Atentados aumentam incerteza quanto ao futuro de Timor Leste
International Herald Tribune
Donald Greenlees*
Em Dili, Timor Leste
Antes do presidente José Ramos-Horta ter sido baleado diante de sua casa na segunda-feira, o vencedor do Prêmio Nobel não estava muito preocupado com sua segurança pessoal em um país com uma história de explosões de violência repentinas e imprevisíveis.
Ele tinha o hábito de realizar caminhadas pela manhã à beira-mar perto de sua casa, no leste desta capital litorânea, para fins de saúde. Na manhã em que foi baleado, ele deixou sua casa acompanhado por um único guarda-costas, que estava armado apenas com uma pistola.
Em dezembro passado, em um sinal de sua confiança na capacidade das forças de segurança locais e em sua segurança pessoal, Ramos-Horta pediu que os policiais e soldados estrangeiros designados para a ONU e à força internacional de estabilização, não mais participassem de sua unidade de segurança, disseram altos funcionários da ONU na quarta-feira.
Dali em diante, sua segurança foi dividida por dois grupos. Dentro da área de sua casa, soldados da Força de Defesa do Timor Leste montavam guarda.
Sempre que saia de casa, ele era acompanhado por um esquadrão da Polícia Nacional do Timor Leste.
A aparente crença de Ramos-Horta de que ele não era um alvo provável de violência pode quase ter custado sua vida.
Os médicos disseram que ele teve sorte de sobreviver aos três ferimentos de bala que recebeu quando foi atacado por um grupo de homens liderados por um ex-policial militar renegado, Alfredo Reinado. Ramos-Horta, 58 anos, permanecia em estado grave em um hospital em Darwin, uma cidade do norte da Austrália, disseram os médicos na quarta-feira.
A ONU e a polícia timorense iniciaram uma investigação conjunta do atentado, assim como da emboscada realizada uma hora depois ao carro no qual viajava o primeiro-ministro Xanana Gusmão. Na quarta-feira, eles pediram mandados de prisão para quatro pessoas após entrevistarem 11 testemunhas do ataque contra Ramos-Horta. Reinado e um de seus homens foram baleados e mortos na troca de tiros com os seguranças no local.
Mas a ONU, que é responsável pela segurança no Timor Leste, assim como a força militar internacional e o governo timorense, estão sendo questionados sobre como os dois principais líderes do país ficaram expostos a ataque, por que um líder rebelde e sua gangue foram deixados circulando à vontade pelo interior do país por meses e o que motivou os atentados de segunda-feira.
O comandante da força de defesa do Timor Leste fez algumas destas perguntas na terça-feira, quando pediu pela instauração de um painel de investigação.
Mas analistas disseram na quarta-feira que os problemas poderiam estar na estratégia política que o governo estava usando contra os militares rebeldes, assim como na adequação das medidas de segurança.
Reinado conquistou status de herói popular em partes do Timor Leste, particularmente entre os jovens desempregados. Ele desertou em 2006 durante um confronto entre setores do exército e o ex-governo em torno de uma suposta discriminação contra soldados dos distritos do oeste do país.
Mari Alkatiri, o ex-primeiro-ministro, tentou resolver a disputa afastando centenas de soldados. A violência estourou e 37 pessoas foram mortas e dezenas de milhares tiveram que deixar seus lares. Reinado foi capturado e preso, mas posteriormente fugiu.
A violência em 2006 ajudou a derrubar o governo de Alkatiri. Mas o medo de que ela se repetisse influenciou a postura em relação à segurança desde então.
Ramos-Horta e Gusmão lideraram tentativas de uma solução pacífica da disputa com os homens de Reinado. No ano passado, ele pediu à ONU e à força militar internacional, em grande parte composta por soldados australianos, para que abandonasse à caça a Reinado na esperança de que ele pudesse se entregar por conta própria.
Ramos-Horta provavelmente era o mais próximo que Reinado tinha de um amigo no governo. O presidente chegou até mesmo a emitir uma carta de passe livre para o amotinado do exército, permitindo que circulasse livremente pelo interior e unisse seus simpatizantes.
