Reconstrução
Timor tenta renascer
Fabíola Góis
Da equipe do Correio Braziliense
Há cinco anos, o pequeno território
colonizado por Portugal optava pela
independência e era devastado pelos indonésios. Hoje,
o desafio é vencer o desemprego e revitalizar a infra-estrutura
básica
Dili Daqui a dois meses, no dia 30 de agosto,
o TIMOR LESTE relembrará o pior massacre já vivido
pela população nos 24 anos de ocupação
indonésia. Um dia depois de aprovar o plebiscito que decretou
a independência contra o invasor, em 1999, o país virou
cinzas. Milhares de casas foram queimadas, mais de duas mil crianças
e adultos foram executados, e a população se refugiou
em montanhas para sobreviver. Cinco anos depois, os timorenses,
com ajuda internacional, travam uma luta menos cruel, mas difícil
de vencer: o desafio de transformar o Timor num país próspero.
São 891 mil pessoas sendo que 500 mil
têm até 20 anos vivendo no país mais pobre
da Ásia, com pouca infra-estrutura, sem saneamento básico,
iluminação pública e transporte precário.
A renda per capita do timorense está em torno de US$ 480
por ano, o que representa US$ 40 mensais (cerca de R$ 120). É
pelo menos cinco vezes menos que a do brasileiro, cuja média
é de US$ 2.569 anuais. A estimativa é de que 40% da
população vive abaixo da linha da pobreza.
A principal atividade econômica dessa nação
em construção é o comércio. Desde que
a Organização das Nações Unidas (ONU)
e organismos internacionais se instalaram no país, pequenos
comerciantes incrementaram as atividades com pousadas e restaurantes.
Mas o desemprego é muito alto. A estimativa é de que
70% da população vive sem renda fixa. Outra atividade
bastante desenvolvida é o artesanato destaque para
a fabricação do tais, indumentária típica
do timorense feita com tear.
Aos poucos, a ONU e os estrangeiros estão
mudando o retrato de um país queimado. Nos últimos
anos, o TIMOR LESTE vem tentando se estruturar com os governantes
eleitos pelo povo. Os timorenses já têm uma Constituição
e um Parlamento. Xanana Gusmão, ex-guerrilheiro que foi capturado
por indonésios e teve de sair do país, foi empossado
presidente no dia 20 de maio de 2002, quando o administrador da
ONU no território, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello,
deixou o cargo que exercia desde novembro de 1999.
Carisma brasileiro
Vieira de Melo é unanimamente elogiado por
ter desempenhado a função com extrema competência.
Graças ao seu empenho, foi indicado pela ONU para ocupar
o cargo de alto comissário de Direitos Humanos. Tornou-se
também representante da organização no Iraque,
mas morreu em um atentado no ano passado em Bagdá. A dedicação
ao povo do Timor foi retribuída com várias homenagens.
A antiga rua das embaixadas, em Dili, tem o seu nome.
Há quem diga que o carisma de Vieira de Mello
originou a afeição que os
timorenses têm pelo Brasil. Nas ruas, quando um morador percebe
que há brasileiros por perto, civil ou militar, acena, dá
um sorriso e puxa conversa. Tenta falar português, a língua
oficial. Apesar de terem sido colonizados por portugueses, os timorenses
falam tétum um dos 35 dialetos do país
ou bahasa indonésio.
As milícias pró-Indonésia exigiram
que o timorense não falasse uma palavra em português
em troca da garantia de vida. E tiveram de ‘‘engolir’’
o idioma do rival. Apenas 10% da população domina
o português. Nas ruas, placas em quatro línguas confundem
o visitante: tétum, bahasa, português e inglês
convivem como se todos falassem um só idioma.
‘‘Foram anos de terror’’,
relembra a professora timorense Elisa Martins,
diretora de um colégio destruído e queimado pelas
milícias. Elisa fala perfeitamente o português e luta
para que as crianças aprendam a língua-mãe.
Ela e outra professora, Maria das Dores Piedade,
48 anos, lecionam na Escola Duque de Caxias, reformada por militares
do Exército Brasileiro. O nome é uma homenagem ao
patrono da corporação.
