Reconstrução
A ONU vai, mas o Brasil fica
Fabíola Góis
Da equipe do Correio Braziliense
Presentes desde 1999, tropas brasileiras
conquistaram os timorenses com simpatia e solidariedade. Além
de dar segurança, reergueram escolas. A pedido do novo exército
local, elas continuarão ajudando o país.
Dili – A capital
do TIMOR LESTE, continua cercada de militares por todos os lados.
No início da missão da Organização das
Nações Unidas (ONU), 12 mil homens garantiam a paz.
Hoje são 310. O Exército Brasileiro participa de todas
as missões da organização no país desde
1999. O XI Contingente, com 125 homens do Batalhão de Polícia
do Exército de Brasília, substituiu no último
dia 23 uma tropa de 50 militares de Recife.
O Brasil é o país com o maior número
de militares no Timor e o único a
aumentar seu efetivo. As forças de paz estão deixando
o país, mas o Brasil foi autorizado pela ONU a ficar, a pedido
do comandante das Forças de Defesa do TIMOR LESTE (FDTL),
Taur Matan Ruak. ‘‘Os soldados brasileiros têm
um relacionamento especial com os timorenses. São afetivos
e bem preparados’’, afirmou.
A responsabilidade pela segurança no país
já cabe aos 1,3 mil homens da FDTL, cujo efetivo deve crescer
para 3,5 mil. Escolta de comboios,
investigações, perícias criminais, segurança
de autoridades e controle de
fronteiras estão entre as principais tarefas do contingente
brasileiro. Mas
os militares também reconstruíram escolas, ensinaram
capoeira e fizeram atendimento médico. Hoje, quando vêem
a bandeira do Brasil numa farda, os timorenses gritam: ‘‘Brasileiro,
amigo. Ronaldo, Roberto Carlos’’.
Primeira mulher a integrar missão de paz
do Exército Brasileiro, a capitã-médica Ângela
Tavares Bezerra, 40 anos, ficou oito meses no Timor junto a 49 praças
e oficiais de Recife (PE). Ângela era a responsável
pelo atendimento médico do contingente brasileiro e de outros
países. Fez mais de 1.500 consultas, entre crianças
e adultos timorenses. ‘‘Doenças de pele, tuberculose
e malária são as doenças mais comuns’’,
comenta.
De volta a Recife, a capitã confessa que
só teve a exata noção do que
significa vestir a farda do Exército em missão de
paz quando o comandante do contingente brasileiro no Timor, tenente-coronel
Heimo Guimarães de Luna, disse: ‘‘Você
aqui não é Ângela, é a bandeira do Brasil’’.
Com a paz garantida, a tropa de Recife teve tempo
para reconstruir uma
escola de primeiro grau, incendiada pelos indonésios. Batizaram-na
com o nome do Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro.
Para a coordenadora do ensino primário do Ministério
da Educação timorense, Delfina Maria de Fátima,
a ajuda foi fundamental: ‘‘Graças a eles, 600
alunos têm a oportunidade de estar em salas de aula’’.
A aluna da 5ªsérie Novita Veniata, 12
anos, aprende com os professores a língua que mais admira.
‘‘Quero aprender a falar mais e ficar nessa escola,
que eu adoro’’, disse, arriscando o português.
Ela teve contato diário com o soldado Gilvan Silva Andrade,
25 anos, que foi um dos pedreiros da tropa. ‘‘Foi a
melhor experiência da minha vida’’, confessa.
Homenagem Antes de embarcar de volta para Recife,
o contingente brasileiro foi homenageado com uma despedida emocionada
dos alunos de capoeira. Durante a solenidade, crianças em
lágrimas fizeram uma apresentação. ‘‘O
carinho que tinham com a gente é como se fosse de pai’’,
disse a pequena Lúcia de Fátima, sete anos. Muitas
crianças timorenses perderam pais, irmãos e tios lutando
na guerrilha.
Os militares brasileiros também ajudam a polícia
do TIMOR LESTE a se
estruturar. A criminalidade ainda é baixa. A maior parte
das ocorrências de brigas deve-se a grupos rivais de artes
marciais. Violência doméstica contra mulheres e crianças
também é fator de preocupação. São
freqüentes estupros cometidos por homens da família
da vítima pai, irmão ou tio.
O major Francisco Carlos da Silva Niño, da
Polícia Militar do Distrito Federal, diz que a maior dificuldade
é fazer com que se cumpram as novas leis do país.
‘‘Pelo menos 70% da população vive na
área rural, isolada, e seguindo as regras da comunidade.
Ainda resistem em aceitar a nova constituição’’,
explicou. O policial é consultor técnico do adjunto
do comandante geral da Polícia Nacional do TIMOR LESTE (PNTL).
(FG)
Respeito Conquistado
Entrevista: kywal de oliveira
O embaixador Kywal de Oliveira foi um dos primeiros
brasileiros a pisar no TIMOR LESTE devastado pela fúria indonésia.
Acompanhou a independência e a instalação da
mais nova democracia do mundo. Depois de quatro anos morando em
Dili, a capital timorense, Kywal deixa o país para seguir
missão em Roterdã, na Holanda, em agosto. O embaixador,
como costuma dizer, teve o prazer de trabalhar e ser amigo de Sérgio
Vieira de Mello, que administrou o Timor por dois anos e foi morto
em agosto último, num atentado contra a ONU em Bagdá.
Do alojamento das forças de paz, Kywal concedeu a seguinte
entrevista ao Correio:
Correio Braziliense Como a
presença no Timor se enquadra no contexto da atual política
externa brasileira?
Kywal de Oliveira É
muito importante que o Brasil tenha presença nas forças
de paz no exterior. O Brasil tem aspiração a ser membro
permanente do Conselho de Segurança da ONU e deve mostrar
disposição para contribuir em missões pelo
mundo afora. TIMOR LESTE é uma missão muito bem sucedida,
onde os militares brasileiros granjearam enorme simpatia e admiração,
não só do povo timorense mas também dos colegas
de farda de outras nacionalidades.
Correio O que foi mais importante
para o senhor nesses quatro anos?
Kywal de Oliveira Cheguei
no primeiro semestre de 2000 e instalei nosso escritório
de representação, que, depois da independência,
se transformou em embaixada. Convivi com Sérgio Vieira de
Melo por dois anos. Era um negociador extremamente hábil,
sabia respeitar os valores da terra. Pegou uma terra arrasada e
a transformou em um país. Quanto ao meu trabalho, procurei
aproximar o Brasil do TIMOR LESTE. Começamos da estaca zero.
O que tenho de destacar é a cooperação técnica,
sobretudo em matéria de educação informal e
saúde.
Correio Além de enviar
tropas, o que mais o Brasil faz pelo país?
Kywal de Oliveira Temos três
projetos de cooperação, sendo que a jóia da
coroa é um centro de educação técnica
organizado pelo Senai, com cursos profissionalizantes de seis meses.
O centro tem 250 alunos. Os professores são locais, mas os
brasileiros supervisionam. Entre os outros projetos, há o
Alfabetização Solidária, do governo federal,
e o telecurso, desenvolvido pela Fundação Roberto
Marinho.
04/07/2004
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