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Aerograma - José Gomes

As crianças de Timor, em 1959…

Há dias, ao tentar arrumar uma série de papelada encaixotada num dos recantos lá de casa (o “meu cesto de recordações” – como, carinhosamente lhe chamo e que peço encarnecidamente que ali ninguém mexa... a não ser eu!!!...) fui descobrir esta joia que a Milú trouxe dos recantos da Terra do Sol Nascente, um texto impresso num aerograma (não tenho o nome do autor), utilizado por alunos da Escola Primária de Díli, Timor, destinado a estabelecer uma espécie de intercâmbio com os alunos das Escolas Primárias do Continente.

Achei o texto uma ternura... e é por isso que não resisto a transcrevê-lo[1].


“TIMOR

Eis Timor, a ilha verde e vermelha, das tardes suaves, das auroras deslumbrantes e dos crepúsculos em que o céu arde em estranhos tons de púrpura. Aqui, onde Portugal acaba, é a terra cantada por Camões e amada por Osório de Castro e Wenceslau de Morais.
Em Timor, ergue-se, procurando o infinito, o monte mais alto do mundo português. Na sua vegetação exuberante, esvoaçam os galos do mato, graciosos e rubros, e as catatuas, donzelinhas de branco, toucado amarelo e olhos de rubi; os lagartos cantam e voam e, nas nascentes, pululam os camarões. O milho colhe-se duas vezes por ano e os arrozais são um oceano verde, ondulado pela brisa de veludo. Terra de paisagens estranhas, de grutas onde a natureza esculpiu figuras de curioso recorte, as acácias cobrem os montes e vales de um manto amarelo e as orquídeas crescem, pintadas de oiro, sobre troncos de madeiras ricas.
É aqui que existe o melhor café do Mundo.
Nesta ilha de primavera eterna, os Portugueses, em quatro séculos, realizaram obra de extraordinária valia.
Aqui governaram Afonso de Castro, Alfredo Maia, Celestino da Silva e Filomeno da Câmara. Estes fraguedos ouviram os gritos de guerra do lendário Arbiro, carregando à frente das suas hordas.
Em Timor, bateu-se o futuro Condestável do Rovuma e Gago Coutinho aprendeu a fazer chama com dois pedaços de madeira. No canal do Jaco, um modesto comandante de posto intimou o «Euden» a abandonar as águas portuguesas.
Nestas terras lealíssimas morreram, bravamente, D. Aleixo, Jeremias de Luca, Cipriano Gonçalves, Assa Mau e tantos outros.
Vinde a Timor, onde o verde da nossa bandeira nos recorda a sua vegetação opulenta, e o vermelho, o sangue derramado por portugueses de todas as raças para que esta terra seja sempre portuguesa.
A tão grande distância da Metrópole, quando a bandeira se ergue, beijada pelo mais esplendoroso sol de Portugal, as suas cores parecem-nos ainda mais nossas.”
[Autor desconhecido]


Não sei o que aconteceu a esta mensagem.
Será que teve algum eco em Portugal? Foi escrita em 1959 altura em que Timor não passava de mais uma Província Ultramarina, perdida nos confins do mundo, para onde eram enviados aqueles que não eram bem queridos em Portugal!...
Não sei o que aconteceu...
...mas, palavra, gostaria de saber!!!


José Gomes

[1] - Foi este texto que me deu a ideia de “Um Postal para Timor”.

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