| Porque é que há guerras tribais em Timor
PARTE IIª - “ENTERRADOS VIVOS” filme sobre a saga de Timor 1
As primeiras imagens dão um retrato a preto e branco sobre a Lisboa dos anos 50, com percursos pela baixa citadina e curtas incursões às cenas terceiro-mundistas do Bairro Alto, contrastando com o ar imponente do Marechal Carmona, sob o olhar aquilo e atento de Salazar.
Entremeado de discursos narrativos de jornalistas, políticos e sob a potente dialéctica de Noam Chomski que perdura ao longo de sessenta minutos, passa-se então para o mapa da Europa com o Império Colonial sobreposto, dando a noção da vastidão do Império.
Cenas de uma África Negra dominada pelos colonos brancos sucedem-se até ao dealbar das lutas nacionalistas, cenas do mato, soldados portugueses feridos e mortos sendo evacuados, os discursos patéticos do velho regime, acompanhados de discursos condenadores na ONU e noutros órgãos, da velha política colonial portuguesa.
Uma passagem suave a uma ilha aparentemente desabitada, praticamente virgem, de uma beleza inenarrável, dá-nos conta que existia algures, perdida no tempo e no espaço, uma parcela colonial esquecida. Sim, era de facto, Timor Leste então denominado Timor Português. A pompa da guarda nativa ao Palácio do Governo, o ritmo lento das ruas vazias, centradas no núcleo comercial de Dili, dois quarteirões apenas de ruas asfaltadas. Danças tradicionais e a rica cor das ‘lipas’ 2 perdendo-se no branco e preto das imagens do ecrã.
Cena do Mercado Municipal de Dili, da célebre luta de galos, e a película passa a colorida. Um aparte curioso de um filme de divulgação turística dedicado ao mercado australiano, incitando as pessoas a visitar um dos paraísos perdidos do Pacífico, descrevendo Timor como uma terra onde há sempre alguém que fala inglês, onde as mulheres são de uma extrema beleza e o povo afável. Uma paródia superficial, descritiva de um Timor que só existia na mente dos produtores do anúncio turístico, da qual perduram na retina as brancas areias das praias e o colorido das lipas.
A narrativa assume agora um corte abrupto, ao passar do idílico Timor para o som e visual das cenas sangrentas da resistência australiana e timorense contra a ocupação japonesa da 2ª Guerra Mundial. O comentário oportuno surge pela voz de veteranos australianos, no sentido de que a Austrália talvez fosse hoje japonesa se não tivessem morrido quase 40 mil timorenses a auxiliar os australianos.
Uma dívida de gratidão totalmente esquecida porque incómoda – alguém comentava. Cenas pungentes de um documentário australiano da época (1943) mostrando a resistência anti-nipónica. Desta sequência passamos de uma guerra esquecida para uma revolução inesquecível, com a emocionada voz de um locutor de rádio, narrando os acontecimentos do 25 de Abril de 1974, algures na baixa lisboeta.
O filme segue então o percurso da revolução dos cravos, dos seus ideais e dos seus resultados imediatos. O ‘gonçalvismo’ é visitado sumariamente para nos explicar como do dia para a noite, os maiores anseios de independência foram oferecidos de mão beijada a Moçambique e às outras colónias de África, Os africanos nas ruas celebrando a sua independência e o comentador a acrescentar que foram momentos de pouca dura, dado o conturbado período que viria a seguir.
Como nota positiva, apenas o facto de a bandeira colonial ter sido substituída pelos estandartes de povos independentes.
De novo a câmara se volta para os orientes exóticos, lembrando algo que ficara por fazer. Timor, uma vez mais, ficara esquecido. As imagens acompanham a formação dos principais partidos políticos em Timor, as ´manifs´ de rua, a primeira campanha de alfabetização na Ponta Leste e a primeira eleição democrática de um Chefe de Suco. Curiosamente, é mostrado o detalhe de uma urna de voto: um saco de palha com cerca de um metro de altura, dentro do qual estão dois sacos mais pequenos, os quais só podem ser vistos pelos votantes, que se aproximam e deitam no respectivo saco a pedrinha de voto. Resultado da eleição: o chefe tradicional desde 1959 é substituído por outro de maior apoio popular.
João Carrascalão, antigo comandante militar da UDT faz a sua análise da situação ao som dos arrulhos do pombal que tem no seu jardim australiano. A partir desse momento o filme começa a centrar-se em torno do futuro Nobel da Paz, José Ramos-Horta, que relata as aspirações dos timorenses à data.
