|
LUSOFONIA AGONIA?

(FOTO TIRADA NO 4º COLÓQUIO EM OUTUBRO 2005)
(Na abertura do 2º Colóquio Internacional da Lusofonia da SLP (Sociedade da Língua
Portuguesa) em Outubro de 2003 em Bragança tentei alertar contra os fundamentalistas de
várias cores que visam preservar uma visão estática da língua portuguesa que se opõem a
quaisquer inovações da língua e às alterações que a novo dicionário da Academia de Ciências
veio introduzir. Por outro lado começam a existir movimentos activos que podem levar a que oPortuguês na sua variante Brasileira se emancipe.
Creio ser apenas uma questão de tempo(dada a ausência duma política da Língua por parte de Portugal) para que o Brasileiro seja declarado língua e nessa altura o Português (europeu) estará condenado pois os 10 milhões de habitantes mais uns tantos milhares na Galiza (variante Galega) não serão suficientes para fazer frente a uma língua autónoma como a Brasileira com cerca de 200 milhões de falantes.
Das ex-colónias portuguesas não se poderá contar com muito apoio dado o exíguo número de
pessoas (para além das elites políticas dominantes) que domina a língua de Camões.
Assim, a verificar-se (e creio ser só uma questão de tempo) a emancipação da variante
brasileira a língua portuguesa europeia estará condenada a uma morte lenta associada a uma
rápida diminuição e envelhecimento da população de Portugal que aponta para uns meros 8,7
milhões em 2050 contra os actuais 10,7 milhões.
Quanto a Bragança encontrei aqui formas quase medievais da língua que perduraram a todos os níveis da população independentemente da sua classe socioeconómica e da sua educação, mas de que constato uma quase vergonha dos seus falantes por acharem que não falam português correcto, o que aliado à desertificação humana desta região tende igualmente a acabar. Tenho um filho de 7 anos que em pouco mais de ano e meio adaptou para seu uso um vernáculo totalmente distinto do que ouve em casa e que faz rir os seus primos do Porto... a própria construção gramatical é diferente.
Creio que como cidadão australiano há mais de 25 anos a lutar em prol da preservação da
língua e cultura portuguesa de meus antepassados, ninguém está mais interessado na sua
preservação. Creio que ela poderá ser feita numa evolução dinâmica aceitando os desafios e
alterações que a própria língua inevitavelmente irá sofrer.
De 2002 em diante os Colóquios têm-se realizado em Bragança, ainda na base da
descentralização, mas sobretudo devido à insularidade em termos culturais. Portugal, como
toda a gente sabe, é um país macrocéfalo; existe Lisboa e o resto continua a ser paisagem.
É muito raro os locais do interior, os locais mais remotos como Bragança, poderem ter acesso
a debates de considerável importância sobre o futuro da língua. Estes colóquios são a única
coisa que se tem feito concreta e regularmente em Portugal nos últimos cinco anos sobre esta
temática. Os Colóquios são independentes de quaisquer forças políticas ou institucionais e
asseguram essa sua “independência” através das inscrições dos participantes contando com o
apoio, ao nível logístico, da autarquia que fez a sua aposta cultural na divulgação e realização
deste importante evento anual.
“A intenção destes colóquios é diferente da maior parte das coisas que se têm praticado.
Ao contrário de outros colóquios e conferências tradicionais em que as pessoas se reúnem
e no final há uma acta cheia de boas intenções com as conclusões, estes colóquios visam
aproveitar a experiência profissional e pessoal de cada um dentro da sua especialidade e
dos temas que estão a ser debatidos, para que os restantes oradores possam depois partir
para o terreno, para os seus locais de trabalho e utilizarem instrumentos que já deram
resultados noutras comunidades."
Estes Colóquios podem ser marginais em relação às grandes directrizes aprovadas nos
gabinetes de Lisboa, mas na prática têm servido para inúmeras pessoas aplicarem as
experiências doutros colegas à realidade do seu quotidiano de trabalho com resultados
surpreendentes e bem acelerados como se acabou de ver na edição de 2005.
