| OS TIMORENSES NA AUSTRÁLIA
Da invasão indonésia até à Austrália, um percurso de 22 anos1
CRÓNICA 21-1989
Vinte e dois anos se completaram em 07 Dezembro 1997 sobre a invasão de Timor Leste pela Indonésia, e a maioria dos cerca de 10 mil timorenses e seus descendentes, em Sydney, acredita que o governo australiano – depois de silenciosamente ter assistido à destruição da ex-colónia portuguesa – ignora os problemas sociais que diariamente se acumulam e quotidianamente são enfrentados pelos timorenses. As dúvidas, a distância e o tempo não ajudam a sarar as feridas de que enfermam os timorenses aqui residentes. O futuro pode ser ainda mais sombrio do que o passado e o presente se a independência não vier depressa para este povo esquecido que tantos mártires deram.
Para muitos dos imigrados deste país, as barreiras culturais que se lhes deparam à chegada são incomensuráveis. Para os timorenses elas são ainda maiores do que qualquer outro emigrado poderia esperar.
Consideremos primeiramente o estrato socioeconómico de base rural colonial e neocolonial de que provêm. Um nível educacional muito baixo, nalguns casos grassando o mero analfabetismo da sua língua natal, e o muito reduzido contacto com a cultura dita ocidental que era apanágio dos timorenses provenientes das zonas mais recônditas da antiga colónia, foi gradualmente substituído por uma geração mais nova com uma educação básica indonésia que aniquilou todos os traços culturais do seu passado.
Manteve-se constante, entre os refugiados dos anos 70 e os dos anos 90 um estrato sociocultural de origem tribal, regulado anteriormente (ao longo de séculos) por uma hierarquia estabelecida sob os poderes dos régulos, liurais e chefes de suco, que sobreviveu aos quatro séculos e meio de colonização portuguesa, à invasão e ocupação japonesa durante a 2ª Grande Guerra e se mantém ainda hoje sob a ditadura do invasor javanês. As ordens emanando do topo dessa hierarquia tradicional não davam lugar nem a diálogo nem a contestação.
Convirá referir que a reintrodução hierárquica data do pós-guerra e se deve a factores coloniais de simpatia para a potência colonizadora à data (Portugal) e não os verdadeiramente tradicionais laços de sangue e família tribal que dominavam a estrutura timorense até à primeira metade deste século. A receita está assim completa para um coquetel (ou cocktail para os anglicizados) explosivo.
Consideremos a seguir que em termos quantitativos a comunidade timorense, hoje estabelecida na Austrália duma forma geral e em Sydney em particular, é em termos práticos irrelevantes. Os timorenses representam aproximadamente 0,2% da população de Sydney e 0,1% da população deste continente-ilha.
Todos estes factores permitem a manutenção de divisões naturais entre os vários núcleos timorenses. Excluímos à partida as divisões ou facções políticas entre simpatizantes da UDT (União Democrática Timorense), FRETILIN (Frente Revolucionária para a Independência de Timor Leste), que ora estão unidas numa frente conjunta ou divergem e um ou outro simpatizante da APODETI (Associação Popular Democrática de Timor) ou até mesmo dos mais recentes grupos como a AST (Associação Socialista de Timor) ou MRUPTL (Movimento de Reunificação de Unidade de Timor Leste).
Existem ainda outras diferenciações de ordem étnica, entre os timorenses melanésios, os de origem chinesa, os mistos destes e de outros grupos étnicos (incluindo os portugueses) Em Sydney pouco mais de um quarto dos timorenses é de origem chinesa (em 1989 dentre 6500 haviam 1800 chineses), facto que deverá talvez identificar-se com razões de ordem económica. Já em Timor, durante os anos coloniais portugueses, os chineses eram minoritários mas desfrutavam de uma superioridade económica em relação aos outros grupos. Durante a ocupação indonésia eles estão a seguir aos javaneses e militares indonésios.
Para os chineses de Timor a integração no modus vivendi australiano não foi feita através de manifestações de solidariedade com os restantes timorenses, mas sobremodo com as restantes comunidades étnicas chinesas já aqui radicadas.
Dos restantes, consideremos dois subgrupos de timorenses: os mais ligados à língua e cultura de Camões e os restantes servindo-se predominantemente da língua franca, Tétum, elemento de unificação das mesclas variegadas da população da metade oriental da ilha.
Outras divisões existiam ainda à data da eclosão da guerra civil, mais baseadas em relações sociopolíticas que dicotomizaram a população entre a UDT e FRETILIN. Hoje em dia com as múltiplas aproximações e separações entre os dois grupos, e a necessidade premente de encontrar soluções para o problema de Timor, essas divisões esfumaram-se aqui.