É a partir desta altura que o filme muda, uma vez mais, de velocidade. Passa-se para as cenas da guerra civil, seguida pela evacuação do governo de Lemos Pires, o qual é posteriormente entrevistado já na ilha do Ataúro.
As imagens sucedem-se, Carrascalão conta a sua viagem a Jakarta e as falsas declarações dos indonésios. As tropas da FRETILIN preparam-se então para pegar em armas (que os portugueses deixaram).
A vacuidade dos pedidos de auxílio internacional, a hipocrisia australiana com a visita do então primeiro-ministro trabalhista, Gough Whitlam, a Suharto, a promessa de que a Indonésia jamais interviria no processo de Timor, os americanos a aumentarem as suas vendas de armamento ao regime javanês.
As imagens mostram que já não há guerra civil, trata-se de escaramuças nítidas das forças armadas da FRETILIN contra milícias indonésias. Os preparativos da invasão, a preparação para a impossível defesa, os votos de luta até à morte contra o invasor indonésio.
O filme percorre as manchetes dos jornais, as declarações políticas em várias capitais do mundo, depoimentos vários de testemunhas, à data ainda em Timor. A inoperância do regime português, a indiferença cúmplice do regime de Camberra, a campanha indonésia denegrida dos timorenses como perigosos comunistas (que nunca foram nem seriam), os últimos retoques para a invasão, até à morte dos cinco jornalistas australianos que testemunhavam em reportagem televisiva as forças invasoras antes de elas terem, oficialmente, declarado a sua intervenção.
Segue-se a declaração fugaz de independência a 28 de Novembro de 1975 para o que seriam apenas nove dias de libertação do jugo colonial. O hastear da bandeira colonial, pela primeira vez em mais de 460 anos de colonização.
Depois passa-se para a visita a Suharto, do então presidente norte-americano Gerald Ford, em plena véspera da invasão, documentos secretos mostrando o conhecimento e o aval dado pelos americanos a essa invasão.
A película percorre depois as imagens terríveis da invasão, a mortandade, as campanhas no estrangeiros dos líderes nacionalistas tentando alertar o mundo mudo para o que se estava a passar fora dos circuitos visuais de um Ocidente preocupado com o efeito dominó do comunismo na Ásia. Entrevistas com governantes e diplomatas tentando, agora depois de todos estes anos, explicar que as suas atitudes de então eram justificadas face aos dados existentes à data.
Depoimentos vários de sobreviventes, a outra face da miséria no Jamor, e os percursos infindáveis de Ramos Horta nas Nações Unidas e no Comité de Descolonização, de Nova Iorque a Genebra. As forças nacionalistas a tentarem o apoio dos países lusófonos africanos (PALOP’s) mantendo a sua voz para que esta fosse ouvida nos corredores do poder mundial.
Do outro lado da imagem, a segunda colonização, mostrando Suharto a inaugurar a televisão em Timor Timur, a pompa militarista e opressora dos novos colonos, dispostos a tudo destruir e matar para justificar a sua injustificável invasão.
As imagens mostram as cerimónias de rua com mais bandeiras indonésias do que povo, caras indonésias (que não timorenses) aclamando o opressor. A pretensa melhoria de condições de vida proclamada por Jakarta. As câmaras confrontando políticos, nacionalistas e diplomatas em Nova Iorque, Genebra, Lisboa, Camberra, Harare e Maputo. A falta de meios humanos e materiais para os nacionalistas manterem a sua pressão para que o problema não caia no esquecimento. As comparações da cobertura jornalística mundial ao Camboja e a quase ignorância total sobre Timor. A incongruência do presidente Carter se ter momentaneamente esquecido dos direitos humanos para aprovar nova venda de armamento à Indonésia, para que esta pudesse aumentar a sua repressão a Timor.
As votações da ONU, as pressões sobre pequenos países para não votarem contra a Indonésia sob ameaças de cortes de auxílio económico. Horta perambulando entre a ONU e o seu humilde apartamento em Nova Iorque. Imagens potentes entremeadas de entrevistas e depoimentos de dezenas de personalidades. O filme termina com Ramos Horta a sair uma vez mais em busca de nova missão para que a voz do povo de Timor Leste possa ser ouvida e não caia no esquecimento fácil dos fazedores de notícias.
As imagens bem entrelaçadas com depoimentos de inúmeras personalidades mostram bem o porquê do título ‘Buried Alive/Enterrados Vivos’. Um povo traído que se recusou a ser vencido e que jamais deixou de lutar mantendo e querendo a sua voz forte para que um dia a ouçam.
