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Coisinhas de Timor 13

BOM DIA CROCOAMIGOS!

Acabo de vir do “Convento das Carmelitas Contemplativas” de Hera
(subdistrito de Díli). Calma amigos, não entrei para vida religiosa (e mesmo se quisesse, no caso dessa congregação, teria que fazer algumas mudanças...). Aproveitei 3 dias de folga e fui descansar no silêncio e na simplicidade desse lugar sagrado. Quase toda a comida vem das próprias plantações: mamão, banana, jambo, manga (que infelizmente ainda não estavam maduras) batata doce, mandioca, pão de batata, bolacha caseira, etc. Os alimentos têm realmente um sabor sublime, pois recebem uma energia especial das mãos que os cultivam. Sons, só os da natureza circundante, do cântico das freiras, e o das poucas mas prazerosas conversas com os funcionários.

Não menos prazeroso e sublime foi o percurso de ida e volta. Fui por um caminho deslumbrante e voltei por outro extremamente mágico.
Um total de 180 minutos de puro êxtase partilhado com uma fiel escudeira, minha bicicleta.

Porém na volta, quando já havíamos percorrido quase dois terços do percurso, eis que havia um prego no meio do caminho, no meio do caminho havia um prego...

ANTES DAS “COISINHAS DE TIMOR”, VAMOS A ALGUMAS NOTÍCIAS DE TIMOR:

««ENERGIA: os cortes continuam constantes embora o fornecimento de combustível da indonésia parece ter sido normalizado. Ontem um dos cortes durou quase quatro horas (pelo menos aqui em Taibessi): haja gerador, haja combustível e, principalmente, dinheiro para comprá-lo.

««TV-TL: a tv estatal deixou de transmitir por alguns dias. Alegam problemas técnicos. Muitos (refiro-me ao cidadãos timorenses) dizem que é manobra do primeiro ministro para evitar que o povo acompanhe mais de perto as questões polêmicas do governo: lei de imigração aprovada na íntegra sem respeitar o veto do Xanana que pedia revisão atentando para alguns tópicos que seriam inconstitucionais; adoção da legislação indonésia acompanhada de duras críticas de alguns deputados a Portugal. Estranho também é o fato de muitos cortes de energia serem “coincidentemente” na hora do noticiário da TVTL.

Boatos ou não, coincidências ou não, o fato que a maioria da população continua insatisfeita com o governo.

««DATAS: estamos nos aproximando de alguns datas importantes e já correm boatos de grandes manifestações, principalmente em 12 de novembro e 04 de dezembro (de cujos processos para apurar responsabilidades, pouco se fala).

««COTIDIANO: as nossas ruas têm agora mais charme e simpatia. Começou o novo ano letivo e o colorido dos uniformes em dueto com os sempre lindos sorrisos pueris e juvenis enchem de arte e vida essa tela metropolitana chamada Díli.

««VIAGENS: tenho tido a oportunidade de viajar um pouco pelo país. Timor é mesmo lindo pessoal! Vocês precisam conhecer: planícies, montanhas sagradas (já acampamos na maior delas de 2900m – “tatamailau”), praias paradisíacas com corais e peixes multicoloridos, povo animicamente apaixonante. Já dormi ao relento na praia duas vezes, apenas acalentado pela suave melodia do mar e pelos braços da mãe lua. É com certeza o país mais lindo em termos de diversidade geográfica e cultural (são 33 línguas diferentes num pequeno espaço de 90km por 500km repleto de tradições animistas).

Enfim, tenho aprendido muito com meus irmãos timorenses. Vocês acreditam que por 3 ou 4 vezes, quando conversava com timorenses, perguntaram se eu também era timorense da região de Los Palos (uma região onde as pessoas são mais ou menos da minha cor). Fico muito feliz, toda vez que me confundem com timorense!

««AGORA SIM VAMOS ÀS “COISINHAS DE TIMOR - 13

TÍTULO: TEMPO É UMA MERA CONVENÇÃO!

Díli, janeiro de 2003, terça-feira. Estou em Bebonuk. e acabo de entrar num táxi. São 15h45min e tenho um compromisso às 16h em Taibessi. O percurso leva em média 25minutos de carro, respeitando-se a velocidade máxima de 45km/h. Porém os taxistas têm o hábito de trafegar, ou melhor, tartarugar a 25km/h. A essa velocidade chegarei muito atrasado. Ciente disso, explico ao motorista (gastando todo o meu sofrível tétum de 3 semanas) a situação e peço-lhe encarecidamente que vá um pouco mais rápido.

