| Pra começo de conversa...
Adoro aquele momento constrangedor que precede a primeira palavra. O breve momento em que o idioma da conversa ainda não foi definido. Um instante de dúvida, um primeiro round de estudo sobre o outro.
Vivo isso a todo momento. Quando vou falar com um timorense, tento começar no tétum. Formalmente, temos aula dessa língua uma vez por semana, mas os amigos nos ensinam algo novo todo dia.
Falar no idioma local demonstra respeito à cultura, algo muito valorizado por aqui. O problema é que meus conhecimentos ainda não me permitem conversar mais de um minuto sem pedir para trocar de língua. A opção pode ser o português, o inglês ou a mímica.
Os casos mais graves estão ligados ao comércio. Nessa área atuam imigrantes que sabem ainda menos do que eu. Comunicam-se com a população em malaio, a língua mais importante do sudeste asiático. Comigo, viram a cara e desistem de vender.
Para falar com os "internacionais", o padrão é acionar logo o inglês. Mas vale a pena arriscar um português de vez em quando. Há tantos portugueses quanto australianos por aqui - é a nostalgia do tempo em que o mar era português, além de salgado. E há muita gente contratada justamente porque fala nossa língua. Inclusive um egípcio que aprendeu, adivinhem, com uma namorada brasileira.
O Brasil está bem representado. "Tropa?", pergunta o taxista mais atento, quando reconhece o sotaque. "Não, professor", respondemos. O contingente militar brasileiro é hoje o maior da missão da ONU no Timor. E o mais querido. Um dos poucos que nunca arrumou confusão com o povo. Além dos soldados, trazemos evangélicos (sim, eles já têm uma rádio), uma dúzia de consultores da Capes, o mesmo tanto de freiras e de contratados pela ONU, e mais um punhado de malucos que se perderam por aí.
E agora, nós. É fácil saber quem somos. Em geral, as pessoas que trabalham nesses lugares não tem essa cara de criança que nós ainda estampamos.
Francisco Figueiredo de Souza, jornalista

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