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Desenvolver o tétum - Algumas considerações avulsas sobre propostas ortográficas

Domingo, 24 Julho 2005


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Alguns jovens protestam contra a escolha do português como língua oficial, dizendo que a língua deles é o tétum, mas o que é espantoso é que dizem isto em indonésio. Houve inclusivamente durante algum tempo uma revista chamada Lian Maubere (voz maubere), que era totalmente escrita em língua indonésia. É caso para perguntar se não deveria chamar-se antes Suara Marhaen, não me consta que os mauberes se expressassem na língua dos invasores ou fossem particularmente entusiastas do seu uso.

Não vou debruçar-me neste texto sobre o português, que tem o seu lugar em complementaridade com o tétum, como língua co-oficial. Vou apenas analisar algumas ideias em relação ao tétum, e principalmente sobre algumas das coisas que se têm feito para o seu desenvolvimento.
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Alguns jovens protestam contra a escolha do português como língua oficial, dizendo que a língua deles é o tétum, mas o que é espantoso é que dizem isto em indonésio. Houve inclusivamente durante algum tempo uma revista chamada Lian Maubere (voz maubere), que era totalmente escrita em língua indonésia. É caso para perguntar se não deveria chamar-se antes Suara Marhaen, não me consta que os mauberes se expressassem na língua dos invasores ou fossem particularmente entusiastas do seu uso. Não vou debruçar-me neste texto sobre o português, que tem o seu lugar em complementaridade com o tétum, como língua co-oficial.

Vou apenas analisar algumas ideias em relação ao tétum, e principalmente sobre algumas das coisas que se têm feito para o seu desenvolvimento. Continuo a pensar que é motivo de estranheza o facto de haver pouco envolvimento da juventude e de organizações de base na promoção e desenvolvimento do tétum. Os linguistas fizeram a parte deles, prepararam uma ortografia cientificamente válida e fundamentada que foi oficializada pelo Governo.

Agora seria encorajador ver algum esforço dos jovens nacionalistas para não escreverem na língua da ocupação e para deixarem de escrever tétum com uma ortografia completamente macarrónica que revela não haver da parte de quem a usa qualquer respeito pela língua, que consideram “desprovida de regras” e “que cada um escreve como lhe der na real gana”. Isto contrasta profundamente com o que acontece noutras sociedades em que a questão da promoção de uma língua nacional se coloca como prioridade, nas quais se vê um grande envolvimento de jovens e de organizações culturais, associações locais, etc...

Um caso que conheço razoavelmente bem é o da Galiza, onde há mais de duas décadas a questão da ortografia oficial do galego é assunto debatido fervorosamente na sociedade, e onde cada proposta ortográfica conta com os seus acérrimos defensores e com as suas publicações próprias. Lá, como aqui, opõem-se opções políticas diferentes. As propostas de ortografia são elaboradas por linguistas, mas traduzem uma determinada política linguística que influencia as escolhas feitas. Na Galiza o debate principal é entre os que defendem uma ortografia própria, bastante influenciada pela do espanhol (ou castelhano), que são muitas vezes chamados “isolacionistas” pelos seus adversários, e os que preferem re-aproximar a ortografia galega da do português, que chamam a si mesmos “reintegracionistas” e a quem os partidários do outro lado chamam “lusistas”.

Estes reintegracionistas fazem as suas opções fundamentalmente por partilharem uma postura de rejeição do imperialismo cultural espanhol, a aproximação da sua língua materna ao português garante-lhes maior distância em relação à língua que vêem como ameaça directa, o castelhano. Ao mesmo tempo essa proximidade com o idioma que é irmão gémeo do galego abre as portas para um universo de 200 milhões de falantes da mesma língua.

