| Festa à moda timorense
Quando voltar ao Brasil, vou dar uma festa à moda timorense. Pelo que vi, funciona assim: todo mundo chega e procura uma cadeira para sentar-se. As cadeiras ficam dispostas em fila, ao redor do salão ou do quintal no qual a festa é realizada. No centro, a mesa com os pratos. A comida é sempre farta, e orgulhosamente ornamentada: leitoas inteiras, frangos inteiros, grandes tigelas de arroz. Tudo preparado pela família anfitriã. Em um canto, a banda e o mestre de cerimônias. A música rola alta mesmo nesse momento em que ninguém pode dançar.
Depois de fazer umas tantas piadas, cantar umas músicas e certificar-se que todos os convidados ilustres já chegaram, o mestre de cerimônias convida as pessoas para o jantar ou almoço. Os convidados formam filas dos dois lados da mesa. Voluntários previamente determinados distribuem um prato e uma colher para cada um dos que chega à mesa.
As pessoas servem-se do mesmo modo que em um restaurante por quilo. No fim da mesa, ficam as bebidas. Cada um pega uma - por isso, os convidados tomam no máximo uma cerveja por festa - e volta a sentar-se em seu lugar para comer.
Terminada a refeição, os pratos e travessas são recolhidos. Se o espaço é pequeno, as mesas são retiradas para darem lugar a uma pista de dança. Em geral, a primeira dança é exclusiva para os homenageados (os recém-casados, ou o aniversariante). Da segunda para frente, rola um bailão dois pra lá, um pra cá. Mas com uma diferença fundamental: ao final de cada música, todos voltam a sentar-se. No começo da seguinte, os homens levantam-se e convidam a mulher com quem querem dançar. Ela decide se vai ou não, mas a iniciativa é sempre masculina. Para não ficar falada, convém a moça alternar os parceiros de dança e nunca dançar todas as músicas.
Como entrega o controle da festa ao mestre de cerimônias, que em geral é contratado para a função, a família anfitriã pode relaxar e desfrutar da festa. O bailão segue das nove da noite até o amanhecer - e é um orgulho dizer que o povo é resistente até para dançar.
Observação necessária: essa descrição pseudo-antropológica baseia-se nas duas festas às quais estive presente, um aniversário e um casamento. Talvez sejam impressões preconceituosas de um estrangeiro ainda mal adaptado à cultura local. Os possíveis juízos de valor não foram intencionais.
Francisco Figueiredo de Souza, jornalista

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