Formação
Brasileira
O Centro de Formação
Profissional do SENAI no Timor é um exemplo de conjugação
de esforços dos brasileiros. Além do ensino técnico
propriamente dito, os aprendizes e a comunidade em torno têm
acesso aos programas Alfabetização Solidária
e o Telecurso da Fundação Roberto Marinho. A realidade
timorense às vezes desnorteia, mas os brasileiros se adaptam.
O Telecurso, por exemplo, foi concebido para adolescentes e adultos
que estão fora do sistema escolar. Só que muitos jovens
que estão na escola seguem o curso, porque o nível
é muito superior ao que eles têm. Além disso,
a maneira de ensinar, informal, dinâmica, com uma linguagem
coloquial, muitas imagens e exemplos concretos, é algo totalmente
novo para eles. Outra surpresa, muitos se inscrevem para aprender
ou aperfeiçoar o português. Mariangela Guerra, monitora
do projeto em Dili, depois da surpresa inicial, não teve
dúvidas. Não interessa se as pessoas se enquadram
ou não no perfil previsto. Todos que querem podem freqüentar.
Aprender é um direito sagrado.
A maioria dos jovens não fala
português, idioma proibido durante 24 anos. Muitos preferem
o indonésio ou o inglês como língua oficial.
Mas a OJETIL, a principal organização de jovens do
país, que teve um papel central na resistência, pediu
a abertura de classes do Telecurso, fornecendo as salas, que estão
sempre cheias. Eládio Faculto, secretário-geral da
organização, explica: “Nós, da Ojetil,
defendemos o português como língua oficial, porque
ela faz parte da nossa identidade, pelos laços históricos
e políticos que ela representa. Nós não aceitamos
que certos jovens defendam a língua do invasor, que nos oprimiu,
nos massacrou. Eles fazem isso porque não têm a coragem
de aprender um novo idioma, mas é um absurdo. A juventude
deve ter a coragem de aprender, de recomeçar, porque a escolha
da língua oficial é uma decisão política
fundamental.”
A formação dos jovens,
feita inclusive pelos brasileiros, é essencial. “O
ensino indonésio era muito ruim, incapaz de formar recursos
humanos válidos, pessoas com raciocínio crítico,
capacidade de iniciativa. Por isso mesmo as mudanças na Indonésia
são tão lentas. Eles formam um bando de carneiros,
que só sabe repetir o que mandam, um sistema incompatível
com uma sociedade democrática. Eu nunca fui ao Brasil, mas
pelo que estou vendo do país através do Telecurso,
é uma sociedade democrática, livre, um exemplo a ser
seguido. Vocês fizeram aquilo que nós queremos construir
aqui. Mas para isso nós precisamos de coragem e não
só na hora da resistência, mas agora, todos os dias.
Eu sei que a nossa juventude vai enfrentar esse desafio e vai defender
o português como língua oficial ”- garante o
jovem.
Segundo Eládio, a luta
entrou em outra fase e os jovens devem ter a mesma coragem que mostraram
na hora de enfrentar as balas dos indonésios de peito aberto
para reconstruir o país. “Nosso país está
destruído. Chegou o momento de reconstrução
e não apenas física, mas da criação
de uma nação, de identidade timorense. A formação
dos jovens, de recursos humanos capazes de construir um país
livre e democrático é fundamental”- garante
o líder da OJETIL.
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