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Tokés e demais bicharada


Toké - Imagem cedida por António A Serra


Não querem lá ver?!!!

Vou ter que refazer este artigo porque chegou um toqué giríssimo, estilo "era um biquini pequenino, às bolinhas amarelas...". Maria Amado, tem lá paciência mas o teu Toké de estimação (se ainda não tem nome, posso chamar-lhe pintinhas??? É que tenho uma amiga ruiva, cheia de pintas e eu chamo-lhe pinta-ruiva!!!)....

Pois...

A culpa não é só minha...

Nunca tive o prazer de conhecer estes simpáticos bichinhos que dão pelo nome de tokés — (Toké - lagarto especial do país [deve referir-se a Timor], que dá uns sons que parecem dizer "tó ké", os quaes repete por vezes, dizendo alguns indigenas que o numero d'essas vezes indica as horas que são; o que é certo é que esse numero é muito variavel, succedendo que emquanto de uma vez repete o som por duas ou tres vezes, de outras chega a sete e mais.) - in Diccionario Teto-Português, autor Raphael das Dores; Lisboa, Imprensa Nacional, em 1907.

Mais recentemente, o dicionário de Luís Costa, Maio 2000, define Toké ou Toko como “um lagarto ou sardão (Platydactilus gottutus) cuja voz emita esta palavra”.

Não satisfeito com isto fui procurar a fauna de Timor e encontrei um bichinho classificado nos Répteis com o simpático nome de «Toké» e com o pomposo nome científico de Gecko verticillatus... mas nem uma fotografia, uma gravura ou sequer uma leve descrição para matar a minha curiosidade!...

Não há direito!!!

Mas para confundir ainda mais este rapaz surgiu, também, o «lagarto-voador», com o chavão científico Draco timorensis... – fotografia, gravura, descrição... ficaram no tinteiro!!!

E para eu ficar mais feliz e com olhos de sardão, descobri esta linda citação “Newton enviou de Timor para Lisboa 3 remessas de Gecko verticillatus em 1896...”...

Entrei, então, em curto circuito!!!! Foi por isso que lancei um apelo a todos os Crocodilos pedindo fotografias ou gravuras dos Tokés ou até das chamadas Osgas....

É que estou curioso e gostaria de os conhecer!

Olha, olha , acaba de chegar um todo pintalgadinho da silva....

Toké de estimação - Imagem cedida por Maria Amado

Sabem que a Rosely se assustou com esta cena digna de um filme prehistórico de Spielberg?!!!...


Toké abocanhando uma barata - Foto cedida por Carmen Melo

Mas como é que nasceu este súbito interesse por Tokés, Osgas e outros bichinhos afins?

Em sequência de uma crónica que escrevi (Recordações de Timor) referi-me a essa espécie de lagarto que dá pelo nome de Tokés. Perguntaram-me se não seria antes um toki... (não encontrei qualquer referência a este último senhor bicho!!!). Confrontei a Milú que confirmou os dados, mas não se lembrava dos Tokis. Perguntei aos seus tios, à madrinha e velhos conhecidos, que se lembravam do nome dos Tokés e veio à ideia velhas histórias que passo a transcrever. Se a minha imaginação ultrapassar a realidade, não reparem, além de feitio é pura coincidência...

O Pai da Milú foi expedicionário em Timor por altura da 2ª grande guerra e acabou por ficar nessa bela ilha como funcionário administrativo.

Lembra-se, ainda, nas suas andanças com o pai, de ver os referidos Tokés tanto nas paredes das casas como nos tectos. Naqueles tempos os telhados eram de palapa e cumpriam muitíssimo bem a sua função..

Lembra-se que em sua casa havia destes lagartos e que até havia uma certa cumplicidade... eles (tokés) comiam os mosquitos e outros insectos; em contrapartida partilhavam a habitação e o calor humano...

Ahh!!! Antes que me esqueça! Conta a tradição que ouvir cantar "tó ké" 7 vezes seguidas, era sinal de felicidade.

Diz a Milú que a casa onde habitavam, estilo colonial, era composta por uma varanda a toda a volta, onde normalmente se vivia, ou seja faziam-se as refeições, relaxava-se e convivia-se com os amigos.

Era coberta a palapa [1] e pelos tectos e paredes lá andavam os simpáticos bichinhos qual animal de estimação, muitas vezes acompanhados por osgas e lagartixas..

Um belo dia, numa reunião de amigos lá em casa, a mãe, vestida como era hábito na época, com grandes decotes à frente e atrás, sentiu que um toké caiu do tecto e teve uma pontaria tal que se lhe enfiou pelas costas abaixo... Aos saltos e aos gritos, não só pelo incómodo mas também pela repugnância que causava o bicho a passear nas suas costas, pediu a uma amiga que o tirasse...

Pois! Mulheres...

Esta amiga, entrou em pânico e cheia de medo, pediu ao marido:

- "Chiquinho, Chiquinho, tira o bicho à Dona L...".

Outra cena passou-se com uma tia, numa casa de palapa no interior de Timor. Acordou em altos berros, bem na calada da noite, ao sentir um toké que caiu do tecto bem em cima da tia da Milú que havia chegado há pouco tempo da Metrópole... Segundo reza a tradição andaram durante horas, de vassoura em punho, à procura do dito bicho...

Consta que não o encontraram! Pudera, era lagarto e não burro!!!...

Por último, lembra-se do toké mais esquisito que há história. Este resolveu, durante muito tempo, fazer a "sua casa" de verão na parte de trás do frigorífico lá de casa... e ai de quem o tentasse tirar da "sua habitação"!...

Em vez de "to ké", som natural e amigável, ouvia-se um bufar que mais parecia um gato!!!


Tokés passeando nas traves... - Imagem cedida por António A Serra

Aquele abraço,

José Gomes

IMAGINA todo o mundo a viver a Vida em paz…

[1] A folha da palapeira, devidamente colocada, dava não só frescura à casa como ainda a isolava da humidade e da chuva.

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