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Cachorros e homens ladram na noite

Aurélio Guterrez não gosta de comer cachorro, e não gosta que outros comam. Diz que, em geral, os animais que vão para a panela não são criados com esse fim pelos donos. Mas o costume existe em Timor. Questionados se já experimentaram caninos, muitos mauberes sorriem, e respondem com ironia.

Hoje professor, Aurélio era "menino-moço" no tempo da invasão Indonésia. Lembra-se de ter chorado muito na noite do desembarque, em meados de 1975. Não por causa da situação política, que mal compreendia, mas por ter perdido seu animal de estimação, morto a tiros pelo exército de Suharto naquele dia.
- Os cães ladram à noite.

Os indonésios irritavam-se com isso, talvez porque dificultasse a patrulha noturna, talvez porque não tivessem o costume de encarar o cão como animal de estimação. Aurélio irritou-se de volta, e transformou a raiva em luta política, como tantos timorenses. Uma luta longa, sofrida, mas catolicamente vitoriosa.

É comum atribuir-se tudo o que há de problemático em Timor ao tempo da Indonésia. Não sei o quanto há de verdade nisso, mas já havia ouvido que esse costume de comer caninos também nasceu com a invasão.

A situação traumatizou o professor. Ele fica enfurecido com minha pergunta, e continua criticando o improvável hábito alimentar. Diz que às vezes os cães vão para o prato quando após serem atropelados, quando não têm mais chance de sobreviver. O problema que nem sempre o atropelamento é casual... Outras vezes, são roubados por quem só acha um jeito de matar a fome matando cachorros para comer. Apesar da raiva, Aurélio compreende esses compatriotas. Não é nada fácil ficar sem comida.

Aurélio nunca passou fome. De origem nobre, viveu longe de sua terra durante os anos mais difíceis para os timorenses. Mas colaborava com a resistência, que dependia dos contatos externos realizados pelos estudantes, como ele. Talvez o privilégio de origem tenha lhe dado o porte mais alto que o da média do país. Atlético, ele mantém a forma com corridas pela beira-mar, todas as manhãs. Tem entre 30 e 40 anos, os gestos rápidos como os de um adolescente. O sorriso, como o de tantos timorenses, reflete um branco lunar.
Enquanto conta a história, o professor dirige em alta velocidade pelas ruas de Becora, leste de Díli, capital do país. Não é dele o jipe coreano, alto e branco por fora, coberto de couro empoeirado por dentro. "Governu", diz o adesivo na porta. O carro foi uma doação das Nações Unidas. Questiono por que um professor da Universidade Nacional podia contar com um carro daqueles.

- Escreveram errado. O jipe é do Estado, e não do governo.

E, ademais, ele não andava o tempo todo com o veículo. Naqueles dias, especificamente, preparava o plano nacional anti-desastres, encomendado pelo secretário de Estado. Ironicamente, estávamos a quatro semanas do tsunami.

Aurélio dirige rápido demais para os padrões timorenses. No banco de trás, penso se devo estimular sua concentração ao volante, ou continuar a interessante conversa que o distraía. Ao lado do professor está Priscila, minha companheira de trabalho. Ao meu lado, Nerissa, a outra integrante do trio, pessoa mais próxima de mim durante os meses em Timor. Priscila segura no colo, sobre a calça jeans, o aparelho de som que minutos antes rodava "Eu só quero um Xodó" para os soldados do quartel de Metinaro, o ponto de partida de nossa carona com Aurélio. Na visão do professor, Priscila veste-se de maneira desleixada. Ela está de chinelos. Ele, com um belo sapato de couro. Calça social, camisa para dentro, cabelos grossos penteados para trás.

- Fui motorista quando estudei na Nova Zelândia.

O professor saiu de casa bastante novo. Ainda em Díli, estudara em um colégio católico, tradicional e contestador do regime. Logo depois, mudou-se para Jacarta, capital da Indonésia, onde cursou Economia. Morava com um casal de javaneses idosos, e trabalhava para sustentar as despesas. Quatro anos depois, mudou-se para a Nova Zelândia. Dirigiu, jogou futebol amador. Casou, fez mestrado e doutorado. Sua esposa continua em Chistchurch, grávida de oito meses.

Ironicamente ou não, 24 anos depois da noite em que o cão de Aurélio foi morto e um ano antes de sua volta a Díli, os cães e porcos comeram os homens. Na cidade destruída pelas milícias, contam que havia cadáveres por todos os lados, e ninguém para recolhê-los. Soltos pelas ruas, os animais se retroalimentavam.

O jipe vira à esquerda, passa pelo City Café e encosta.
- Vamos almoçar. Convido vocês.
- Mas temos comida em casa. O senhor não quer...
- Não, andem logo. Quero mostrar-vos esse lugar.

Como muitos timorenses, o professor usa palavras e expressões pouco comuns no português brasileiro. Mas compreendemos bem, e lá vamos nós atrás do frenético professor de Economia do Desenvolvimento. Durante o almoço - um saboroso Goreng indonésio, em um ambiente que lembrava o dos restaurantes chineses de Pinheiros - ele nos conta seus planos futuros.

De volta ao Timor há poucos anos, ele vive provisoriamente em um hotel, contando com a ajuda de sua tia. Visita a esposa duas vezes ao ano. Também nascida em Timor, ela foi modelo na Nova Zelândia. Aurélio pretende, em breve, trazê-la de volta. Antes, porém, precisa construir uma casa. Muito diferente daquela onde nasceu, no interior do país, em Venilale.

Visitamos essa casa duas semanas depois da carona. No mesmo jipe do Governu, o professor nos conduziu de Baucau até o vilarejo. Um campo de futebol, uma venda e um belo colégio, pintado de vermelho e amarelo: "Escola do Reino de Venilale". Tratava-se, portanto, de um antigo domínio de um liurai, uma espécie de rei local.
- Meu pai foi o Liurai daqui.
- Então um dia você será?
- Acho que não!

Ele ri. A casa fica distante do núcleo. Andamos mais três quilômetros, é provável que a língua já seja diferente (Timor tem algo como 30 idiomas, afora dialetos). O jipe pára. Uma fina chuva começa a cair - somente a terceira que sentimos, em três meses de Timor. Aurélio procura alguém familiar. Aproximo-me da casa, abandonada. Plantas tomam a varanda frontal, impedindo a entrada pela escada em estilo português que dava acesso à sala. Dou a volta. Encontro uma janela livre, salto para dentro. O pé direito é alto, as paredes são rústicas e grossas. Comparada às outras casas do interior que conheço, esta é digna de um liurai.

Não há corredor: os quartos são emendados, transitórios, construídos em tempos diferentes. O fogão à lenha está inteiro, mas é o único objeto nessa condição. Curioso, volto para perto do jipe, onde estão os outros.
- Foi destruída?
- Não, abandonaram antes.

Aurélio não encontra seus familiares. Regressamos a Baucau, felizes com o passeio. Aparentemente, ele também. Talvez as lembranças tenham-no entristecido por dentro, mas, se for esse o caso, ele disfarça. Talvez, diante de tantos problemas, ele pouco se importe. A chuva já não caía, mas fora suficiente para fazer viver a grama. Como Timor, as plantas crescidas nas ruínas da casa ganhavam uma nova chance de permanecerem vivas.

Francisco Figueiredo de Souza, jornalista

Francisco Figueiredo de Souza


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