Geografia do Timor Leste
Professor Maurício Waldman
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Dados Gerais da Localização de
Timor
A ilha de Timor está situada nos confins
do Sudeste Asiático, bastante próxima da Oceania.
O nome da ilha é de origem malaia, significando Oriente.
Distingue-se dos ilhéus mais a Leste pela designação
de Timor Tesar -Oriente Grande. Sua hora local (+11 GMT), é
por si mesma indicativa da realidade geográfica na qual se
insere.
A ilha é uma das últimas que formam
a Insulíndia. Esta região é formada por arquipélagos
de variada extensão, que se espalham em arco entre a Malásia
e a Austrália. Deste modo, de um ponto de vista geográfico,
histórico e cultural, Timor corresponde a uma área
de transição, combinando características asiáticas
e do contexto oceânico.
O
Crocodilo andou, andou, andou. Exausto, parou, por fim, sob
um céu de turquesa e - Oh! Prodígio - transformou-se
em terra e terra para todo o sempre ficou. Terra que foi crescendo,
terra que foi se alongando e alteando sobre o mar imenso,
sem perder por completo, a configuração do crocodilo.
O rapaz foi seu primeiro habitante e passou a chamar-lhe Timor,
isto é, Oriente.
Mito Timorense
O Primeiro Habitante de Timor |
Timor soma aproximadamente 30.000 km², sendo
uma das ilhas que compõem o Arquipélago de Sonda,
igualmente parte da Insulíndia. Timor possui formato ablongo,
interpretado pelo imaginário local como sendo o contorno
de um crocodilo. Este, aliás, é um dos símbolos
do país. A ilha está orientada na direção
Sudoeste/Nordeste. Ao Sul e Leste é banhado pelo Oceano Índico
(Mar de Timor) e ao Norte, pelo Mar de Banda.
A localização da ilha
de Timor junto aos arquipélagos da Insulíndia. |
O território do Timor-Leste ou Oriental
corresponde aos trechos da ilha que até meados dos anos 70
estiveram sob domínio colonial português. Estes formam
atualmente a República Democrática de Timor Leste
- ou RDTL - independente desde 2002. O resto do território
está sob jurisdição da República da
Indonésia.
Isto posto, não podemos confundir Timor
enquanto ilha com a RDTL. Esta última forma um Estado soberano
situado geograficamente numa ilha cuja outra metade não constitui
parte do seu espaço político.
Para os padrões brasileiros, a RDTL é
um país pequeno. Seu território cobre escassos 18.899
Km². Nesta linha de argumentação, mesmo o menor
estado brasileiro, Sergipe (21.862 km²), seria maior que o
Timor-Leste. Unicamente na comparação com a menor
unidade da federação, que é o Distrito Federal
de Brasília (5.794 Km²), sua superfície seria
superior.
O Timor-Leste possui dois poderosos vizinhos: a
Austrália e a Indonésia, muito mais expressivos em
área, população e influência econômica.
De um ponto de vista geopolítico, a vizinhança com
estes dois colossos pressupõe enorme influência de
ambos nos destinos do país. Exatamente por esta mesma razão,
é grande a determinação dos timorenses na afirmação
da sua identidade histórica, lingüística e cultural.
Com a Indonésia, o Timor-Leste possui suas
únicas fronteiras terrestres. A RDTL está separada
da Austrália por largos braços de mar. Darwin, a cidade
australiana de porte mais próxima, dista aproximadamente
650 km ao Sudeste de Timor.
Aspectos da Geografia Física
Geologicamente, a ilha de Timor é de origem
vulcânica. Timor integra o chamado Anel de Fogo, área
de intensa atividade sísmica que bordeja todos os países
banhados pelo Pacífico. Registra-se a ocorrência de
vulcões extintos em Baucau e no Oé-Cussi. Próximo
da ilha há uma fossa oceânica ativa. Sendo um território
de formação geológica recente, as características
do relevo decorrem fundamentalmente desta determinação.