Maria das Dores lembra dos meses em que se refugiou
nas montanhas do TIMOR LESTE com a família, para escapar
da morte. O irmão, guerrilheiro, não teve a mesma
sorte. Morreu na linha de frente, junto com os mais de 27 mil guerrilheiros
executados pelos milicianos.
Luta Sangrenta
Nas cidades do país, a marca da destruição.
Em quase todas as ruas da
capital ainda se vê casas queimadas. Escolas e igrejas não
foram poupadas.
Padres e freiras foram torturados sinais da perseguição
religiosa. A Indonésia é o país com maior população
muçulmana, e os timorenses são católicos.
Quem relembra os anos mais tristes da história
do país é Taur Matan Ruak, o atual comandante das
Forças de Defesa do TIMOR LESTE (FDTL), o exército
da pequena nação. Ex-guerrilheiro, comandou as Falintil
(Forças Armadas de Libertação Nacional do TIMOR
LESTE) antes da independência. ‘‘Tínhamos
de matar o rival da Indonésia para conseguir armas. Começamos
a luta pela independência há 25 anos, com 27 mil guerrilheiros.
Terminamos com apenas 155’’, disse Ruak ao Correio.
Eles lutaram contra 250 mil indonésios. ‘‘Um
exército não se mede pelo número de homens’’,
comentou.
O embaixador do Brasil no Timor, Kywal de Oliveira,
diz que o número oficial de mortos no massacre de 1999 é
1,4 mil. Mas pode ser ainda maior. É que muitos corpos não
foram identificados, e ainda há dezenas de desaparecidos.
Segundo ele, o número de refugiados continua alto. ‘‘Quando
as milícias indonésias destruíram o país,
250 mil refugiados deixaram o Timor. Tiveram de viver no vizinho
Timor Oeste, que pertence à Indonésia. A estimativa
é de que ainda haja 15 mil refugiados’’, afirmou.
Os militares brasileiros no TIMOR LESTE granjearam
enorme simpatia e
admiração, não só do povo timorense
mas também dos colegas de outras nacionalidades
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Para Saber
Mais
Duas décadas de ocupação |
O TIMOR LESTE foi colonizado
pelos portugueses no século 15. A condição
de colônia durou até 1974, quando a Revolução
dos Cravos acabou com a ditadura em Portugal. Com o início
do processo de descolonização, surgiram as dissidências
entre os timorenses que queriam a anexação à
Indonésia e os que defendiam a independência.
A guerra civil que surgiu desse conflito foi o pretexto para
o governo de Hagi Suharto mandar invadir o território
em 1975, anexá-lo como província no ano seguinte
e ocupá-lo por mais de duas décadas.
Nesse período, mais de 200 mil pessoas morreram
um terço da população.
Em 1999, a Organização das Nações
Unidas (ONU) assumiu a administração provisória
do TIMOR LESTE. A guerra só acabou quando a população
decidiu oficialmente optar pela independência por meio
de um plebiscito, realizado em 30 de agosto daquele ano. Pela
primeira vez na história do território, a população
foi às urnas. Mais de 450 mil timorenses votaram, entre
os quais 78,5% aprovaram a soberania. Mas o exército
indonésio não admitiu a derrota e apoiou milícias
que destruíram a ilha. A devastação foi
tão grande que o Conselho de Segurança da ONU
interveio.
O brasileiro Sérgio Vieira de Mello
morto no Iraque em agosto do ano
passado foi o responsável pela Autoridade Transitória
das Nações Unidas para o TIMOR LESTE (Untaet).
Desde então, capacetes azuis são enviados ao
país. O primeiro grupo de militares brasileiros partiu
ainda em 1999.
A ONU promoveu eleições livres
em 2001, um passo decisivo no caminho rumo à independência
completa do território, conseguida em maio de 2002.
O mandato da Missão das Nações Unidas
de Apoio no TIMOR LESTE (Unmiset), que substituiu a Untaet,
foi prorrogado até o ano que vem.
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04/07/2004
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