Aqui em Timor também há diferentes opções políticas a condicionar as opções linguísticas. A primeira linha de demarcação é imediata e põe de um lado os que permitem na sua proposta de padronização a ocorrência de palavras do indonésio chegadas a Timor com a ocupação, bem como a utilização de barbarismos surgidos no tempo da “ditadura linguística anglo-saxónica” da UNTAET (falo de termos como *agrimentu em vez de akordu, *komitementu em vez de empeñu ou kompromisu, etc…). Alguns materiais escritos, por exemplo, pela Dra Catharina van Klinken incluem-se neste grupo.

O Instituto Nacional de Linguística, por outro lado, defende que não havendo um vocábulo necessário a opção mais acessível, imediatamente disponível e que está mais de acordo com a política linguística do país é ir buscá-la ao português, e adaptar-lhe apenas a ortografia. É opção do INL, como foi da Igreja timorense quando no início dos anos 80 traduziu para tétum o missal para que o tétum pudesse ser aprovado como língua oficial da Igreja em TL, que não se deve usar no tétum literário nenhuns termos do indonésio. O INL, como a Igreja, vê a língua portuguesa como o parceiro histórico na evolução do tétum moderno, e a língua indonésia como aquela contra a qual há que cerrar fileiras por ser um factor corrosivo da especificidade cultural timorense.

O Dicionário do Dr Luís Costa partilha com os materiais sobre a ortografia oficial publicados pelo INL a posição de princípio de rejeição de empréstimos lexicais indonésios. Tem muito mais coisas em comum, como o facto de propor uma ortografia etimológica para as palavras autóctones, que inclui por exemplo a marcação da oclusiva glotal usada no tétum téric e em variedades do tétum-praça, mas não em Díli (ou seja, quer o INL quer Luís Costa escrevem ha’u, du’ut, to’os-na’in...). A crítica que o público faz mais frequentemente ao Dicionário do Luís Costa é completamente despropositada: “Esse dicionário tem muitas palavras que não conhecemos, que são próprias do tétum téric!” Ora, uma das funções mais úteis que um dicionário tem é ensinar-nos muitos vocábulos que não conhecemos.

O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa tem grande quantidade de termos que muitos portugueses ainda não conhecem, o Kamus Besar Bahasa Indonesia (Edisi Ketiga) do Departemen Pendidikan Nasional e da Balai Pustaka tem imensas palavras que qualquer indonésio não conhece. Isso não é um defeito, é uma qualidade. O tétum téric é uma fonte permanente de palavras para o tétum literário moderno. E de resto esse processo começou há muito. Quem é que usava em Díli há trinta anos palavras como maksalak, kuanan, knaar, falur (para quem não soubesse, o Dicionário do Luís Costa permite ver por exemplo que o nome de guerra do Comandante Falur Rate Laek significa “Pombo sem Sepultura”)? O Dicionário de Luís Costa é um documento importantíssimo. O INL reconheceu isto quando, logo que saiu este Dicionário, incluiu todas as palavras provenientes do tétum téric que nele aparecem no prontuário ortográfico preparado e publicado pelo INL.

O INL defende que os dialectos rurais do tétum (de áreas como Soibada, Viqueque, Alas, Balibó, Suai, etc... ) são uma das fontes importantes de léxico para o tétum moderno e literário que se está actualmente a cultivar, e o Dicionário de Luís Costa é um tesouro lexical inestimável a que recorrem todas as pessoas que procuram com seriedade cultivar e desenvolver o tétum.

A diferença fundamental do Dicionário de Luís Costa em relação aos materiais do INL diz respeito aos empréstimos lexicais do português. O INL define como padrão para a ortografia dos empréstimos lexicais (do português, ou - até ao séc XIX - do malaio) no tétum moderno a pronúncia acrolectal, o que significa a forma como é pronunciada a palavra pelas elites, principalmente urbanas, que são também fluentes em português.