O Timor-Leste é cortado no centro, no sentido
Leste-Oeste, por uma imponente cadeia montanhosa, autêntica
coluna vertebral da topografia. Esta cadeia de montanhas também
constitui o divisor de águas da ilha, sendo origem de uma
densa rede hidrográfica, com rios que correm para o Sul e
para o Norte com grandes caudais na época das chuvas.
O país possui vários picos ultrapassando
2.000 metros, configurando um território escarpado. Muitas
das montanhas findam abruptamente no mar ao largo da costa setentrional.
No interior, as ramificações da cadeia montanhosa
central formam grande número de vales, rugosidades típicas
do relevo de vastas extensões do território timorense.
O ponto culminante do relevo é o Monte Ramelau
ou Tatamailau, com 2.963 metros de altitude, situado nas proximidades
da fronteira com a Indonésia. É comum a utilização
da sigla RMC para designar o triângulo abrangido pelas três
maiores montanhas de Timor-Leste: Ramelau (no centro, entre Ainaro
e Atsabe), Matebian (a Leste de Baucau, com 2380 metros) e Cablaki
(a Norte de Same, com 2.100 metros).
Ao lado desta topografia montanhosa, Timor conta
com uma extensa planície costeira, acomodada ao longo do
litoral. A parte meridional é geralmente larga, com a presença
de zonas de assoreamento, mangues e de pântanos na desembocadura
dos rios. Ao longo do litoral registram-se bancos de areia e várias
formações coralígenas de grande beleza.
O clima é equatorial, com temperaturas elevadas
e a amplitude térmica pouco significativa. Entre Outubro
e Dezembro ocorre o período mais quente. Timor-Leste está
inserido na área de ocorrência das monções,
influenciando sua pluviometria. Conseqüentemente, uma forte
estação chuvosa ocorre entre Dezembro e Março.
A intensidade e distribuição das
chuvas influenciam diretamente a configuração da densa
rede hidrográfica de Timor, formada por rios de regime torrencial,
que correm impetuosamente da Cordilheira central na direção
do oceano. O regime pluviométrico determina ainda os dinamismos
da vegetação, as possibilidades agro-pecuárias
e os assentamentos humanos.
A floresta equatorial constitui uma das mais magníficas
manifestações da vegetação original
de Timor. A capacidade desta cobertura vegetal em fornecer alimento,
lenha e proteção foi desde cedo apreciada pelas diversas
etnias que ocuparam o território timorense. A presença
abundante do sândalo, coqueiros e acácias constitui
uma marca notável da exuberante flora do país.
Pântanos, mangues e clareiras formadas por
extensões savaneiras e de campos completam o quadro biogeográfico
do país.
Um Pouco da História de Timor
Fontes chinesas, indianas, árabes e malaias
indicam a existência de laços comerciais muito antigos
com Timor. A partir dos primórdios do Século XVI,
no contexto das grandes navegações, seu território
foi declarado integrante do império português. Mais
tarde, a Holanda disputou o controle da ilha com Portugal, terminando
por ocupar sua parte Oeste (Ocidental).
As disputas pela posse do país perduraram
até o Século XX. Timor foi o último baluarte
da presença portuguesa na Oceania, vivendo em permanente
instabilidade provocada pelos cercos e combates com os holandeses.
Somente em 1914 a linha fronteiriça com os Países
Baixos foi fixada definitivamente, consagrando a divisão
de Timor entre as duas potências européias.
A delimitação das esferas de influência
em Timor contemplou Portugal com a metade Oriental e a Holanda,
com a metade ocidental. No interior da metade holandesa, foi reconhecida
a soberania portuguesa sobre o enclave de Oe-Cusse (Ocussi ou ainda
Ambeno). Neste enclave, localizava-se a primeira sede administrativa
do Timor Português, a cidade de Ocussi. Ademais, também
coube a Portugal a ilha de Atauro, na Costa Norte e o ilhéu
de Jacó, na ponta Leste.
Divisão Administrativa do Timor-Leste
com encarte do enclave do Oe-Cussi (Mapa: ONU) |
Ressalve-se que durante a maior parte da sua história
o vasto interior do Timor permaneceu livre da dominação
portuguesa, que se restringia a alguns povoados do litoral. A ocupação
do áspero hinterland montanhoso do país foi muito
difícil, dificultado pela resistência da população
local - também conhecida como maubere - ao domínio
português.
