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MULHERES DO TIMOR

Elas são miúdas, aparentam uma grande fragilidade, a grande maioria analfabeta, com expectativa de vida de apenas 55 anos trabalham da infância até a velhice, carregam feixes de lenha, laboram na roça, estão nos mercados vendendo o que conseguem produzir com o cultivo da terra.

Usam roupas simples, uma espécie de saia que amarram na cintura, geralmente apenas uma ou duas, a vida toda.
Ainda são vendidas para os maridos, que oferecem por elas o “barlack”, pagamento em búfalos, porcos e cabritos, que são pagos á família quando são retiradas de casa.
Como são elas que representam a grande mão de obra da família, quando casam o futuro marido terá que compensar essa perda com o pagamento.

Isso as coloca em uma posição de mercadoria, o que faz com que seja uma propriedade e tenham que se sujeitar a tudo, inclusive a violência doméstica, amplamente aceita pela comunidade.
É comum vermos mulheres muito idosas subindo as montanhas com enormes feixes de lenha na cabeça, seguidas pelas filhas e pelas netas.

Nos mercados vendem de tudo um pouco, geralmente produtos cultivados por elas, como arroz, mandioca, verduras, tomate etc. Muitos desses alimentos são cultivados sem o menor cuidado , até mesmo em locais contaminados pela falta de saneamento básico.

A falta de higiene pessoal também assusta, é comum ver as mulheres procurando piolhos nas cabeças umas das outras, em cima dos alimentos que irão vender, que por sinal ficam todos no chão, junto a cães, galos, baratas.

Sem nenhuma informação sobre planejamento familiar, doenças sexualmente transmissíveis, essas mulheres têm muitos filhos, muitos deles morrendo ainda bebes por doenças tipicamente de países subdesenvolvidos , como diarréia, desnutrição grave etc.

Vendo essas mulheres em sua maioria, submissas e sofridas não podemos imaginar que muitas delas lutaram na época da resistência á ocupação Indonésia, subindo as montanhas para se esconderem e também levarem alimentos a seus companheiros.
Não deixa de ser surpreendente conhecer D. Idalina, uma timorense que trabalha no Ministério da Educação de Timor.
De porte pequeno, um sorriso largo, essa mulher surpreende ao falar quatro idiomas, comandar as reuniões, dirigir seminários, puxar as orelhas dos diretores das escolas por achar que o trabalho não foi o que ela esperava.

Certo dia me convidou para ir com ela até o distrito de Aileu, onde ia fazer uma reunião para avaliação dos cursos pré –secundários . que aqui equivalem á sétima série. Com uma energia incrível chamou um por um dos diretores das escolas cobrando melhores resultados, depois que saímos da sala ela com lágrimas nos olhos, me contou sobre sua luta na resistência, de como precisou subir as montanhas para escapar da morte, dos estupros por parte dos militares indonésios, e ali permaneceu por 15 dias sem comida, apenas tomando á água que brotava nas montanhas.
Disse que viu muitos homens e mulheres serem mortos, mas que “era preciso saber perdoar e seguir em frente “.
Muitas vezes essas contradições entre as mulheres me deixou confusa.

Certo dia perguntei a Gina, uma timorense, que na época da invasão refugiou-se na Austrália e que agora de volta, era uma empresaria da noite, dirigia o Cool Spot, única boate do país, quem eram afinal as mulheres do Timor.

Ela me respondeu que eram todas as mulheres, aquelas analfabetas, que eram vendidas aos futuros maridos como mercadoria, mas também aquelas que estavam no Parlamento, lutando por melhores condições de vida para o povo timorense. Eram aquelas que apanhavam dos maridos, mas também foram e seriam de novo capazes de pegar na catana para lutar junto com eles contra o inimigo.

Eram mulheres sem nenhuma fonte de renda, mas também eram empresárias, donas de salões de beleza, barracas de peixes, como Fina, outra timorense , que enfrentou ser expulsa da comunidade mas pediu o divórcio ao marido, algo ainda condenado não só pela religião católica ( 97% dos timorenses são católicos praticantes), como por toda a sociedade.
Difícil entender tantas contradições.

Faz refletir,quem somos nós as mulheres de todo o mundo? Porque aceitamos que o poder ainda esteja nas mãos dos homens? E quem lhes dá tanto poder?

Um ano morando em Timor, mudou minha alma para sempre. Ao conviver de perto com personalidades internacionais, como o presidente Xanana Gusmão, Ramos Horta, prêmio Nobel da Paz, e ao mesmo tempo com o povo, ainda tão adormecido por tantas injustiças, compreendi que o mundo precisa rapidamente acordar desse entorpecimento.