Agora, volvidos mais três anos quando nos aproximamos do 5º Colóquio Anual da
Lusofonia iremos debater o genocídio da língua portuguesa na Galiza, estropiada e
castrapada por uma Academia que decidiu reinventar a língua, como se ela tivesse nascido
do nada ou pior como se ela derivasse do castelhano.
Subordinada ao título Do Reino da Galiza até aos nossos dias: a língua portuguesa na
Galiza, o Colóquio da Lusofonia 2006 irá ter como tema central o problema da Língua
Portuguesa na Galiza: como se impõe uma língua oficial artificial, que não é falada pela
maior parte dos habitantes, análise da situação, desenvolvimentos nos últimos anos,
projectos e perspectivas presentes e futuras.
Tema 1:
1. Como a sociolinguística tem mostrado nas últimas décadas as línguas não mudam em bloco.
Uma língua, um dialecto, mesmo um idiolecto não são homogéneos, mas comportam
variedades internas que são parte integrante do sistema. Se o objecto da linguística histórica é
a mudança linguística, o objecto da história da língua é uma língua em particular, na sua
existência definida temporal e espacialmente.
2. Conhecer a situação na Galiza desde as origens, e a sua evolução. Conhecer as principais
linhas de rumo da literatura galega no período pós-Franco, em defesa da cultura, dos valores
solidários e dos direitos históricos da Galiza.
3. O conflito entre reintegracionistas, normativos e os outros: um genocídio da língua?
4. Compreender o papel histórico desempenhado pelos intelectuais e políticos galegos. Extrair
conclusões sobre os conflitos e respectivos desenlaces da História.
5. Permitir o debate aberto sobre a língua na Galiza; tanto sobre a sua forma gráfica, como
sobre o conceito de língua (língua isolada ou parte activa do tronco galaico-português), e a sua
difícil situação actual.
6. Delinear linhas de acção para a propagação e preservação da Língua Portuguesa na Galiza
Os Portugueses quase sempre alheados destes problemas e sempre temerosos de ofenderem
a vizinha Espanha esquecem-se de que a vizinha e irmã é a Galiza e não a Espanha da velha
Castela e da unificação à força. Foi nos primeiros dias do ano na RTP num telejornal à hora do
almoço que pela primeira vez ouvimos falar os Galegos sobre os seus problemas com a nossa
(e deles) língua.
Qual é a nossa responsabilidade como professores, jornalistas, estudiosos da
língua em relação a esta guerra silenciosa que aqui ao lado consome tantos e a nós nos deixa
indiferentes. Trata-se dum povo que fala a língua da Lusofonia de que tantos falam mas de que tão poucos cuidam. Ou será que a Lusofonia continua a ser entendida por muitos como umaextensão do ex-Império? Esses velhos do Restelo, amantes dum passado que se espera
nunca mais volte têm de despertar para a realidade e confrontar-se com ela por mais
desagradável que lhes seja.
Como D. Ximenes Belo, Prémio Nobel da Paz, alertava no 4º Colóquio para “a resistência
dos jovens em aprender o português”, uma vez que consideram “ a língua indonésia
de mais fácil aprendizagem”. O Nobel da Paz lembrava, ainda, que “é preciso que o
Estado português apoie mais Timor Loro Sae, uma vez que não existem praticamente
infra-estruturas, nem bibliotecas, que possam formar os timorenses”. “Durante 450
anos de ocupação portuguesa não se fez nada, e ainda se torturam timorenses para
que aprendessem o português, por isso, hoje, a resistência à aprendizagem da
língua, por parte dos jovens, tem tendência a crescer”, explicou D. Ximenes Belo.
Para o antigo bispo de Dili "não chega" haver professores portugueses em Timor-Leste:"é
preciso formar timorenses, é preciso criar bibliotecas, infra-estruturas e, sobretudo, manter
alguma rádio, televisão e diários para que se faça entrar a língua espontaneamente na mente
das pessoas". D. Ximenes Belo recordou depois ao auditório que os timorenses continuaram a
baptizar os filhos com nomes portugueses e a rezar e cantar em português, mesmo durante a
proibição, entre 1975 e 1999, mas disse que a ocupação indonésia deixou marcas."Vocês
querem que os timorenses falem a vossa língua, mas os timorenses apanharam bofetadas,
foram torturados por falarem a vossa língua", disse.