Os portugueses não encontraram um território
desabitado e muito menos carente de organização política.
Os timorenses encontravam-se organizados em diversas formações
políticas, definidas pelos cronistas coloniais como “Reinos”.
Denominados de Sucos pela população local, estas estruturas
políticas tinham nos Liurais ou Régulos, chefes políticos
tradicionais, sua representação mais evidente.
Assim, longe de manterem-se impassíveis,
os povos locais resistiram como puderam ao colonialismo, encetando
diversas insurreições anticoloniais: Kamenasse-Kailako
(1719/1726), Luka (1775/1882), Kova-Kotubaba (1865/1912) e Manu-Fahi
(1895/1912). Estas rebeliões acabaram por compelir Portugal
a organizar “campanhas de pacificação”,
ações militares que se prolongaram por quase 20 anos
(1984/1912).
No tocante ao Timor Holandês, este integrava
as Índias Orientais Neerlandesas, sob domínio dos
Países Baixos. Tornou-se independente em 1945 no interior
da República da Indonésia. A Indonésia foi
governada por Ahmed Sukarno, um importante líder progressista
que encaminhou uma política nacionalista e de contestação
ao neocolonialismo. Por isso mesmo, um sangrento golpe de estado
promovido por militares pró-ocidentais e apoiado pelos EUA
afastou-o do poder em 1965.
Quanto ao Timor Português, este permaneceu
sob domínio colonial até 1975. Em Abril de 1974, eclodiu
em Portugal a Revolução dos Cravos, derrubando o regime
salazarista. O movimento tinha como um dos seus principais objetivos
a retirada de Portugal de todas as suas possessões. Em Timor,
tal como nas demais colônias, a autonomia finalizaria uma
ocupação colonial repudiada pelo conjunto dos nacionalistas.
No entanto, apesar de todas as colônias africanas
de Portugal terem alcançado a independência, o mesmo
não aconteceu com Timor. A República Democrática
de Timor-Leste (RDTL), proclamada pela primeira vez pela FRETILIN
(Frente Revolucionária do Timor Leste Independente) em 28
de Novembro de 1975, teve existência efêmera.
Guerreiro maubere do Século
XIX |
Apenas dez dias após a proclamação
da independência, iniciou-se em 07 de Dezembro de 1975 a invasão
de Timor pela Indonésia. Preparada durante meses pelo Exército
deste país com o apoio logístico da administração
Gerald Ford, dos EUA, sua intenção era promover a
Integrasi, ou seja, a anexação do Timor-Leste à
Indonésia.
A invasão inaugurou uma era de repressão,
violências e de genocídio físico e cultural
sem precedentes na história do território. Ela foi
desenvolvida sob o comando do General Suharto, líder do grupo
militar que dez anos antes tinha tomado o poder na Indonésia.
Sua meta era a transformação do Timor-Leste na “27ª
Província da Indonésia”, rebatizado Loro Sae.
Com isto, os militares objetivavam assenhorar-se das riquezas do
Timor-Leste e liquidar para sempre com o sonho de independência
dos seus habitantes.
Naturalmente, a anexação não
possuía qualquer amparo legal e, por conseguinte, não
foi reconhecida pelo Comitê de Descolonização
da ONU. A Organização das Nações Unidas
continuou a considerar Portugal como “potência administradora”
do país, desqualificando juridicamente a Integrasi promovida
pela Indonésia.
O povo timorense repudiou de modo quase unânime
os intentos dos invasores estrangeiros. Após muitos anos
de duras lutas e resistência ao invasor, o Timor-Leste finalmente
conquistou sua independência em 2002.
A RDTL ressurgiu em 2002 como o mais novo Estado
soberano do IIº Milênio, uma nação cujas
características a transformam num país irmão
do conjunto dos brasileiros e numa fonte das novas possibilidades
que se desenham no futuro.
