Heróis na
guerra, heróis na paz
Um exército cor de jambo,
no qual a média de altura mal chega a 1,60 m. Cabelos longos
e boinas, o look oscila entre Che Guevara e Bob Marley, dois ícones
do terceiro mundo, uniforme desparelhado, medalhas da Virgem no
pescoço. Isolados, com fome, morrendo mais de malária
do que tiros, durante 24 anos um punhado de homens como os que encontrei
pela primeira vez no acampamento de Remexio, em 1999, lutou contra
um dos maiores e melhor armados exércitos da Ásia.
O exército indonésio chegou a ter 60 mil soldados
no território, nunca menos de 30 mil, armados com o equipamento
mais moderno, toneladas de napalm inclusive. Os homens da Falintil,
a guerrilha que durante 24 anos lutou pela independência do
Timor, chegaram a ser apenas 120 no pior momento, um punhado de
guerrilheiros subnutridos, minados pela malária, em grupos
sem contato entre si.
“Até as cuecas que nós
usávamos eram tomadas dos indonésios. Foi com as armas
confiscadas do inimigo que nós lutamos” - desaba o
comandante Falur Tale Raek, que significa Cadáver Sem Sepultura,
em tétum, embora o nome verdadeiro – que quase ninguém
conhece- soe bem mais familiar, Domingos Raul.
O mais incrível é que
venceram. Nem os bombardeios com toneladas de napalm, os massacres
e as campanhas de terror curvaram a espinha desse povo. Além
da coragem, eles dispunham de uma arma secreta: eles tinham razão.
O Timor foi o Vietnã da Indonésia. Só entre
1975 e 1979, as Falintil teriam feito 20 mil baixas entre os soldados
indonésios. Nos últimos anos, a guerrilha estava reduzida
a apenas 450 homens, que chegaram a 1.500 em 1999. Mas se não
fosse a resistência deles, a Indonésia poderia mostrar
ao mundo que o Timor tinha aceitado a ocupação e ter
anexado o território como a 27a província do país.
Nunca teria havido mobilização internacional, nem
independência.
“Nós todos estamos cansados
de guerra. Durante estes 24 anos de luta nós aprendemos muita
coisa. Na maioria dos países, os militares têm a prática
de torturar, violar, matar, massacrar. Então nós,
que durante todos esses anos fomos vítimas de tudo isso,
queremos uma paz duradoura para o nosso país. Uma paz que
respeite todas as conquistas da humanidade, como os Direitos Humanos”.
O desejo do comandante foi cumprido. Depois de um período,
de mais de um ano, durante o qual – em razão de tratados
internacionais- as Falintil estiveram praticamente prisioneiras
em Aileu, uma localidade na montanha, o exército do Timor
foi formado. Em 2.001, o comandante Falur se transformou em tenente-coronel
Falur, comandante do I Batalhão das Forças de Defesa
do Timor Leste, composto inteiramente a partir dos ex-guerrilheiros
das FALINTIL.
Mas nem todos puderam ser incorporados,
por razões diversas, principalmente de saúde.
Não é, digamos, estranho que muitos homens que serviram
para lutar 24 anos na selva, não sejam bons para as forças
do Timor?- arrisco. “Eles deviam era desmobilizar todos nós,
incluindo eu - ri Falur. Deviam mandar todos para casa, porque nós
vivemos no mato esses anos todos com deficiência nutritiva,
sem resistência física, temos uma série de doenças
! Os que tinham diabetes, tuberculose e outras doenças mais
graves foram desmobilizados. Malária então, era inevitável,
todos nós temos, porque andávamos na selva. Muitos
temos os ossos fraturados e mal colados, tem partes dos ossos que
eu nem tenho mais. Todos nós fomos feridos em combate”
Tinha alguém em bom
estado, então? “Não, acho que não- ri
Falur. Mas o nosso comando decidiu que tínhamos que estar
aqui para ensinar, encaminhar esses nossos homens, principalmente
os mais jovens. Nesse mundo os jovens querem muita coisa, há
muita tentação”.O que foi feito para aqueles
que não foram aprovados para as FDTL? “Foram criados
programas humanitários, uns receberam dinheiro e material
para se estabelecerem, outros formação profissional.”
A reconversão profissional dos ex-guerrilheiros das FALINTIL
considerada estratégica e prioritária pelo próprio
Xanana, está sendo feita pelo SENAI.
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