Na Austrália ao longo dos anos vários foram aqueles que se revelaram líderes comunitários de segmentos timorenses. Salientarei João Carrascalão em Sydney (o homem da UDT, que acabou de ser reeleito líder do Partido no 3º Congresso daquela organização em Perth em Novembro 1997). Outros líderes actuais ou passados são Ágio Pereira (durante muitos anos o fiel representante da FRETILIN em Darwin e actualmente a residir em Sydney), Lola Reis e Estanislau da Silva ambos da FRETILIN em Sydney, Inês Almeida, Alfredo Borges Ferreira (Darwin, FRETILIN), Abel Guterres (FRETILIN; Melbourne) dentre muitos outros. A razão por que não menciono outros também activos é por os considerar óptimos seguidistas, mas incapazes de gerarem por si mesmos qualquer liderança, embora possam atrair hordas de fiéis dos partidos políticos a que pertencem. Ao nível de João Carrascalão e actualmente residente na Austrália desde 1989 apenas existe o Nobel da Paz de 1996, José Ramos Horta.
Isto, longe de ser depreciativo para novos valores como o de Inês Almeida (a eterna candidata a terminar um curso superior de jornalismo) revela apenas a pesada herança colonial que os Portugueses deixaram e que séculos de valores tribais inculcaram. Se bem que haja jovens dissidentes e representantes da RENITIL (o movimento de estudantes timorenses em Timor Leste e na Indonésia) e outros jovens estes não conseguiram desalojar o peso enorme de figuras carismáticas e veneradas como Carrascalão e Horta. Talvez que o século XXI venha a trazer novos valores a toda a resistência, que continua centrada em torno de clássicos e tradicionais.
Carrascalão afirma: “Timor era conservador e calmo antes da saída portuguesa. A política foi uma invenção recente a que parte da população não prestava a atenção devida. A UDT queria então a independência num período dilatado de dez a quinze anos. Na Austrália a FRETILIN tem sido mais vocal e aliada a organizações de esquerda … mas actualmente o que interessa é a libertação do jugo indonésio.”
Distanciando-se de seu irmão Mário Viegas Carrascalão (então governador da 27ª província indonésia de Timor Timur) João sempre acreditou que havia motivo para esperança. A timorização limitada dos quadros locais e a pressão internacional, além da pressão quer da guerrilha nas montanhas quer da oposição civil nas cidades, aliada à visibilidade que o Nobel da Paz para dois timorenses (Horta e Monsenhor Carlos Filipe Ximenes Belo) podem contribuir para a resolução do problema em especial depois da crise económica iniciada em Dezembro 1997 na Indonésia.
Nunca negando as suas visitas a Timor Leste, João Carrascalão foi sempre bastante vocal nas suas inúmeras presenças na ONU, no Comité de descolonização embora se distanciasse sempre das posições do seu cunhado (José Ramos Horta), mas manteve sempre uma posição de confrontação contra a posição oficial indonésia a favor da autodeterminação de Timor Leste.
Este timorense, com estudos feitos na Suíça durante a era salazarista, a FRETILIN teve alguns excessos pelos quais parte da comunidade ainda se ressente, mas admite que se não fosse a presença militar, a resistência passiva civil e eclesiástica nunca teria sido suficiente para alterar o balanço da situação.
A comunidade timorense de origem chinesa não dispõe de porta-vozes nem de associações específicas (à excepção de Darwin no Território Norte, onde tem um clube), estando mais unida em torno de grupos ligados por vínculos fraternos e familiares ou regionais, que se reúnem quer em Chinatown, na baixa de Sydney, quer em Cabramatta (a mini-Chinatown da subúrbia).
Uma coisa porém continua a unir todos os timorenses de qualquer conotação política: essa herança inegável do jugo colonial – o futebol, que é jogado com uma paixão e entusiasmo que fariam inveja a qualquer adepto do desporto.
Para Ágio Pereira (ex Darwin, ora Sydney) ou Alfredo Ferreira (em Darwin) onde se localiza a outra metade dos timorenses da Austrália que não vivem em Sydney ou Melbourne, “a luta continua e de Timor chega sempre a vontade de um povo que quer ser independente”. Nunca ao longo destes vinte e dois anos, os timorenses deixaram a sua posição aguerrida de recusa ao jugo indonésio e à supremacia do javanês. Apenas o silêncio durante mais de uma década dos meios de comunicação social internacionais impediram publicitar a acção de guerrilha armada e resistência civil. Recorde-se que a guerrilha em Timor Leste foi a única em todo o mundo que nunca dispôs de apoios do exterior. A situação mudou só a partir do massacre de santa Cruz em 11 de Novembro de 1991 e da atribuição do Nobel da Paz em 1996. Portugal começou a fazer-se ouvir a partir de 1989 pois até então o seu semi silêncio era quase cúmplice.