A Pluralidade Timorense no
Tempo e no Espaço
Como vimos, Timor possui relevo acidentado, repleto
de escarpas e vales montanhosos. Os ecossistemas são também
diversificados. Este quadro natural, composto por “nichos
ecológicos” bem caracterizados, constituiu importante
apoio para a perpetuação da diversidade humana na
ilha. Isto porque os grupos étnicos de Timor sempre mantiveram
forte identificação com determinados ambientes naturais
da ilha.
Conseqüentemente, a diversidade do mundo tradicional
timorense tanto foi sustentada pelo quadro natural do país
assim como este também constituiu condição
para esta perpetuação. A relação de
equilíbrio mantida com a Natureza fortaleceu a tendência
de heterogeneidade da sociedade tradicional maubere, não
sendo possível pensar-se numa destas inferências sem
a sua contrapartida e vice-versa.
Por isso mesmo, não há um tipo
timorense homogêneo. Dum ponto de vista antropológico,
os mauberes diferem enormemente entre si. Sem excluir os traços
comuns a todas as suas populações, o fato é
que estamos diante de um universo crivado de alto a baixo pela heterogeneidade,
mantida durante o período colonial.
A manutenção desta diversidade sob
domínio português resultou tanto da escassa inserção
do colonizador no país, que nunca reuniu condições
de homogeneizar culturalmente o Timor Oriental, quanto pela política
de exaltar deliberadamente as diferenças como parte de uma
estratégia visando manter os mauberes em desunião
permanente.
A isto se agrega o fato do país caracterizar-se,
desde passado remoto, por densa presença humana. Em 1979,
a população do Timor Oriental somava 740.000 almas,
isto é, algo como 39 hab/km², cifra bastante significativa
para uma sociedade tradicional. A sociedade maubere era basicamente
rural e o timorense típico, habitante de uma das centenas
de aldeias disseminadas no território da ilha, assentamentos
via de regra imemoriais.
Outro aspecto importante no Timor português
é que a população autóctone sempre foi
majoritária. Por exemplo, os dados oficiais de 1950 relativos
à população contabilizavam 442.378 habitantes.
Nestes, os europeus somavam 568 indivíduos (quase todos portugueses),
os mestiços, 2.022 (geralmente pai português e mãe
maubere), os chineses, 3.128 (em sua maioria comerciantes) e outros
não-indígenas, como árabes e goeses (naturais
de Goa, então parte da chamada Índia Portuguesa),
212. Estavam também identificados 1.541 “indígenas
civilizados”, assimilados ao modo de vida do colonizador.
Os dados evidenciam que a imensa maioria da população
(98%) era formada por mauberes, milenarmente estabelecidos no país.
O substrato original da população local, assim como
dos habitantes das ilhas dos arredores e da Papua-Nova Guiné,
decorre de uma vaga de povoamento antiqüíssima, datada
de 30.000 anos atrás. Posteriormente, uma segunda onda migratória,
procedente da Ásia Continental e formada por malaios, alcançou
a região por volta de 2.500/1.500 a.C.
Por conseguinte, os mauberes resultam da mestiçagem entre
o primeiro grupo de migrantes, aparentados com os papuas e com os
melanésios, com grupos de malaios. Numa proporção
muito menor, árabes, chineses, indianos e inclusive africanos
provenientes das colônias portuguesas, dissolveu-se no corpo
principal do povo maubere. Quanto à sociedade tradicional
propriamente dita, esta é formada por cerca de 16 grupos
étnicos, configurando um complexo mosaico lingüístico
e cultural.
No entanto, a diversidade jamais significou ausência
de contatos entre as etnias do território. A sociedade tradicional
timorense estabeleceu formas de cimentar a solidariedade sem perder
suas especificidades. Esta tendência explica a afirmação
do Tétum enquanto língua franca ou veicular, desempenhando
papel de idioma de contato entre as etnias do Timor-Leste.
Através do Tétum, os timorenses comunicavam-se
entre si, sem prejuízo para as demais línguas e dialetos.
O prestígio do Tétum no período colonial foi
reafirmado pelo apoio da Igreja Católica, utilizando-o na
evangelização. O ensino do Tétum foi promovido
pelos missionários e também pela administração
portuguesa.