Falamos com Gil Scrine relativamente a este documentário narrativo da saga dos timorenses. Gil apaixonou-se pela causa de Timor em 1986 quando se encontrou com Horta nas Nações Unidas. Daí surgiu a ideia deste filme mais do que um documentário. Depois, sem apoios financeiros foi a luta constante e o gasto de várias dezenas de milhar de dólares (milhares de contos) para concretizar o plano de filmagens decorrendo de Lisboa a Nova Iorque, Genebra, Sydney, Harare, Maputo, Washington, Camberra, Perth e Darwin.
A apatia das autoridades portugueses que até ao último momento não haviam autorizado a utilização do tema ‘Grândola, Vila Morena’ para tema das imagens da revolução, foram alguns dos milhentos problemas encontrados por Gil.
Para ele “não se compreende o silêncio e apatia dos australianos face ao problema de Timor” salientando, no entanto, que obteve bastante apoio de jornalistas portugueses e de refugiados timorenses para a filmagem e narração. “Todos os povos podem beneficiar desta lição exemplar que o filme retrata, pois ela simboliza não só o termo do Grande Império Colonial Português, como a invasão, e as manipulações das grandes potências contra a vontade soberana de um povo”, assim comentava na altura Ramos Horta, manifestando-se “satisfeito com o filme” e anunciava então que iniciava uma nova meta da sua carreira por ter sido nomeado Director Executivo do programa de Estudos Diplomáticos da Faculdade de Direito da Universidade de Nova Gales do Sul.
Com efeito, nomeado em 1 de Julho de 1989, Ramos Horta iria passar os anos seguintes a leccionar preparação e treino em diplomacia e política internacional aos povos indígenas da região, às minorias étnicas e aos timorenses em particular, em área tão distintas como Direito Internacional, Direitos Humanos, Prática Diplomática e de Negociações.
O programa recebeu o apoio unânime da academia estadual e visa perspectivar os âmbitos de acção daqueles grupos nos meandros da política internacional. Ramos Horta é licenciado em Relações Internacionais com especialização em Direito Público Internacional pela Universidade de Colúmbia. Anteriormente havia sido investigador e conferencista na Universidade de Oxford em 1988, tendo sido leitor visitante no Instituto Superior Universitário de Relações Internacionais do Maputo, especializado em política externa a partir de 1980. Em Outubro de 1990 lançou o seu livro ‘Timor – Amanhã em Dili’ uma versão actualizada do livro em inglês ‘FUNU – a saga inacabada do povo de Timor Leste’, publicado em Nova Jersey em Janeiro de 1987. Depois de muitas andanças internacionais acabou por ser agraciado em 1996, juntamente com D. Carlos Filipe Ximenes Belo, Bispo de Timor, com o Prémio Nobel da Paz.
Relativamente ao filme, afirmava então Horta que este projecto fílmico de Gil Scrine não podia nem devia ser considerado como uma autobiografia inacabada, mas antes como um retrato incompleto que só terminará quando os timorenses puderem regressar à sua pátria. Até lá e como João Carrascalão nos afirmava então. “A luta continua e o inimigo é só um: a Indonésia”.
O então Secretário de Estado da Imigração e das Comunidades Portuguesas, Correia de Jesus afirmava com o embaixador de Portugal, José Luís Gomes “a minha casa é a vossa casa até que possam regressar à vossa”. A data era incerta mas a vontade de muitos portugueses e australianos era já então a de os timorenses terem direito ao seu lar. Essa também uma das fortes mensagens do filme, que foi o segundo sobre a saga dos timorenses. Ambos realizados por australianos e nunca exibidos comercialmente em Portugal. O que motiva a falta de interesse dos cineastas e produtores portugueses naquela saga? Será que, tal como os políticos portugueses, serão os últimos a acordar e a darem conta que o problema de Timor existe? Outra questão que se podia por é a de aqueles filmes não terem sido exibidos em Portugal, mas decerto os directores das cadeias de televisão sabem mais do que aquilo que não dizem.
Os anos passaram desde que inicialmente escrevemos todas estas crónicas mas apesar de todas as mudanças mundiais desde a queda do ‘Muro de Berlim’, ao fim da Guerra Fria uma coisa porém se mantém imutável: a vontade dos timorenses se autodeterminarem e terem a independência a que têm direito, a intransigência dos indonésios durante os 32 anos do regime Suharto e a inoperância das instâncias internacionais em encontrar uma solução justa para o problema.
1 Originalmente publicado na revista Macau, #19 de Fevereiro 1990.
2 Tecido tipo ‘sari indiano’ enrolado à cintura
©2006
Dr Chrys Chrystello
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