Os desafios que se põem neste Colóquio são grandes. A divisão na Galiza é enorme entre
lusistas, reintegracionistas e todos os outros. Será que vão conseguir finalmente criar uma
plataforma abrangente que permita o entendimento entre algumas das várias correntes de
pensamento? Ou irão continuar na sua guerrilha contra tudo e todos que não estejam de
acordo com as teorias que professam. A importância deste debate é enorme como atrás se
inferiu. Ou o Galego é Português mesmo que seja uma variante, como o Brasileiro ou então o
que é? Se for uma língua própria teremos todos de nos cuidar, porque o Brasil com mais razão
e há mais tempo pode igualmente fazê-lo.
Cremos que esse não será o caminho. O Português, ao contrário do que muitos pensam não
tem pernas para andar sozinho com uma população entre 9 e 15 milhões se incluirmos os
expatriados, e tem de contar sobretudo com o número de falantes no Brasil, na Galiza, em
Angola, Moçambique, Timor, Cabo Verde, S. Tomé, Guiné-Bissau e por toda a parte onde haja comunidades de lusofalantes. Os Acordos Ortográficos, se alguma vez virem a luz do dia do que pessoalmente duvido, podem ser um instrumento, mas é o povo quem mais ordena e o
povo não segue os Acordos.
O que é preciso é que o povo se entenda, que os portugueses
não se armem em detentores únicos da língua ou como temos ouvido como aqueles que falam
o Português puro. Os tempos não estão para purezas nem para puritanismos, porque o
português que se fala em Portugal varia da Bragança dos Colóquios aos Açores onde vivo
actualmente. Todos eles falam Português e todos eles falam diferente de Norte a Sul, de leste
a oeste. São lusofalantes todos aqueles que têm o Português como língua seja ela língua-mãe,
língua de trabalho ou língua de estudo, vivam eles no Brasil, em Portugal nos PALOP’s, na
Galiza, em Macau ou em qualquer outro lugar. Sejam eles nativos, naturais, nacionais ou não
de qualquer um dos países lusófonos. A uniformização linguística, a redução a um mesmo
denominador comum é castrante e limitadora. Ela inibe e retrai a natural expansão da língua e
do conceito mais lato e abrangente da Lusofonia que professamos. O espaço dos Colóquios
Anuais da Lusofonia é um espaço privilegiado de dialogo, de aprendizagem, de intercambio e
partilha de ideias, opiniões, projectos por mais díspares ou antagónicos que possam aparentar.
É esta a Lusofonia que defendo pois creio que é a única que permitirá que a Língua
Portuguesa sobreviva nos próximos duzentos anos sem se fragmentar em pequenos e novos
idiomas e variantes que, isoladamente pouco ou nenhum relevo terão. Se aceitarmos todas as
variantes de Português sem as discriminarmos ou menosprezarmos, o Português poderá ser
com o Inglês uma língua universal colorida por milhentas matizes da Austrália aos Estados
Unidos, às Bermudas e à Índia. O Inglês para ser língua universal não precisou de Acordos
Ortográficos mas continuou unido com todas as suas variantes.
Toda e qualquer imposição arrisca-se a perder no plebiscito do povo e nem as rígidas
imposições da Academia Francesa evitaram a evolução da língua francesa sempre aberta a
inúmeras influências....
Recentemente o emérito linguista anglófono Professor David Crystal escrevia “O Português
parece-me que tem um futuro forte, positivo e promissor garantido à partida pela sua população base de mais de 200 milhões, e pela vasta variedade que abrange desde a formalidade parlamentar até às origens de base do samba. Ao mesmo tempo, os falantes de português têm de reconhecer que a sua língua está sujeita a mudanças – tal como todas as outras – e não se devem opor impensadamente a este processo. Banir palavras de empréstimo doutras línguas pode ser prejudicial para o desenvolvimento da língua, dado que a isola de movimentações etendências internacionais. O inglês, por exemplo, tem empréstimos de 350 línguas – incluindoPortuguês – e o resultado foi ter-se tornado numa língua imensamente rica e de sucesso. A língua portuguesa tem a capacidade e força para assimilar palavras de inglês e de outras línguas mantendo a sua identidade distinta. Espero também que o desenvolvimento da língua portuguesa seja parte dum atributo multilingue para os países onde é falada para que as línguas indígenas sejam também faladas e respeitadas. O que é grave no Brasil dado o nível
perigoso e crítico de muitas das línguas nativas.” [1]
Posteriormente manifestando-me preocupado pelo desaparecimento de línguas aborígenes e
espantado pelo desenvolvimento de outras contactei aquele distinto linguista. Sabendo como o
inglês destronou línguas em pleno solo do Reino Unido, tal como ele afirma para os casos do
Cúmbrico, Norn e Manx, perguntei-lhe qual o destino da língua portuguesa, sabendo que o
nível de ensino e o seu registo eram cada vez mais baixos, dizimados por falantes ignorantes,
escribas, jornalistas e políticos. A sua resposta1 pode-nos apontar um de muitos caminhos.