Nas lutas de libertação nacional,
o Tétum consolidou-se enquanto elemento de unidade nacional.
Nas montanhas, utilizando o método Paulo Freire, a resistência
timorense desenvolveu intensas campanhas de alfabetização
em Tétum, contribuindo assim para sua afirmação
no seio do povo maubere. Não sem motivo, o Tétum,
ao lado do português, constitui uma das línguas oficiais
da RDTL.
Outro ponto a ser ponderado quanto aos aspectos
sociais, lingüísticos e culturais de Timor foram os
470 anos de dominação colonial. Os portugueses marcaram
indelevelmente a personalidade nacional maubere, processo este que
impregnou sua cultura nos mais diferentes aspectos.
Dentre estes, a contribuição religiosa
conquista destaque especial. Com a chegada dos primeiros missionários
a partir do último quartel do Século XVII, iniciou-se
a evangelização, base para que mais tarde, o Timor-Leste
se transformasse num país quase inteiramente católico.
Esta é uma singularidade importante quando lembramos que
a Indonésia, seu poderoso vizinho, é o mais populoso
país muçulmano do mundo.
Ser
Católico para não ser Indonésio
Um aspecto
interessante do catolicismo timorense é que este triunfa
durante a ocupação indonésia. Em 1975,
ano da invasão, numa população de 689.000
habitantes os católicos eram 225.000 (32 % do total).
Na ocasião, a maioria dos mauberes, 400.000 pessoas
(58%), professava culto animista. As minorias protestante
e muçulmana eram inexpressivas. Em 1984, entre os 578.000
timorenses (decréscimo provocado pela ocupação),
os católicos já são 458.000 (79%), os
animistas reduziam-se a 100.000 indivíduos e os muçulmanos,
quase todos indonésios, eram 15.000. A rápida
expansão do catolicismo resultou da fricção
com o Islamismo. Este, ao ser identificado com os ocupantes,
não suscitava qualquer receptividade junto aos mauberes.
Pelo contrário, o choque com os indonésios levou
imensa maioria dos timorenses a adotar o catolicismo como
forma de preservar sua identidade. |
Além do catolicismo, outra contribuição
importante foi a língua portuguesa. O português consolidou-se
como meio de comunicação dos segmentos instruídos
e das camadas urbano-cristianizadas do país. Proibido pelos
invasores indonésios, o idioma sobreviveu e terminou reconhecido,
ao lado do Tétum, como língua oficial do Timor-Leste.
A Resistência Maubere sempre insistiu no
papel central da língua portuguesa no Timor-Leste independente.
O português é um suporte fundamental da identidade
nacional timorense, diferenciando-a dos milhões de falantes
do Bahasa na Indonésia e do inglês na Austrália
e em vários dos países vizinhos.
Não admira, pois que o Timor-Leste independente
tenha se tornado o oitavo país de língua oficial portuguesa
no mundo e também, ingressado na CPLP - Comunidade dos Países
de Língua Portuguesa. Timor é indiscutivelmente um
parceiro na solidariedade inquebrantável que deve unir o
mundo lusófono, contrapartida a uma globalização
anglófona.
"Defendemos
a reintrodução do português como língua
oficial porque ainda há milhares de timorenses que
falam o português e porque o Timor-Leste simplesmente
não poderia sobreviver como uma identidade específica
sem o português. É o português que garante
a identidade de Timor-Leste, é o português que
nos diferencia da região, é o português
que nos permite comunicação, ligação
e solidariedade com um espaço maior, que é o
espaço lusófono"(Declaração
de José Ramos Horta à Folha de São Paulo,
21-10-1996).
A República
Democrática de Timor-Leste mantém laços
privilegiados com os países de língua oficial
portuguesa (Constituição da RDTL, 2002, Parte
I, Artigo 8, § 3). |
Eis assim como o Timor se apresenta ao mundo:
uma nação plural, tropical, jovem, católica
e para arrematar, falante do português. O que mais seria necessário
para tornar esta nação próxima, de uma forma
ou de outra, de milhões de brasileiros?
