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Universitários brasileiros partem para o Timor Leste em agosto para ensinar, por meio da MPB, a língua portuguesa, proibida por 24 anos

Fabíola Góis

Rosely e Xanana: presidente do Timor
quer apoio dos países-irmãos

Timor — O compositor gaúcho Teixeirinha não viveu tanto tempo para saber que no outro lado do mundo há pessoas que admiram suas músicas. Roberto Carlos, Zezé Di Camargo e Luciano, Leonardo e Sandy e Júnior talvez saibam. As canções populares brasileiras fazem tanto sucesso no Timor Leste — país no Sul da Ásia colonizado por portugueses e que ficou sob ocupação indonésia por 24 anos — quanto em qualquer cidade brasileira. Os 20 mil quilômetros de distância entre os dois países não são barreira para que o timorense escute e cante as músicas brasileiras em rádios, televisões e nas rodas de cantoria.

Aproveitando o interesse de crianças, adolescentes e adultos pela cultura brasileira, 18 estudantes de três universidades de São Paulo ajudarão a difundir a língua portuguesa, proibida durante a ocupação indonésia. Os jovens brasileiros não vão dar aulas formais de português, mas uma formação que mistura músicas de Leandro e Leonardo, Chico Buarque, Caetano Veloso, Titãs e outros artistas.

O Timor Leste, ex-colônia portuguesa invadida pela Indonésia em 1975, se recupera com ajuda internacional, depois da onda de destruição que tomou conta do país logo após o referendo do dia 30 de agosto de 1999, que determinou a independência timorense. A Organização das Nações Unidas (ONU) garante a paz por meio de tropas das forças armadas de vários países, entre eles o Brasil. Depois da barbárie, quando 90% do território ficou destruído, a vida na capital, Dili, volta ao normal.

As crianças recomeçaram a estudar em 2000. O português, em conjunto com o tétum (um dos 32 dialetos do Timor), foi escolhido como língua oficial e voltou a ser introduzido em sala de aula. A nova geração começa a falar a língua que até então era proibida. Os mais velhos, com idade acima de 35 anos, ainda lembram e conseguem falar português. O grande desafio é ensinar aos jovens, que aprenderam em sala o bahasa indonésio, a língua oficial do invasor. A missão dos estudantes brasileiros é aproximar a cultura dos dois países com as músicas preferidas dos timorenses.

Nas rádios, é comum escutar Pense em mim (Leandro e Leonardo), Vai ter que rebolar (Sandy e Júnior) e Eu só quero um xodó (Gilberto Gil). A 89,5 FM, filial da australiana Rádio Voz, tem programação evangélica, mas não deixa de tocar músicas sertanejas, pagode, rock e MPB. ‘‘É a forma que encontramos de nos aproximarmos do timorense. Um dos horários de maior audiência no país é quando temos programação com músicas brasileiras’’, afirmou o diretor da 89,5 FM no Timor, pastor Davi Sampaio.

O projeto Canção Popular e Cultura Brasileira em Timor Leste foi elaborado pela Universidade de São Paulo, Pontifícia Universidade Católica (PUC) e Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mas surgiu depois de um pedido oficial do presidente do Timor, Xanana Gusmão, ao amigo pessoal e representante do Itamaraty em São Paulo, o embaixador Jadiel Ferreira de Oliveira.

Oliveira foi embaixador do Brasil na Indonésia de 1995 a 2002. ‘‘Estamos tentado resgatar, por meio da ajuda universitária, promessa do governo federal, que se comprometeu a levar 50 professores brasileiros para o Timor’’, comentou. Mas o Brasil não mandou os docentes. Oliveira também quer maior mobilização da sociedade brasileira em relação ao país-irmão.

O governo do Timor espera ajuda de todos os países de língua portuguesa. ‘‘Nós não estamos impondo o ensino do português. Xanana tem pedido apoio a todos os países de língua portuguesa’’, afirma Regina Brito, professora da Universidade Mackenzie e coordenadora lingüística e didático-pedagógica do projeto.

Alunos fardados da nova geração

Outra missão dos estudantes brasileiros é ensinar português por meio da
música aos militares timorenses. O comandante das Forças de Defesa do Timor Leste (FDTL), Taur Matan Ruak, pretende que os soldados aprendam o idioma oficial do país. ‘‘Queremos investir na nova geração. Mas vai haver uma grande lacuna entre os jovens e os mais velhos’’, disse ao Correio durante reunião com a comitiva de oficiais das Forças Armadas Brasileiras no Timor, em junho.

Os estudantes estão sendo treinados há um ano para participar do programa das universidades. Eles devem viajar na segunda quinzena de agosto e voltam em fevereiro ou março de 2005. Terão direito a alojamento e comida no Timor, além de US$ 200 mensais para despesas pessoais. A experiência valerá como estágio e haverá vínculo com a Universidade do Timor. Ao final do projeto, os jovens receberão um Certificado de Proficiência em Comunicação em Língua Portuguesa, espécie de diploma de participação.

Sinal verde

Os 18 estudantes que vão ao Timor aguardam o sinal verde para fazer as malas. As três universidades ainda assinarão contrato com as empresas parceiras para divulgar a lista com os nomes dos alunos. Um deles, de 21 anos, está no 5º semestre de Relações Internacionais. Ele ensinava português em uma escola particular e toca violão. ‘‘Já li livros e vários textos sobre o Timor. O certificado é importante, mas a experiência de vida é única’’, disse.

Um dos livros que o universitário leu sobre o Timor é da correspondente
internacional Rosely Forganes, Queimado Queimado, mas Agora Nosso! — Timor: Das Cinzas à Liberdade. A publicação, com 507 páginas, entre elas 24 fotos do Timor Leste, serve de guia para os interessados em conhecer a história do país, pois acervos históricos de bibliotecas e escolas foram queimados durante o massacre de 1999. Rosely foi convidada para ser uma das coordenadoras do grupo. (FG)

A repórter viajou a convite do Exército Brasileiro.

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Queimado Queimado,
mas Agora Nosso!

ROSELY FORGANES
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