Aqui na Austrália a sociedade timorense defronta-se (de acordo com Carrascalão e Ágio) com a intolerância australiana, a sua falta de conhecimento dos problemas específicos da comunidade, a falta de apoio das entidades governamentais a níveis de subsídios e estruturas sociais de apoio, a falta de apoio das entidades consulares e da embaixada, salvo raras e honrosas excepções como foi o período de 1988 a 1992, do embaixador José Luís Gomes.
Há quem cite casos de doenças mentais que são também comuns a casos de refugiados do Camboja e Laos vítimas do regime de Pol Pot. A Austrália aceitou sempre refugiados até um determinado montante numérico ou quota, para dele obter reconhecimento mundial, alheando-se depois das consequências e traumas que essa vinda de refugiados provoca. O caso de Timor foi durante muito tempo uma espécie de tabu semiencoberto na comunicação social2 , e durante os anos do governo trabalhista (1983-1996) e a era Howard (depois de Março de 1996) era quase crime atacar a Indonésia ou expor a invasão e genocídio em Timor. Curiosamente, em finais de 1997 o Partido Trabalhista, então na oposição alterou o seu programa para passar a incluir uma cláusula sobre o direito à autodeterminação do povo de Timor.
Em jornais durante a década de 80 e início de 90 era vulgar ler na secção de ‘cartas à redacção’ depoimentos de veteranos australianos da 2ª Grande Guerra, indignados com o pouco que estava a ser feito em relação a Timor, citando eles a valentia e bravura dos 40 mil timorenses que morreram durante a guerra para defenderem os ideais ocidentais e australianos durante a sangrenta ocupação japonesa da ilha. Um deles, Paddy Kenneally ainda recentemente (Julho 1997) se deslocou ao Porto para tomar parte nas Jornadas de Timor da Universidade do Porto, essa instituição respeitável que primeiro que todas em Portugal, pela mão do professor Barbedo de Magalhães soube trazer o nome de Timor à academia e à vida dos portugueses.
Ao longo dos anos lidamos na Austrália com muitos timorenses, desde os que nunca tinham visto um ‘patas de aço’ ou ‘cacatua bote’ (nomes dados ao avião) àqueles que foram educados pelo sistema colonial português terminando ou não os seus estudos em Portugal, àqueles que apenas estudaram aqui e mesmo àqueles que estudaram sob o regime indonésio. Apenas uma coisa é comum a todos: o desejo de verem Timor independente e livre do jugo javanês.
Nota-se, porém uma erosão do poder e da cultura tradicionais que ameaça degenerar numa erosão futura daqueles valores ancestrais, capazes de resistirem a tudo e a todas as colonizações, mas em risco de serem vencidos e alienados pela permissividade cultural e social australiana.
Nos mais idosos e os da minha geração de meio século nota-se, de uma forma geral, a nostalgia, a tristeza de provavelmente jamais poderem pisar solo pátrio. Sente-se o amor e a saudade àquela terra. Nuns casos esses amor saudosista reveste-se de características e valores bem portugueses, próprios daqueles que estavam culturalmente mais próximos do colonizador e/ou faziam parte das suas estruturas administrativas. Noutros casos, porém, Timor é a Nação que deixou de o ser antes de realmente atingir a sua plenitude, mas que, não obstante, perdurará como Pátria enquanto uma gota de sangue e lágrimas puderem continuar a ser derramadas pelos antepassados mauberes.
Para um terceiro grupo, Timor representa uma etapa na conquista material, fortunas amealhadas do nada, reduzidas ao nada, recomeçadas de novo. Etapa essa marcada por fugazes mas recompensadoras amizades com portugueses das quatro partidas do mundo, sempre prontos a regressar ao oriente exótico dos Macaus e Austrálias deste mundo. Amizades também marcadas pelos indonésios ocupantes brutais mas tolerantes de minorias que servem de tampão e de bode expiatório de ódios coloniais.
Nos refugiados de Timor, ainda de lá emigrados quando era outro tempo, e noutros recém chegados depois da experiência sob o domínio indonésio, algumas noções basilares se podem aprender.
