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RAMOS HORTA, O HOMEM PASSOU A VIDA LEVANDO PORTAS NA CARA, MAS SABE ABRIR A SUA E O PRESIDENTE DO TIMOR

Jose Ramos Horta eh o novo presidente do Timor e toma posse dia 20 de maio, recebendo o cargo de Xanana Gusmão. O fato eh altamente simbólico e o coroamento de toda uma vida- de milhares de vidas—de luta.

Ramos Horta era o favorito nestas eleições, mas ninguém podia imaginar que ele ganhasse por mais de 70% dos votos. A contagem exata ainda não terminou, mas a diferença eh tão esmagadora e estrondosa que não há a menor duvida. Afinal ele venceu o representante da FRETILIN, Lu Olo, partido que esta há cinco anos no poder, quase absoluto, nessa jovem democracia.

Ramos Horta era ministro das Relações Exteriores, com pouco mais de 20 anos, uma cabeleira black-power e patas de elefante numa uma ex-colonia portuguesa que proclamou a independência no dia 28 de novembro de 1975, sob o comando da Fretilin de Nicolau Lobato. Os sinais da pressão Indonésia eram tão fortes e evidentes que Nicolau Lobato despachou Ramos Horta para negociar com a Indonésia, que garantiu que respeitaria a soberania do Timor Leste, a Austrália, Portugal e o mundo inteiro.

No dia 7 de dezembro os aviões e barcos indonésios começam a bombardear Dili. Milhares de pára-quedistas desceram do céu já atirando e fazendo um massacre. A ocupação ia durar 24 anos, durante os quais Ramos Horta nunca pode voltar ao pais. Ele só pisou novamente na terra timorense no final de 1999, quando as tropas internacionais, lideradas pelas Nações Unidas, libertaram o pais. Que estava inteiramente destruído pelo exercito indonésio- que tinha dado a palavra que ia garantir a segurança do plebiscito no qual o povo votou pela independência.

Parte dessa liberdade, finalmente conquistada e devida a Ramos Horta, que durante 24 anos bateu em todas as portas, percorreu os corredores das organizações internacionais, assediou as Nações Unidas de todas as maneiras possíveis e imagináveis. A ONU nunca reconheceu a invasão indonésia- mandou inclusive que se retirassem varias vezes. Mas nunca moveu uma palha. Ate 1999, quando uma longa e difícil negociação levou a que o governo de Jacarta, já não mais sob comando do ditador Suharto, aceitasse o plebiscito.

Jose Ramos Horta sabe o que e levar com portas na cara. Passou a vida ouvindo “não” e “ sinto muito”. Ele era aquele maluco chato que vinha novamente falar daquela ilha minúscula e pobre que fica...fica onde mesmo? Ele não desistia nunca. Em 1991 aconteceu um massacre no cemitério de Dili, onde a policia e o exercito indonésio mataram a sangue frio cerca de 500 jovens. Era apenas um, entre tantos massacres, que acabaram com mais um terço da população. A diferença e que havia outro chato teimoso, um jornalista free-lancer inglês, Max Stahl, que filmou tudo, com o risco da própria vida e conseguiu tirar as imagens do pais.

O mundo descobriu o que era esse tal de Timor Leste e o banho de sangue que estava acontecendo por lá. Mesmo assim, as portas continuaram batendo na cara de Ramos Horta, que teve tempo para estudar em varias universidades. Em 1996, junto o bispo Carlos Ximenes Belo, aquele homem teimoso, já maduro e experiente, mas ainda mais cabeça dura ganhou o Premio Nobel da Paz.

Começou uma nova era de esperança para o Timor, que culminou no plebiscito pela independência em 99, a entrada das tropas da ONU, a administração de Sergio Viera de Mello. E no dia 20 de maio de 2.002, diante das câmeras de televisão de todo o mundo, a bandeira do Timor subiu no mastro, ao som do hino composto por um jovem poeta, Borja da Costa, amigo de Ramos Horta, assassinado já no dia da invasão.

Ramos Horta passou 24 anos sem ver o pais em que nasceu e que lutava pela independência, falando com todo mundo, batendo em todas as portas. Às vezes as noticias levavam dois anos para sair do Timor, que em certos momentos foi mais fechado que a Coréia do Norte. Ele foi a voz de um pais minúsculo, que ninguém tinha ouvido falar nem queria saber. Isso fez dele um dos diplomatas mais experientes do mundo.

A teimosia de Ramos Horta, que não podia entrar no Timor e de um certo Xanana Gusmão, que comandou a resistência e não podia sair- a não ser para a prisão em Jacarta- acabaram vencendo. Xanana entrega a presidência a Ramos Horta, que há um ano e Primeiro Ministro de um pais em crise, a beira da guerra civil e começa, no minuto seguinte, a campanha eleitoral, da qual pretende sair primeiro-ministro.

A Fretilin, que garantiu que ia fazer um “tsunami eleitoral”, acabou afogada pelo próprio. O pais se levantou para votar em massa, senão em Ramos Horta, na alternativa que ele e Xanana representam ao governo da FRETILIN.

Ramos Horta e conhecido pelo humor corrosivo-ele não perde uma- e pela língua de cobra. Normal, para quem passou a vida engolindo sapos, cobras e lagartos. Mas todos os anos ele convida os estrangeiros desgarrados em Dili para passar o Reveillon na casa dele. Sempre vou lembrar dele dizendo “Durante 24 anos eu passei o Natal e o Ano Novo no exílio. Às vezes sob a neve e o frio, uma vez entre um indiano e um paquistanês brigando pelo Cashmir. Eu sei o que e estar longe de casa. Por isso convido vocês, que agora estão longe e eu finalmente voltei para casa”.

É esse homem que passou a vida levando portas na cara, mas abre as da sua casa a todos os estrangeiros, que dia 20 será presidente do Timor Leste. Que finalmente as pessoas sabem onde fica. Em grande parte graças a ele.

ROSELY FORGANES,
Especial para RÁDIO METODISTA ON LINE

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ROSELY FORGANES
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