A Organização
do Espaço Timorense
A sociedade maubere tradicional se pautava pelo
minucioso aproveitamento dos recursos naturais, tendo por base a
propriedade comum. Praticava-se a agricultura, a coleta de raízes
e frutos, a caça e a pesca. Alguns grupos, como os Makassai
da Cordilheira Central, construíam terraços nas montanhas
para a cultura do arroz de regadio. Um comércio fundamentado
em trocas complementares atravessava o conjunto da ilha. Os timorenses
desconheciam a carestia. A fome era um acontecimento excepcional.
Embora a sociedade timorense tenha vivenciado,
a partir do contato com os portugueses, mudanças em diversos
aspectos, isto não implicou na desarticulação
da vida tradicional, pois Timor ocupava uma posição
marginal no Império Colonial Português. As atividades
prediletas do mercantilismo português - o comércio
de especiarias, agricultura de plantation, tráfico de escravos
e a obtenção de metais preciosos - não eram
sob qualquer ponto de vista favorecidas em Timor. Mesmo as especiarias
- produtos típicos da Insulíndia - se concentravam
nas ilhas mais a Oeste (as Molucas) ou a Leste (Java e Sumatra).
A grande riqueza do Timor colonial, a madeira do
sândalo, esgotou-se logo nos primeiros momentos da colonização.
Somente a partir do Século XIX, com o crescimento da demanda
internacional pelo café, o país volta a figurar no
mapa econômico português. O café timorense, de
excelente qualidade, retinha um papel suplementar junto à
economia tradicional, tornando-se o principal item da pauta de exportações
do Timor Português (80% do total).
Embora fossem conhecidas (ou parcialmente exploradas)
jazidas de cobre, de ouro, manganês, mármore azul -
e em particular as fabulosas reservas de gás e petróleo
- país permaneceu essencialmente agrícola, tendo o
milho e o arroz como principais cultivos. A pesca era (e ainda é)
explorada artesanalmente pelas populações costeiras.
A caça conquistava certa proeminência na sociedade
tradicional, incorporada à pauta alimentar ou fornecendo
“bens de prestígio” (peles e penas raras).
Devido ao isolamento, Timor Oriental, contrariamente
às demais colônias portuguesas, orientou seu comércio
mais na direção dos países da região
do que para a metrópole. Fato notório, Portugal investiu
grande parte das suas energias nas colônias africanas, notadamente
Angola e Moçambique. O nível de vida do Timor Português
permaneceu muito baixo, não diferindo, contudo do encontrado
na parte ocidental da ilha.
Este contexto explica a fraca articulação
da rede urbana. Pouco expressiva, era composta por vilarejos geralmente
dispostos ao longo da planície litorânea, servindo
de suporte ao domínio colonial. Díli, a capital, contava
em 1970 com apenas 18.000 habitantes. Os demais núcleos urbanos,
como Lospalos, Baucau, Viqueque, Same, Ainaro, Balibo, Manatuto,
Maubara e Liquiça, embora importantes na vida do país
eram ainda mais modestos.
Esta organização espacial, que durante
décadas caracterizou o espaço timorense, foi dilacerada
pela ocupação Indonésia e rearticulada de modo
a favorecer o novo ocupante, muito mais sequioso de explorar as
riquezas do país. Os traumas provocados pela decidida atitude
dos novos colonizadores em saquear o país constituem ainda
hoje um dos desafios a serem enfrentados pela RDTL.
Impactos da Invasão
Indonésia e a Independência
Conforme já registramos, a presença
portuguesa no Timor-Leste, introduziu mudanças e intercâmbios
que se sedimentaram lentamente ao longo de quase cinco séculos
de história. Nada disto pode obscurecer o fato evidente de
que a dominação portuguesa foi marcada, como é
próprio de qualquer situação colonial, pela
opressão e subserviência da colônia à
metrópole, e indiscutivelmente, sempre na direção
de favorecer economicamente os mandatários.
No entanto, em nada a administração
portuguesa poderia ser equiparada em termos da brutalidade e desumanidade
com as duas décadas e meia de ocupação da Indonésia.