Uma delas será, faça-se o que se fizer vinte e dois anos se passaram já. Muitos dos mais novos eram demasiado novos para se recordarem e não mantêm os proibidos dialectos Tétum e a língua portuguesa, para além do empirismo quotidiano de diálogos em família à revelia dos indonésios. Eles preferem o Inglês que os poderá alcandorar a posições mais propícias de futuro neste país onde vivem agora e quiçá para sempre.
Mas atenção TIMOR LOROSSAE é também isto: A língua não é só uma forma de comunicação inicial e iniciática vital para os povos, mas pode tornar-se, como no caso de Timor nestes últimos anos numa forma revolucionária. Quando se pensa que as gerações hoje opostas à neo colonização indonésia, não eram, na sua maioria, nascidas quando os Indonésios proibiram o uso do Português, teremos de analisar que elas se vão aproveitar dessa mesma língua proibida para comunicar entre si, fazer oposição ao regime político e para serem ouvidas no mundo exterior. Poderiam, mais facilmente ter-se servido do Inglês, mas escolheram o Português, por este não ser dominado pelos Indonésios, mas ser compreendido pela maioria da geração mais velha, aquela que ainda se lembra da diferença de vida. É assim como língua da revolução e da resistência que o Português se mantém hoje em Timor ou na prisão de Cipinang de onde Xanana escreve.
De formas contrárias, o Português em África serviu para aglutinar populações divididas por etnias e dialectos diferentes, sendo hoje a língua oficial que absorvendo neologismos e ataques de línguas estrangeiras (Francês na Guiné Bissau, Inglês em Moçambique, etc.) vai enriquecendo as línguas crioulas ou Pidgin, desta forma se perpetuando e vitalizando, tal como acontecera há uns séculos no Brasil.
Em Goa, Malaca e Macau, persistem hoje pequenos redutos de formas de português, que estão em vias de extinção, pois que com o fim da presença portuguesa não se vislumbraram vantagens – nem culturais nem políticas – para ser mantido de direito próprio, ao contrário do que aconteceu no Sri Lanka (Ceilão) onde a mudança para apelidos portugueses era uma promoção de casta social.
Mas em Timor houve quem reinventasse a própria língua colonizadora para dela se aproveitar e lutar contra os neocolonizadores.
Outra noção é a de que os portugueses ao ‘saírem’ (detesto esta palavra neste contexto, pelo que o melhor é substituí-la por ‘desertarem’) Timor tinha apenas dezasseis quilómetros de estradas asfaltadas e pouco mais a que se pudesse chamar estrada.
A rádio era um luxo para poucos para além da messe militar e do Q.G. em Taubesse. Além disso quem ouvia não tinha sequer uma dezena de horas semanais. Jornais? Havia a conturbada e única ‘A Voz de Timor’ feita de muito esforço e boa vontade, mas sem meios técnicos, humanos ou financeiros capazes. O autor, Cristóvão Santos, o Dr. Martinho e o Lopes da Cruz nos últimos tempos da presença portuguesa foram alguns dos que tentaram converter a ‘V.T.’ num jornal. A televisão ainda não havia sido inventada para Timor, aviões e barcos eram quase meteóricos dada a sua frequente ausência e/ou falta de capacidade de transporte.
Hoje Timor Timur tem mais de 250 quilómetros de estradas asfaltadas por onde se deslocam as viaturas militares indonésias e as viaturas comerciais dos monopólios javaneses que continuam a espoliar os timorenses daquilo que é seu. Existem várias estações de rádio, TV a cores (um luxo em muitas outras ilhas na Indonésia), em vez das 47 escolas primárias que os portugueses ali deixaram existem hoje mais de 500, o analfabetismo baixou de 92 para 40 por cento, existem hospitais regionais e centro médicos de Dili ao interior, paramédicos nas aldeias, uma universidade e sei lá que mais que os indonésios não param de apregoar.
Há quem diga que apesar da invasão a Indonésia fez mais por Timor do que Portugal em quatrocentos e cinquenta anos. Isto afectou aqueles – que descontentes ou não – ali viveram estes doze anos.
Como conceber assim, neste cenário o regresso daqueles que aqui na Austrália, em Macau ou Portugal se radicaram depois de 1975? Qual o vínculo que os seus filhos têm com Timor, com os seus familiares (e não há família alguma que não tenha tido mortes) e amigos dos pais que sobreviveram a estes vinte e dois anos de ocupação?
Mesmo que a Indonésia, fruto de uma qualquer crise causada pelo desaparecimento de Suharto (e nada nos faz imaginar esta hipótese) abandonasse a ex-colónia tal regresso seria marcado por profundas diferenças. Os refugiados da Austrália aceitariam de forma pacífica os colaboracionistas que ali permaneceram, voluntária ou involuntariamente?