Diz David Crystal: “As palavras de empréstimo mudam, de facto, o carácter duma língua, mas
como tal não são a causa da sua deterioração. A melhor evidência disto, é sem dúvida a
própria língua inglesa que pediu de empréstimo mais palavras do que qualquer outra, e veja-se
o que aconteceu ao Inglês. De facto, cerca de 80% do vocabulário inglês não tem origem
Anglo-Saxónica, mas sim das línguas Românicas e Clássicas incluindo o Português. É até
irónico que alguns dos anglicismos que os Franceses tentam banir actualmente derivem de
Latim e de Francês na sua origem.
Temos de ver o que se passa quando uma palavra nova penetra numa língua. A realidade é
que linguisticamente estamos muito mais ricos tendo três palavras que permitem todas as
variedades de estilo que não seriam possíveis doutro modo. Assim, as palavras de empréstimo
enriquecem a expressão. Até hoje nenhuma tentativa de impedir a penetração de palavras de
empréstimo teve resultados positivos. As línguas não podem ser controladas. Nenhuma
Academia impediu a mudança das línguas.
Isto é diferente da situação das línguas em vias de extinção como, por exemplo, debati no meu
livro Language Death. Se as línguas adoptam palavras de empréstimo isto demonstra que elas
estão vivas para uma mudança social e a tentar manter o ritmo. Trata-se dum sinal saudável
1 em Março 2002 desde que as palavras de empréstimo suplementem e não substituam as palavras locais equivalentes. O que é deveras preocupante é quando uma língua dominante começa a ocupar as funções duma língua menos dominante, por exemplo, quando o Inglês substitui o Português como língua de ensino nas instituições de ensino terciário. É aqui que a legislação pode ajudar e introduzir medidas de protecção. Existe de facto uma necessidade de haver uma POLÍTICA DA LÍNGUA, em especial num mundo como o nosso em mudança constante e tão rápida, e essa política tem de lidar com os assuntos base, que têm muito a ver com as funções do multilinguismo.
Recordo ainda que não é só o inglês a substituir outras línguas. No Brasil, centenas de línguas
foram deslocadas pelo Português, e todas as principais línguas: Espanhol, Chinês, Russo, Árabe afectaram as línguas minoritárias de igual modo.”
Por partilhar esta opinião do professor David Crystal espero que no final do próximo Coloquio encontro possam os participantes e oradores voltar para os seus locais de residência e de trabalho com soluções e propostas viáveis para aceitar a Lusofonia e todas as suas
diversidades culturais sem exclusão das línguas minoritárias que com a nossa podem coabitar.
Quanto ao futuro da língua portuguesa no mundo não hesito em reiterar que “de momento
está salvaguardado através do seu enriquecimento pelas línguas autóctones e pelos
crioulos, que têm o português como língua de partida. Enquanto a maior parte das línguas
tende a desaparecer visto que não há influências novas, o português revela nalguns locais
do mundo uma vitalidade fora do normal. A miscigenação com os crioulos e com os
idiomas locais vai permitir o desenvolvimento desses crioulos e a preservação do
português”. Por isso “não devemos ter medo do futuro do português no mundo porque ele
vai continuar a ser falado, e a crescer nos restantes países”
©2006
Dr Chrys Chrystello
UTS (Universidade de Tecnologia de Sydney, Austrália)
Assessor de Literatura, Australia Council

|