Ao contrário dos portugueses, os indonésios promoveram
alterações radicais no país.
A grande meta dos indonésios era o petróleo.
Timor detém uma das maiores jazidas de petróleo e
de gás natural do mundo. Deste modo, muitos concordam com
a avaliação pela qual o controle destas jazidas seria
um dos principais motivos da invasão. O petróleo também
constituiu elemento de barganha para a Indonésia obter o
apoio da Austrália à anexação, com a
qual foi acertada a partilha do recurso através do infame
Tratado chamado Timor Gap (1989).
À espoliação econômica,
somaram-se os impactos decorrentes dos deslocamentos forçados
de população, colonização da ilha com
etnias estranhas ao território, destruição
do meio ambiente, repressão cultural e sumamente, o massacre
puro e simples dos mauberes, produzindo duras seqüelas, das
quais os timorenses até hoje se ressentem. Não por
acaso, Timor é a nação mais pobre da Ásia.
Nobel
para Timor
Dois
filhos da terra de Timor, José Ramos-Horta, considerado
o rosto da resistência maubere no exterior e o Bispo
D. Ximenes Belo, foram laureados com o Nobel da Paz de 1996.
Esta decisão foi considerada como das mais polêmicas
da história do Nobel da Paz. Tratou-se de um inequívoco
reconhecimento do direito do povo maubere a autodeterminação
nacional. |
A ocupação Indonésia alterou
drasticamente os dados básicos da demografia timorense. Uma
das conseqüências da invasão foi um acelerado
“processo de urbanização” resultante da
fuga em massa da população civil das áreas
de conflito ou pelos deslocamentos induzidos pelas tropas de ocupação.
Por isso mesmo ocorreu, em termos da realidade timorense, um “inchaço
urbano” em várias cidades do território.
Em 2003, refletindo este drástico processo
ocorrido em 25 anos, Díli, que nos anos 70 possuía
18.000 habitantes, alcançava 50.800 habitantes; Dae, 18.100;
Baucau, 15.000; Maliana, 13.000; Ermera, 12.600; Aubá 6.600
e Suai, 6.400 (World Gazeteen). Recorde-se que em Timor, tal como
em outros países crivados por conflitos, a expansão
urbana raramente é sinal de qualidade de vida, mas sim de
favelamento, más condições sanitárias,
falta de oportunidades, etc.
Porém, acima de tudo o povo maubere ressente-se
das perdas humanas. Acredita-se que durante a ocupação
(1975-1999) cerca de 200.000 pessoas, ou seja, 1/3 da população
total, tenha sido dizimada pelo exército da Indonésia.
Este genocídio reuniria, pois características “judaicas”
(pois como no caso dos judeus uma terça parte do grupo foi
morta), assim como “armênias” (face ao primitivismo
dos métodos de eliminação praticados pelo exército
indonésio).
Praticado com uma impiedosa determinação,
o massacre do povo maubere foi pouco noticiado no exterior. Uma
dos raros registros destes acontecimentos foi a cobertura realizada
pelo cineasta Max Stahl do massacre no cemitério de Santa
Cruz, ocorrido em 1991 em Díli, quando os indonésios
massacraram dezenas de civis.
A resistência contou com reduzida rede de
apoios no exterior, praticamente restrita a setores da Igreja Católica,
nações de língua portuguesa na África
e a opinião pública de Portugal. A dificuldade em
agremiar apoio foi tanto decorrente da luta desenvolver-se em um
país distante e pouco conhecido, quanto pelo apoio ocidental
à Indonésia, favorecendo a aceitação
de uma situação “de fato”.