Que conexão terão os filhos desses, que colaborando ou não, forçosamente ali ficaram com os que falam inglês ou português? Nenhuma, pois provavelmente apenas poderão comunicar através de Bahasa Indonesia.
Em tal contexto e partindo do princípio que a guerrilha e a oposição civil conseguiam libertar o país do jugo javanês, seriam poupados os milhares de pessoas que coabitaram com os indonésios, como forma de sobreviverem?
Por outro lado, pondo questões morais de parte, temos um ‘fait accompli’ na presença indonésia, por voluntária ausência dos portugueses e lutas internas naquilo que se designou a guerra civil e apenas durou de Agosto a Setembro 1975. Famílias separadas por três continentes sem hipóteses de reunião devem esperar o futuro confiantes de que o bom senso vai prevalecer, com a sua dose de realismo, para permitir àqueles que saíram de Timor se poderem reunir aos que labutam em Portugal, Macau e Austrália. Para os outros há que continuar a insistir em que os organismos internacionais descubram uma fórmula para tornar a situação menos injusta e menos dolorosa.
A alternativa da guerrilha e desobediência civil prolongada levou até agora que nenhuma das partes possa clamar vitória e continuará a ser a realidade da maioria dos timorenses.
Não esqueçamos que pode haver escolas, estradas, televisão, rádio e outros confortos materiais que os portugueses ali não plantaram, mas a política de transmigração, os monopólios e oligopólios ameaçam tornar os nativos numa minoria dentro do seu próprio país, como aliás já aconteceu em outras ilhas indonésias.
Para além disto vastos sectores da população timorense foram inoculados, ou melhor esterilizados para não procriarem mais timorenses. Isto, aliado a uma aniquilação pela guerra e fome de cerca de 200 mil timorenses, um terço da população, faz prever que dentro de uma geração o problema possa ser ainda menos focado que o genocídio dos arménios no início do século.
Regressar parece difícil, não obstante recentes aberturas oficiais a missões diplomáticas, parlamentares e turistas. Como jornalista, cidadão australiano, português por nascimento, as minhas hipóteses de poder regressar são ainda mais remotas. Sempre que tentei levou com uma educada recusa, sempre acrescida de que se não tratava de motivos políticos. Quanto mais não fosse para descrever a beleza paradisíaca que nem os indonésios conseguirão destruir, gostava de rever as praias, o som dos ‘tokés’ e as faces amigas dos mauberes, naquela que há muito considero a minha pátria, se bem que poucos conhecidos possam ainda estar sobrevivos.
Timor, ‘a terra que em nascendo o sol vê primeiro’ tal como me ensinaram nos velhos compêndios de geografia colonial, os mesmos que teimavam em chamar Vila Salazar à Baucau que perdura ainda hoje.
Aqui na Austrália, os timorenses repetem o ciclo natural da luta pela sobrevivência, tal como o haviam feito durante séculos, marcados por fomes, guerras tribais, por uma colonização portuguesa nem sempre benevolente, por uma violenta e sangrenta invasão e ocupação japonesa e mais recentemente pela ameaça de aniquilação total provocada pela presença indonésia.
A SOBREVIVÊNCIA DO POVO MAUBERE DEPENDE APENAS DELE E DA SUA ADAPTAÇÃO, DO SEU QUERER, DO SEU SABER MANTER A CULTURA TRADICIONAL EM ATMOSFERAS HUMANAS MODERNÍSTICAS – como as de Portugal e da Austrália. Para os restantes é a lei da sobrevivência de um povo animista e redescoberto católico no meio do islamismo indonésio.
Entretanto aqui em Sydney, 22 anos depois os timorenses de uma forma geral, começam a sentir-se integrados no panorama humano e social, mas falam ainda da sua pátria com orgulho, o mesmo com que eu descrevo a descoberta de novas plagas e mundos pelos aventureiros portugueses dos séculos XV e XVI.
Entretanto novas guerras, guerrilhas e outros problemas mundiais vão mantendo o problema de Timor afastado das manchetes dos jornais, relegando para o olvido a causa e a brava saga do povo timorense.
1 Originalmente publicado na revista Macau, #15 de Fevereiro 1989.
2 Lembro-me de em 1989 em Camberra a conhecida jornalista e apresentadora de rádio e TV, Pru Goward perguntar a Ramos Horta sobre a religião muçulmana em Timor e ele responder que em 1974 havia cerca de 500 muçulmanos, pelo que ela insistiu aludindo ao budismo… inexistente no território salvo excepções não quantificadas.
Dr Chrys Chrystello

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