| O tebe-bola, ou parábola do homem comum
Eles não chamam de ludopédio, mas dizem tebe-bola, que também é um nome simpático. Ao lado de nossa acomodação tem um campo, todo esburacado. O dia da descoberta foi fantástico.
Fiquei em casa com dor de barriga. No final da tarde, ouvi gritos e barulho de bola. Meio capenga, resolvi dar a volta no muro para conferir. Sentei atrás do gol, em um coqueiro caído, e fiquei assistindo, minha barriga reclamando. Logo vieram me convidar. "Malai joga!". Agradeci, disse que voltava no dia seguinte. E fui embora lembrando da minha infância em Pindamonhangaba, do campo do vizinho, dos pobres meninos do bairro que jogavam comigo - hoje alguns deles estão presos por tráfico.
Voltei no dia seguinte. E no outro, e no outro. Agora, jogo pelo menos uma vez por semana. Como em Pinda, o jogo rola até que a bola suma na escuridão da noite. Como lá, jogam nove contra nove em um campo para no máximo sete. Como lá, o único que tem posição é o goleiro (baliza, para eles). Em suma, o futebol é aquela bagunça democrática que ele nunca deveria ter deixado de ser.
A diferença é que um time joga com camisa, e o outro com camisa pela metade. Muitos têm uma vergonha incrível em ficar sem camisa. Até hoje, ainda sofro quando vou caminhar na beira-mar e pego aquele bronzeado de pescoço. Para entrar no mar (que é de um azul incrivelmente translúcido, por sinal), temos que ir longe do centro da cidade.
Mas os tempos estão mudando; ontem fui a uma festa de aniversário e vi três raparigas de mini-saia e um moço vestido de rapper.
Francisco Figueiredo de Souza, jornalista

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