Os
Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa
(PALOP): Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé
e Príncipe, Angola e Moçambique, destacaram-se
no apoio à luta do povo maubere. Registra o Relatório
de 1982 da Delegação Central da FRETILIN em
Missão de Serviço no Exterior do País:
“Na nossa luta pela libertação nacional,
os cinco Países irmãos de África que
conosco sofreram o colonialismo português tem sido a
nossa retaguarda segura. A sua experiência vitoriosa
tem sido uma fonte constante de ensinamentos; o seu prestígio
internacional tem contribuído para as nossas vitórias
diplomáticas. A sua experiência diplomática
tem sido posta a serviço do Povo Maubere. Em todas
as instâncias internacionais, o Timor Leste tem estado
na primeira linha de preocupações dos dirigentes
e dos quadros dos cinco Estados irmãos”. |
Seguramente, ante a uma situação
como esta, restavam aos mauberes duas alternativas: submeter-se
ou lutar. Escolheram lutar. Iniciada em 1975, a resistência
continuada dos mauberes forçou a Indonésia finalmente
a anunciar em 1999, a realização de um referendo,
propondo independência ou autonomia. 80% dos timorenses optaram
pela independência.
Onze anos após
o massacre de Santa Cruz, timorenses reclamam a constituição
de um tribunal internacional para julgar os responsáveis
por abusos cometidos no Timor-Leste durante a ocupação.
Ainda assim não havia terminado a “algema
de lágrimas” do povo maubere. A reação
do exército indonésio e das milícias ligadas
ao aparato de repressão originou novos massacres e destruição
generalizada do país. O resultado inequívoco do plebiscito,
acompanhado do clamor mundial contrário à Indonésia,
respaldou a entrada em cena da ONU no território.
A UNTAET (United Nations Transitional Administration
in East Timor), assumiu o exercício da administração
do território, conduzindo-o finalmente à independência
em 2002. E, a testa da nova República está um veterano
da luta pela independência: José Alexandre “Xanana”
Gusmão, a quem se requisita a totalidade do seu conhecimento
político para conduzir os primeiros passos da nova república.
Timor: Um Cadinho de Esperanças
Afastado para sempre o terror da dominação
colonial, vislumbra-se para o povo maubere todas as potencialidades
que se colocam pela liberdade. A RDTL, como depositária de
tantas lutas e esperanças não está sozinha.
A jovem república conta com o apoio solidário
do espaço lusófono e neste, com toda a rica experiência
do Brasil no domínio da tropicalidade. Conta com a simpatia
comprovada dos grupos democráticos, progressistas e de apoio
ao Terceiro Mundo. Conta com as Ongs populares. Conta com as proposições
alternativas e inovadoras, factíveis de transformar Timor
num novo espaço de experiências para o conjunto dos
seus povos.
Os timorenses contam enfim com um mundo inteiro,
inteiro demais para que seu jovem e simpático país
deixe de despontar no futuro como um exemplo na constelação
de países que povoam o nosso planeta!
O Timor Leste Hoje
A RDTL e a ilha de Timor
Nome Oficial:
República Democrática de
Timor-Leste
Superfície: 18.899
km²
Capital: Díli
Data de Formação do Estado:
28/11/1975. Reconhecimento internacional em 20/05/2002.
Línguas Oficiais:
A constituição reconhece o Português e
o Tétum como línguas oficiais de Timor-Leste.
O Tétum e as demais línguas nacionais serão
desenvolvidas e valorizadas pelo Estado. A RDTL autoriza a
utilização do Bahasa-indonésio e do inglês.
População absoluta:
794.298 habitantes (ONU, 2001)
População relativa:
42 hab/km²
Religião:
95% são católicos; práticas animistas
subsistem.
Hino Nacional: “Pátria”
Presidente:
José Alexandre “Xanana” Gusmão.
Premier:
Mari Alkatiri
Expectativa de Vida:
57 anos (ONU)
Alfabetizados:
56% (ONU)
Renda per capita:
US$ 478
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Indicações Bibliográficas
WALDMAN, Maurício, 1993, Em Timor-Leste,
A Luta Continua, artigo in Dossier “Véspera”,
número 247, de 07/03/1993, AGEN - Agência Ecumênica
de Notícias, São Paulo. Artigo disponibilizado na
seção de história do site www.mw.pro.br;
WALDMAN, Maurício et SERRANO, Carlos, 1997,
Brava Gente de Timor, Prefácio de Noam Chomsky, Editora Xamã,
São Paulo, SP.
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