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Trocando a Metralhadora pelo Martelo, graças aos Brasileiros

Rosely FORGANES, de Dili

Pedro é de Liquiça, Noel é de Los Palos, Sebastião vem de Ainaro, Mariano de Bobonaro. Enquanto eles se apresentam, os nomes são familiares, as localidades exóticas para nós. Todos são aprendizes do SENAI em Dili, capital do Timor Leste. Até pouco tempo atrás, eles viviam no mato, aprendiam a matar. Tudo o que sabiam era combater. Todos eram guerrilheiros das Falintil- as Forças de Libertação do Timor Leste - que durante 24 anos lutaram pela independência do país. Tenho a impressão de já ter visto alguns no acampamento da guerrilha em Remexio, em 1999, durante a guerra, ou nas barreiras que eles controlavam nas estradas naquele tempo.

O que é que um país que foi totalmente destruído, pilhado, incendiado e queimado, onde todas as escolas, hospitais, casas, edifícios públicos foram devastados, precisa mais? Ser reconstruído o mais rápido possível. Senão, não pode haver uma vida digna nem a sonhada independência. Só que no Timor, ocupado militarmente pela Indonésia durante 24 anos, já não havia mão de obra qualificada nem para o dia a dia, imagine para uma tarefa gigantesca como essa.

Do outro lado do planeta, um país irmão tinha uma das melhores experiências em matéria de ensino profissional, formando pessoal especializado da mais alta qualidade em todas as áreas. Além de tudo, eles falavam a mesma língua. Bastou um pedido de Xanana Gusmão, em sua primeira visita ao Brasil, e o SENAI foi tomar parte na reconstrução do Timor. Agora Xanana voltou, como primeiro presidente da mais jovem democracia do mundo, para uma visita oficial e assinar a entrada do Timor Leste na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Ex-comandante supremo da guerrilha, Xanana agradeceu e pediu que o trabalho, para o qual só teve elogios, seja intensificado. Em 60 anos de existência, o SENAI
formou cerca de 33 milhões de pessoas (quase 10 vezes a população do Uruguai) e desenvolve projetos de cooperação em 30 países, entre os quais Angola, Moçambique, Peru, Paraguai e Uruguai.

Ao chegar em Dili, em janeiro de 2001, os brasileiros receberam uma gigantesca área de que tinha sido uma escola para moças, com vários prédios. Todos carbonizados. Abandonados ha meses, os edifícios e o local tinham se transformado em depósito de lixo, banheiro para animais e humanos, onde detritos de todo tipo apodreciam no sol e na chuva. O ar era irrespirável. Estanislau Quintão, paulista de Diadema, que já tinha passado quatro anos na África realizando missões, mal chegou, olhou aquilo e suspirou. Num país sem recursos, onde até água e luz elétrica muitas vezes são luxo, a tarefa não seria fácil. Estanislau não perdeu um único segundo, nem para praguejar. A limpeza começou imediatamente. E não parou mais. O pior era o mau cheiro, insuportável, entranhado, difícil de tirar em tão pouco tempo. Com a ajuda dos bombeiros, eles lavaram tudo com mangueiras d’água. Foram necessários mais de 50 mil litros, só para tirar o grosso da sujeira.

Para colocar os prédios em estado de funcionar, o SENAI aproveitou para fazer formação profissional. Mesmo esse trabalho já foi feito com monitores brasileiros orientando os aprendizes nas mais diversas áreas. As primeiras turmas que tiveram acesso a essa formação foram justamente os ex-membros das Falintil. Mesmo considerados heróis nacionais por toda a população, muitos deles não puderam ser incorporados às Forças de Defesa do Timor Leste – FDTL- o exército do Timor, por diversas razões, principalmente de saúde. Depois de 24 lutando na selva, pela liberdade do país, quando finalmente venceram, todos têm malária, muitos tuberculose, ferimentos mal cicatrizados, estilhaços de balas e granadas pelo corpo, além de uma lista de doenças tropicais. Na guerrilha eles eram tratados apenas com ervas e chás da medicina tradicional, qualquer que fosse a gravidade do ferimento ou da doença, porque nunca tiveram médicos.

Deixar esses homens, que encarnaram a resistência e a luta de todo um povo- no desemprego e na miséria seria uma desonra e um problema político para a nação. Sem falar no perigo potencial que representam homens que desde a infância só aprenderam a usar armas e a combater. Eles eram a grande preocupação de Xanana, que durante todos esses anos, mesmo a prisão, foi o Comandante Supremo das Falintil. Assim que voltou ao Timor, ele criou a Fundação de Veteranos das Falintil, que preside. Com seu senso de honra e uma lealdade até a morte com os homens que lutaram com ele na selva, Xanana Gusmão jamais abandonaria esses guerreiros sem a luta dos quais, o país nunca seria livre.

O SENAI trouxe a resposta, reciclando esses ex-guerrilheiros em combatentes da reconstrução do país que eles sempre defenderam. Eles foram os primeiros aprendizes, um símbolo do mais alto significado. Todos os membros da guerrilha que quiseram, tiveram acesso à formação do SENAI. Em vez de uma arma, desta vez eles têm nas mãos um alicate, serrote, furadeira, martelo, formão ou uma chave de fenda. Difícil achar um símbolo mais forte de um país em paz, do combate agora pela reconstrução. Todos estão tendo a chance de ser cidadãos no verdadeiro sentido da palavra e empreendedores.

