Uma catanada corta a cabeça das estrelas
A mulher velha costumava ir todos os dias ao céu buscar o fogo. Tinha um filho de mau gênio, que certa vez, por sua mãe se demorar mais do que habitualmente, corto a árvore por onde ela subira. E assim o céu até então assentado na árvore, desabou, soltou-se e foi ocupar o lugar que tem hoje, subindo no espaço.
Em seguida, e para evitar qualquer castigo, foi falar com tio Beiduro, contando-lhe a maldade que fizera à mãe, cortando-lhe a árvore pela qual ela deveria ter descido.
Indignado, o tio Beiduro convidou Berloi, Carloi que, Beicolicáteri e Beibercoli a fim de que todos fizessem guerra ao céu.
Por seu lado, Deus determinou às estrelas (que eram reis) dessem combate aos homens com todas as forças ao seu alcance. Forças que eram os animais da criação.
Vagas sucessivas de soldado atacaram de repente os guerreiros e fizeram-nos recuar.
Porém, os guerreiros contra-atacaram sem parar e o resultado era o mesmo - tiveram de recuar, em virtude do ataque cerrado dos animais.
Depois de vários anos de fracassos, os homens convenceram-se que era impossível vencer os animais pela força e recorreram à astúcia. Para dar combate aos lacraus, serpentes e outros animais venenosos, incendiaram os arbustos e árvores: para lutar contra as formigas, pintaram as árvores com uma fruta oleosa chamada cámi: contra as vespas e abelhas, deram-lhes mel envenenado e contra os restantes animais carnívoros a tiram-lhe a carne que deveriam comer.
E deste modo foram destruídos os animais inimigos do homem e os heróis Berloi, Carloique, Beicolicáteri e Beibercoli surgiram instantaneamente no céu e cortaram a cabeça às estrelas. A partir daí, quando vem a noite, o sangue jorra dos corpos decapitados que reluzem no firmamento.
Deus não se vingara do corte das cabeças, mas, voltando-se para os heróis, disse-lhes sabiamente: "Vós, que fostes mais fortes que as estrelas, levai para a Terra essas colunas e pedras redondas", apontando os objetos. E acrescentou: "Mais ainda vos quero dar como recompensa três laranjas, tantas quantas os meus filhos"
Beiduro comeu logo a sua pelo caminho, mas Berloi e Carloique guardaram.
Quando teve conhecimento da sorte dos seus antigos companheiros de luta, Beiduro interpelou Deus, pedindo-lhe para guardar também uma laranja, mas Deus entanto, para que Beiduro não ficasse tão amargo, ofereceu-lhe para guardar também uma laranja, mas Deus respondeu-lhe que só tinha a três que já dera, tantas quantos os seus filhos. No entanto, para que Beiduro não ficasse em desigualde, foram ter com Deus e o Ser Supremo decidiu recompensá-los outra vez, ensinando aos dois a ciência das segundas sementeiras.
De Mitos e Contos do Timor Português, de Correia de Campos
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