O Luís Costa prefere incluir no seu dicionário a forma como essas palavras são pronunciadas pelos habitantes não-escolarizados das montanhas falantes de tétum téric e não fluentes em português. Por exemplo, onde a ortografia oficial, do INL, escreve: ”palásiu”, “polísia”, “pregu”, “xave”, “xapeu”, “saugati” o Dicionário do Luís Costa tem apenas “*palasi”, “*polisi”, “*preku”, “*sabi”, “*sapeo”, “*saukati”. Seria como se os responsáveis dos dicionários de português se sentirem obrigados a começar a incluir como entrada lexical a palavra “tchuba” porque é a pronúncia dos habitantes do planalto mirandês no Nordeste de Portugal que falam um português mais conservador.

Uma limitação grave é a falta de muitas palavras originárias da língua portuguesa que entraram para o tétum. Tente-se usar o Dicionário de Luís Costa para ler a tradução que o próprio Luís Costa fez para tétum da brochura da Fundação Mário Soares “A nossa vitória é apenas uma questão de tempo – Memória da Resistência do Povo de Timor- Leste”. Por razões de espaço olhemos apenas para o título na tradução do Luís Costa: “Ami hein de’it tenpu uit atu manán – Hanoin Povu Timor Lorosa’e nia Rezistensi”. Procuremos no Dicionário do Luís as palavras “*tenpu”, “povu”, “*rezistensi”. Não encontramos! O problema maior do Dicionário de Luís Costa é que o autor é um purista, ainda que tenha vindo a moderar as suas posições em relação a esta questão dos empréstimos lexicais, como a tradução que referi demonstra até à saciedade. Vejamos o que ele diz como comentário à entrada lexical “e”: “Os não falantes nativos de tétum usam sobretudo «ka»”. Os “não falantes nativos de tétum” a que se refere Luís Costa incluem muitos milhares de falantes de tétum-praça como língua materna (e não apenas em Díli), assim como a imensa maioria da população timorense que fala tétum-praça como língua segunda e língua franca.

Para quem está familiarizado com a literatura portuguesa podemos traçar um paralelo. Um leitor “mouro” nado e criado em Lisboa não tem muito do vocabulário necessário para ler por exemplo “Terras do Demo” ou “O Malhadinhas” de Aquilino Ribeiro, por haver muitos termos próprios do mundo rural das montanhas da Beira Interior, precisa de um bom dicionário. O Dicionário de Luís Costa responde a essa necessidade de compreender o léxico vernáculo do mundo rural, que o falante citadino não conhece. No entanto, como a tradução que Luís Costa fez da tal brochura mostra, o Dicionário dele não dá conta de um texto vindo do mundo urbano da tecnologia e das ideias modernas. Os materiais do INL já permitem responder a essa necessidade de modernização.

Para os que clamam contra o abastardamento da língua por causa da introdução de empréstimos lexicais, perguntamos, a palavra “biologia” apareceu primeiro em português, ou foi cunhada numa outra língua qualquer e depois trazida para o português? A língua indonésia, que escolhe outros parceiros, padronizou “biologi”. O INL padronizou para o tétum “biolojia”. É uma escolha coerente, com o português como parceiro permanente. Pensamos que o Dr. Luís Costa é um dos nomes chave no esforço de promoção do tétum, mas cremos que ele precisa de rever algumas das suas posições. Talvez numa nova edição do Dicionário dele, quem sabe?

Por tudo isto, consideramos que o Governo tomou a opção correcta ao oficializar a ortografia do INL, aquela que do ponto de vista científico é mais coerente e do ponto de vista político é mais fiel à política linguística definida pela Assembleia Constituinte e pelos líderes de Timor-Leste.

* Texto de João Paulo T. Esperança, publicado na versão em português no jornal timorense (Díli) Semanário, Ano 0, nº 0032, 14 de Agosto de 2004

* Ambas as versões (port. e tétum) foram incluídas na colectânea: O que é a lusofonia/ Saida maka luzofonia / J. P. Esperança et al . – Díli: Instituto Camões, 2005 . – VIII+163 p. [colectânea bilingue – português e tétum – de textos vários]

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