O local do SENAI é um barulho permanente de furadeiras, serrotes, martelos, todo tipo de trabalho. Além das 360 horas de formação profissional como pedreiros, carpinteiros, encanadores ou eletricista, os aprendizes passam por mais 40 horas de gestão de pequenos negócios, para que possam trabalhar como autônomos. Não há grandes empresas no Timor, eles não vão encontrar colocação como empregados. “Nós entendemos que essa é uma maneira de fomentar a promoção social, investindo na formação do homem. Então o SENAI prepara também a formação humana, para que eles mesmos possam realizar a própria promoção social” - explica Estanislau.

Cada aprendiz, ao se formar, recebe um kit com o material necessário para começar na nova profissão. Desde o início, a preocupação do SENAI é de formar os timorenses para que sejam autônomos. Os brasileiros formam os monitores que por sua vez formam os timorenses. O objetivo é que eles próprios possam assumir o projeto dentro de algum tempo e os brasileiros não sejam mais necessários.

A equipe do SENAI foi adaptando o projeto em função das necessidades dos timorenses. Muito material deveria vir do Brasil, mas Estanislau percebeu que as características técnicas eram diferentes daqueles disponíveis no Timor, com os quais eles terão que trabalhar depois, o que poderia provocar dificuldades. Não adianta ser de melhor qualidade se depois eles não terão como comprar ou repor estoques. Então, desde o começo, eles passaram a usar unicamente o material disponível no Timor. Por outro lado, o sistema de construção indonésio, o único que eles conheciam, era péssimo, de qualidade lamentável. Os aprendizes, apesar de usar materiais locais, são iniciados nos padrões de qualidade internacionais, que eles não conheciam. E ficam maravilhados.

Mesmo tendo começado pelos veteranos das Falintil, a pedido do próprio Xanana, além de voluntários de todos os bairros, o pessoal do SENAI teve problemas. O chefe do Suco local, uma autoridade tradicional importantíssima no Timor, foi reclamar que eles deveriam ajudar primeiro a comunidade onde estavam. Sob ameaça de impedir a realização do projeto. Estanislau não teve dúvidas, abriu as inscrições para todos os interessados, pagou os 120 candidatos durante uma semana, divididos em 8 grupos de 15 para ver como trabalhavam e a vontade que realmente tinha que aprender. No final, selecionou os melhores, os 30 mais motivados, num processo transparente e incorporou aos aprendizes. Com isso, ganhou o apoio do chefe do Suco e de toda a comunidade.

A preocupação com as boas relações com a comunidade- essencial no Timor mais ainda que em outros lugares- é permanente. Estanislau me mostra um terreno ainda baldio, cheio de pedras e aponta: “Ali vai ser a quadra poliesportiva, aberta a toda a comunidade. Muitas crianças e jovens do bairro não têm o que fazer, ficam na rua. Fazendo esporte aqui conosco eles estão seguros, vêem gente aprendendo e trabalhando o tempo todo, o que é uma boa referência para eles. Além disso, jogando futebol com eles, podemos saber quais são os problemas, as expectativas da comunidade”.

Com o nível cultural dos aprendizes, o SENAI também teve que se adaptar. Em colaboração estreita com outros projetos brasileiros, eles instalaram classes do Alfabetização Solidária e do Telecurso da Fundação Roberto Marinho. Além da formação profissional propriamente dita, é necessário educar os homens para elevar o nível e que eles possam se integrar à sociedade e trabalhar como micro-empresários. Essas aulas são abertas a toda a comunidade, não apenas aos aprendizes do SENAI. “Todo dia de pagamento, um policial vinha aqui nos dar segurança. E ele via o pessoal tendo aulas de português do Telecurso. Viu uma vez, a segunda, na terceira ele pediu: posso vir também?” - conta Estanislau. O delegado do bairro de Becora, tenente Helio Tenório dos Santos também é brasileiro e autorizou todos os policiais que quisessem a seguir os cursos.

Os prédios, carcassas carbonizadas de ferro retorcido, vão sendo reconstruídos um a um, se transformando em salas de aula, ateliês de carpintaria, marcenaria, eletricidade, biblioteca, banheiros. As aulas de panificação estão começando, mais tarde eles vão começar a formação profissional em costura. Estanislau mostra o seu orgulho, um decantador de água, que em várias etapas e um processo natural, transforma o esgoto em água limpa, usada para a jardinagem. Uma maravilha ecológica que faz reciclagem, desconhecida por aqui.
Aos poucos, milhares de timorenses vão receber formação profissional e a oportunidade de uma vida digna e produtiva com a ajuda e o apoio do SENAI. O projeto vai ser levado para outras regiões do país, dando oportunidade aqueles que não podem se deslocar. O plano é 12 meses de implantação do projeto, 24 de consolidação e mais 12 de transferência para os timorenses. Embora a transferência seja uma preocupação permanente, que guia todo o projeto, essa será a transferência formal.

 

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ROSELY FORGANES
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