidades espalhadas pelos diferentes continentes. 

Em 1994, foi criada a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que procura reunir os oito países de língua oficial portuguesa com o propósito de uniformizar e difundir a língua portuguesa e aumentar o intercâmbio cultural entre os países membros. São eles:

  • África: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe,
  • América do Sul: Brasil;
  • Europa: Portugal (incluindo Ilha da Madeira e Arquipélago dos Açores);
  • Oceania: Timor Leste (na posição de observador)
  • Algumas outras regiões de presença portuguesa no passado e/ou onde se fala português:
  • Ásia: Macau, Goa, Damão, Ceilão, Cochim, Malaca;
  • África: Annobón, na Guiné Equatorial , Ziguinchor, Mombaça, Zamzibar;
  • Europa: na Espanha: Almedilha, Cedilho (Cedillo), A Codosera (La Codosera), Ferreira de Alcântara (Herrera de Alcantara), Galícia, Olivença, Vale de Xalma (Bal de Xálima).

Timor Leste foi admitido na CPLP como membro-observador, a partir da decisão do Congresso do Conselho Nacional de Resistência Timorense, votada em 29 de agosto de 2000, de a língua portuguesa ser declarada língua oficial de Timor Loro Sae, nas palavras do líder Xanana Gusmão:

"Tendo em mente a nossa história, nós devemos fortalecer a nossa língua materna, o tétum, disseminar e aperfeiçoar o domínio da língua portuguesa e manter o ensino da língua Indonésia". A partir de 1 agosto de 2002, durante a IV Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP (realizada em Brasília), Timor Leste passou a figurar como membro efetivo da CPLP.

O mundo que fala português
Em destaque: países em que a língua portuguesa é oficial

Timor Leste

(fonte: www.cplp.org)

O português é, portanto, falado numa área vasta e descontínua e, como qualquer língua viva, apresenta-se internamente diferenciado em variedades que divergem de maneira mais ou menos acentuada. Essa diferenciação, contudo, não compromete a unidade do idioma: apesar da acidentada história da sua expansão na Europa e, principalmente, fora dela, a língua portuguesa conseguiu manter até hoje apreciável coesão entre as suas variedades. 

Em Timor Leste, um dos fatores de unidade é “a difusão de uma cultura luso-timorense, fruto de uma aculturação paulatina ao longo de quatro séculos e meio de contacto. Através dessa cultura mestiçada (de que o catolicismo e a língua portuguesa são talvez os dois elementos-chaves) a população timorense em geral e a sua classe dirigente em especial integram-se num universo cultural mais amplo, o da civilização lusófona.” (THOMAZ, 2000: 128)

Assim é que se torna possível a presença de falantes do português das mais diversas nacionalidades. São brasileiros disseminando a língua portuguesa por meio de diferentes manifestações culturais, como a música e a literatura (com o Projeto Estudantes no Timor da CCINT-USP e do Itamaraty); ensinando ofícios, como pedreiro, eletricista, encanador, azulejista... (com o Projeto do SENAI); auxiliando na alfabetização de jovens e adultos (com o Telecurso da Fundação Roberto Marinho e o Alfabetização Comunitária). São professores portugueses trabalhando com o ensino formal da língua portuguesa para as crianças e pesquisadores no Instituo Camões. Tantos outros profissionais ligados às áreas social e educacional provenientes de diferentes países lusófonos. Todos falantes de uma só língua, mas carregando consigo as peculiaridades de cada variedade do português e revelando a diversidade dos usos que o sistema lingüístico propicia.


[1] Doutora em Semiótica e Lingüística Geral pela Universidade de São Paulo. Docente do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo, Brasil) . Pós-doutoranda, sob a supervisão do Dr. Moisés Martins, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho (Braga, Portugal).

 

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