O chefe da missão da ONU no Timor Leste, Atul Khare, disse em uma entrevista na quarta-feira que a relutância do governo em capturar Reinado à força resultou em um vácuo nas operações de segurança contra o pequeno grupo rebelde dele, que conta com cerca de duas dúzias de ex-soldados.
Khare disse que a polícia da ONU, que tinha autoridade para prender Reinado, não tinha capacidade de confrontar um oponente altamente armado no interior montanhoso e com vegetação densa do Timor Leste.
"Nós temos uma força policial que está lá para manter a lei e a ordem, não para ir atrás de rebeldes militarizados altamente armados", disse Khare. "Nós não temos um componente militar na ONU. Portanto, estava muito claro que perseguir estas pessoas estava muito além de nossa capacidade."
A força militar internacional liderada pela Austrália, composta por 1.000 soldados, não está sob autoridade da ONU. A força internacional de estabilização suspendeu as operações contra os rebeldes após uma ação noturna fracassada em março passado. A ação provocou protestos de simpatizantes de Reinado em Dili e levaram o governo a pedir à força internacional que encerrasse a perseguição armada, por temer provocar mais turbulência.
Alguns funcionários da ONU disseram que os esforços de Ramos-Horta que visavam um acordo negociado tornaram os atentados de segunda-feira incompreensíveis. Os funcionários disseram que era razoável Ramos-Horta confiar na sua segurança pessoal.
Há crescente especulação de que o atentado possa ter sido uma tentativa fracassada de seqüestro em vez de um assassinato planejado ou uma tentativa de golpe, como Gusmão descreveu inicialmente.
"A evidência não leva a planos de assassinato", disse um alto funcionário da ONU, que pediu anonimato por não estar autorizado a falar em nome da missão. "Toda as evidências apontam para um duplo seqüestro."
A visão se baseia em parte na própria avaliação de Gusmão do ataque. Ele destacou o fato de ninguém de sua comitiva ter sido morto na emboscada perto de sua casa e que grande parte dos disparos visavam os pneus dos veículos.
Khare disse ser cedo demais para tirar conclusões.
Independente disso, os analistas dizem que a negociação com Reinado era difícil.
Alan Dupont, um professor de estudos internacionais da Universidade de Sydney, que presta consultoria ao governo do Timor Leste, disse que Ramos-Horta não queria transformar Reinado em um mártir.
"Eu acho que o pensamento dele era absolutamente certo", disse Dupont. "Eu acho que o fato de Reinado não ser capaz de apaziguar a si mesmo era um reflexo de uma falha no seu caráter. A maioria das pessoas que o conheciam reconhecia que era difícil conversar racionalmente com ele."
Ainda assim, a morte de Reinado no tiroteio na casa de Ramos-Horta não deixa o Timor Leste mais seguro, disseram os analistas. Na quarta-feira, o Parlamento aprovou o pedido de Gusmão de ampliar o estado de emergência de 48 horas para mais 10 dias, segundo o qual um toque de recolher é imposto às 20 horas, reuniões públicas não autorizadas estão proibidas e é concedido à polícia poderes especiais adicionais.
A Austrália reforçou seu contingente militar de 780 soldados com 140 adicionais e 70 policiais. Os vizinhos próximos do Timor Leste, a Austrália e a Indonésia, têm preocupações justificáveis com a estabilidade do país de seis anos. A guerra civil no Timor Leste, após a descolonização abrupta de Portugal em 1975, fez com que uma enxurrada de refugiados atravessassem a fronteira com a Indonésia e deu aos indonésios um pretexto para uma invasão e 24 anos de ocupação brutal.
Hugh White, um ex-vice-secretário do Departamento de Defesa Australiano e professor de estudos estratégicos da Universidade Nacional Australiana, disse que a missão militar internacional cada vez mais parece não contar com estratégia de saída.
"Eu não acho que soldados adicionais farão muita diferença", ele disse. "No final, estes não são problemas que militares podem resolver, os problemas precisam ser resolvidos por negociação política, ou reconfiguração das estruturas políticas do Timor Leste para refletir as realidades sociais. E este processo parece estar acontecendo muito lentamente, se é que está."
* Tim Johnson, em Sydney, contribuiu com reportagem.
Tradução: George El Khouri Andolfato
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