| Díli adopta reciclagem
socialmente imposta
Helder Sanches
Vi, recentemente, um vídeo gravado há
poucas semanas em Timor-Leste, mais precisamente numa lixeira dos
arredores de Díli. Não queria acreditar nas imagens
que via! Crianças, homens, mulheres e idosos atropelavam-se
para recolherem do lixo que estava a ser despejado de um camião
das Nações Unidas (UN) os melhores pedaços
de restos de comida. As imagens são impossíveis de
descrever.
Disse-me quem gravou e me mostrou o vídeo
que era uma circunstancia rotineira e que a quantidade de pessoas
envolvidas naquela reciclagem socialmente imposta aumentava a cada
dia que passava!
Dos aspectos que mais me chocaram foi a frieza
com que os elementos da UN encaravam a situação, continuando
a despejar o lixo, com uma indiferença doentia, como quem
já está conformado com aquela realidade. Alguns desses
elementos eram portugueses...
O cenário foi-me descrito como se de uma
luta animalesca e selvagem pela sobrevivência se tratasse.
As aves chegam cedo, pela madrugada, aproveitando a primeira luz
fraca, convidativa. Logo depois, chegam os cães que as afugentam
com ladrares e correrias, em matilha . Finalmente, as crianças,
homens, mulheres e idosos, conquistam o território, desejosos
de um precioso prémio comestível.
É arrepiante. É revoltante. Pela
minha parte, não chega o que tem sido feito por Portugal.
É preciso perguntar, quiçá demagogicamente,
se o dinheiro que se vai gastar no envio de homens para o Iraque,
nos estádios de futebol, em Casas da Música e em passes-sociais
para os deputados não seria mais bem empregue em ajudar a
criar estruturas económicas em Timor-Leste.
Recordo, vagamente, as palavras do Sr. Presidente
da República ao abordar os atrasos na construção
de alguns estádios de futebol: “Temos um compromisso
com a UEFA e vamos honrá-lo”. E o compromisso com o
povo de Timor-Leste, Sr. Presidente? Em que lugar se encontra ele
na sua lista de compromissos de honra? Espero para ver. Deixem-me
ir buscar um banquinho para me sentar...
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