Ver as mulheres ainda tão dominadas me fez perguntar qual será nosso papel no mundo. Já é hora de sermos mais ousadas, ir muito além da independência financeira, que é sem duvida muito importante, mas sinto conhecendo aquelas mulheres que precisamos avançar...e rápido.

É hora de nos conscientizarmos que precisamos mudar atitudes que só nos desvalorizam, seja na publicidade, na maneira como nos deixamos colocar como objeto de consumo fácil.
Não importa o quanto conquistamos, é preciso agora ir além.
É preciso pensarmos todos os dias o que podemos fazer para mudar uma mentalidade que ainda é patriarcal. É só ver, quantas mulheres ocupam cargos de presidentes, primeiro ministro, governadoras etc.?

Mas não basta chegarmos lá se chegamos pensando como a sociedade patriarcal pensa.

É preciso criarmos novas idéias, novas propostas, não podemos ser mulheres que pensam com a cabeça dos homens.
Creio que se essa sociedade mundial é assim, sem dúvida tem o apoio de nós mulheres.

MENINAS DO TIMOR

Elas são doces, estão sempre sorrindo, porém muitas vezes um destino cruel as espera. Como o de uma delas que aos 15 anos de idade já estava na prostituição.Começou aos 13 depois de ser abandonada pelo marido porque não conseguiu engravidar.
Com baixa escolaridade, não conseguiu nenhum emprego, os pais não a quiseram de volta, então viu na prostituição uma maneira de sustentar a si, aos pais e quatro irmãos, e assim conseguir de novo viver com sua família.

Ao conversar com essa menina, o que chama a atenção , além de sua extrema magreza, fato que ela atribui á falta de comida, pois as vezes se alimenta somente uma vez ao dia, é o seu olhar extremamente triste, perdido, sem esperança. Um olhar de quem já viveu muitas agruras para a pouca idade que tem, apesar de nunca ter vivido violência domestica.

Não sabe dizer o que seja prazer sexual pois está ali só para ‘ganhar dinheiro e servir ao homem’.

Só recentemente ficou conhecendo sobre o uso de preservativos, através do trabalho de algumas brasileiras em Timor, que também falaram sobre as doenças sexualmente transmissíveis, inclusive AIDS.

As prostitutas timorenses agora têm acesso aos preservativos através de algumas ONGS, que apóiam o programa de prevenção ás DST. Segundo MAX, de 15 anos, agora, se o homem se recusa a usar preservativo, ela não faz programa com ele.

Entre as ONGS que estão em Timor, algumas oferecema essas meninas e mulheres oficinas de carpintaria, alfaiataria, como alternativa de deixarem a prostituição. Porém a falta de verba, as vezes inviabiliza alguns desses projetos .

Segundo uma das organizadoras de uma dessas ONGS que não quis se identificar, “acabar com a prostituição é algo quase impossível, porém podemos lutar para que as mulheres se protejam com o uso de preservativos, tenham um lugar digno para morarem, informação e assistência médica.
Sabemos que a prostituição está diretamente ligada á miséria, embora esse não seja o único fator, mas se um país melhora a qualidade de vida da população, distribuindo melhor a renda, dando acesso á educação , com certeza,isso irá repercutir positivamente na diminuição da prostituição, evitando que as meninas do Timor, sejam exploradas, e consigam ter a vida de esperança que merecem”.

UM POUCO DA HISTÓRIA DE TIMOR-LESTE.

Timor-Leste, é a mais jovem nação do mundo. A ilha de Timor possui uma longa história. Foi referida como a “convergência cultural do oriente” devido à influencia de vários grupos étnicos que contribuiu para o desenvolvimento da ilha.
Os recursos naturais trouxeram os Portugueses em 1512. A sua influencia resultou na colonização da ilha., por mais de quatrocentos anos.

Durante a segunda guerra mundial, os Aliados (australianos e holandeses) envolveram-se numa dura guerra contra as forças japonesas em Timor. Dezenas de milhares de timorenses deram a vida lutando ao lado dos Aliados. Em 1945 a Administração Portuguesa foi restaurada em Timor-Leste. A 28 de Novembro de 1975, após uma breve guerra civil, a Republica de Timor-Leste foi proclamada. Apenas alguns dias depois, a 7 de Dezembro de 1975, a nova nação foi invadida pela Indonésia, que a ocupou durante 24 anos.

Em 20 de Maio de 2002 a independência de Timor-Leste foi restaurada e as Nações Unidas entregaram o poder ao primeiro Governo Constitucional de Timor-Leste.

Dra. Maíra de Freitas, Bioeticista

Maíra de Freitas


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