O distinto condutor abre um enorme e simpático sorriso e responde que sim. Fico feliz por ele, o motorista, ter supostamente entendido o meu pedido.

A karreta (carro) arranca. Cem metros percorridos e o ponteiro do
velocímetro oscilando entre 20 e 25. Duzentos metros... 20 a 25.

Trezentos metros... nem é preciso comentar. Respiro fundo e sorrio levemente para dentro... tempo é uma mera convenção. Me dou conta de que estou diante de uma outra cultura, de outros costumes, de outros paradigmas, inclusive o paradigma de mensuração do tempo. Começo a elucubrar... pra que pressa num país que mal acabou de nascer; pra que pressa numa nação em que 50% dos trabalhadores não têm emprego; pra que pressa numa terra em que muitas pessoas ainda não conseguiram começar a reconstruir suas casas consumidas pela vingança e pelo fogo de 1999; pra que pressa num país cujo compromisso maior não são as reuniões (como a minha às 16h), mas sim garantir o mínimo de comida para seus filhos (que são muitos, aliás); pra que pressa numa cidade castigada pelo calor causticante que, naturalmente, atribui ao dia-a-dia uma lentidão ainda maior... pressa pra quê? A 20 ou 40km/h, para o motorista não deve ser o mais importante, o importante é chegar ao destino final.

Lembro-me do meu amigo Levi, o qual me disse, assim que cheguei, que a palavra chave aqui era “paciência”. Recordo-me também de um padre gaúcho que – quando comentava sobre as grandes festas e cerimônias em alguns rincões de Moçambique – dizia que só era considerado atraso quando alguém chegava a partir do segundo dia, já que esses eventos duravam alguns.

Portanto, lá as pessoas mediam o tempo por dias, as horas não importavam. E eu aqui em Timor preocupado com apenas alguns minutos... que estupidez a minha! Da próxima vez, eu que saia mais cedo de casa. Bem, o fato é que vou chegar bem atrasado... paciência!

Relaxo e abandono os ponteiros que registram as horas e a velocidade. Olho pela janela e deixo-me acarinhar pelas tonalidades hipnoticamente verdes do mar de Díli e também pela suave brisa que heroicamente se esforça para soprar nesse calor quase desértico.

Vejo pescadores; mais do que isso... vejo que seus compromissos são agendados não pelo relógio, mas sim pelas marés.

Quando passamos perto do Parlamento, eis que meu caro motorista avista dois amigos na calçada. Seria uma grande falta de respeito não parar pra trocar dois dedinhos de prosa, não é mesmo! Mais uma vez sorrio para dentro.

Percebo que estou diante de uma “aula prática dos costumes locais”.

Restam-me duas opções: usar a razão ocidental e cabular essa aula,
zangando-me com o motorista e tomando outro táxi; ou participar da aula com a alma e aprender com cada atitude do meu mestre.

Obviamente escolho a segunda. Após o breve colóquio com os amigos, eis que esses entram no carro... afinal amigo que é amigo não pode negar uma carona! “Essa aula está ficando cada vez mais interessante” - penso comigo. A odisséia continua o seu destino. Qual destino, não sei. O meu destino? O destino dos amigos do meu professor? Seriam nossos destinos coincidentes? Quantos amigos meu distinto professor ainda encontraria pelas calçadas de Díli? Quantas caronas, e para onde? Chegaria eu ao meu destino pelo menos no mesmo dia?

Pairavam dúvidas e aprendizado no ar.

A carona durou apenas três quadras. Na descida e antes da despedida, mais um dedinho de prosa (o mindinho talvez) com os amigos. Depois disso, a aula continuou, digamos, normal... 20 a 25km/h.

Finalmente chego ao “meu” destino. Agradeço e pago meu mestre pela aula... um dólar apenas. Não resisto à tentação de olhar para o relógio. Estou atrasado exatamente... bem, isso não é relevante. O que importa é que tive uma significativa “lição de vida” e espero ter sido um bom aluno!

Guto Santana

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