Opinião do Noticiário
do Exército"Braço Forte, Mão Amiga"
sobre o livro "Queimado Queimado, mas agora é nosso.
Timor das Cinzas a Liberdade", da jornalista Rosely Forganes.
http://www.exercito.gov.br/NE/2002/10/10030/res030.htm
Brasília- DF, 2ª feira, 28 de outubro de 2002 Ano XLVI
Nº 10.030
Resenha Literária
Queimado, queimado, mas agora nosso! Timor: das
cinzas à liberdade.
Forganes, Rosely; São Paulo, Labortexto Editorial, 2002.
503 pág.
O Timor Leste alcançou a soberania no último dia 20
de maio. Ao tornar-se a primeira nação livre do terceiro
milênio, apresentou-se ao mundo com constituição,
parlamento, governo, presidente e primeiros contingentes militares
e policiais ativados, o que constitui prova de maturidade política.
Mas a caminhada desse minúsculo país do tamanho aproximado
do Estado de Sergipe, ocupando metade de uma ilha no Sudeste Asiático
e com uma população estimada de 800 mil habitantes
rumo à independência foi tenaz e sofrida, como poucas
vezes se viu na história recente da humanidade.
Gerada durante quatro séculos e meio de convivência
com a cultura portuguesa, sua identidade nacional sedimentou-se
na resistência aos 24 anos de ocupação indonésia
na qual um terço de seus habitantes foi dizimado , em seguida
à retirada de Portugal, que colonizou o território
até 1975. Quando, em 1999, 78% da população
local optou pela autodeterminação, em processo de
consulta coordenado pela Organização das Nações
Unidas (ONU), o país foi queimado e pilhado pelas milícias
pró-Indonésia. A barbárie desses bandos incluiu,
ainda, a deportação de cerca de 270 mil pessoas para
o Timor Oeste, província sob jurisdição do
governo de Jacarta.
O drama do Timor Leste comoveu a comunidade internacional. O Conselho
de Segurança da ONU autorizou o envio de uma força
de paz que restabeleceu a ordem na região. Em seguida, criou-se
a Administração de Transição das Nações
Unidas que, juntamente com instituições locais, começou
a reconstruir um país devastado ainda há muito por
fazer neste aspecto e prepará-lo para a independência.
Raras vezes o mundo se mobilizou com tal empenho para assegurar
a emancipação de um território.
O livro de Rosely Forganes, jornalista brasileira e correspondente
da Rádio Eldorado, em Paris, nos aproxima dessa epopéia.
Ele é resultado de reportagens produzidas nas quatro viagens
que a autora empreendeu ao país, entre outubro de 1999 e
abril de 2002. Contém relatos da própria escritora,
além de depoimentos e entrevistas de populares, lideranças
timorenses, diplomatas, jornalistas, militares da força de
paz, missinários religiosos e funcionários da ONU
e de agências internacionais. Ao término de sua leitura,
é impossível não se deixar arrebatar pela causa
do povo maubere (como os timorenses se designam).
Pautada por simplicidade e clareza, a obra é rica em histórias
trágicas e emocionantes. A trajetória de um casal,
cujas famílias refletiam a polarização independência
versus integração à Indonésia, que tanto
atormentou a sociedade timorense, contém tintas de romance
no melhor estilo Romeu e Julieta. Ainda bem que, no livro, o caso
tem final feliz. Detalhes do tempo colonial, em que a capital, Dili,
dançava ao som da Jovem Guarda e imitava Wanderléia,
despertam um sentimento de nostalgia naqueles que viveram os anos
60 do século passado. Ela também encerra um repertório
de ensinamentos. Fixemo-nos em apenas dois deles. A narrativa dos
preparativos para a primeira ida ao Timor e as vicissitudes por
que passou a repórter para enviar suas matérias para
o Brasil, naqueles dias de outubro de 1999, constituem um minucioso
guia do jornalista atuando em regiões conflagradas. Por sua
vez, das entrevistas com os antigos comandantes da guerrilha pró-independência,
que sustentou uma cruenta luta contra as forças indonésias
de ocupação, afloram rematadas lições
da genuína estratégia da resistência.
O Exército Brasileiro ocupa lugar de destaque nas páginas
do livro. Oriunda de um meio crítico ao segmento militar
como ela mesmo enfatiza em certa passagem a autora não esconde
o entusiasmo, admiração e orgulho com o trabalho de
nossos boinas azuis no Timor Leste (... todos são gentis
e atenciosos, apesar da situação cada vez mais caótica.
Cada vez tenho mais orgulho dos nossos soldados. Quem diria que
é preciso vir ao outro lado do mundo para se reconciliar
com uma parte do próprio país...).
Idênticas manifestações de reconhecimento também
são encontradas em outras partes, dirigidas a agentes da
participação brasileira no processo de paz leste-timorense,
tais como diplomatas, funcionários públicos e de órgãos
não-governamentais, membros da ONU, professores, monitores
e missionários, os quais, ao lado dos compatriotas militares,
têm elevado os valores da solidariedade universal e conquistado
a amizade e a gratidão daquela jovem nação.
As reportagens de Rosely Forganes mostram, por fim, que a independência
do Timor Leste é mais que o culminar de uma caminhada. É
a ante-sala de um intricado labirinto de desafios a permear todas
as expressões do poder nacional. A determinação
na resistência ao poderoso invasor, a maturidade política
ao longo da configuração do aparelho estatal e a mão
fraterna da comunidade internacional são trunfos que, decerto,
permitirão ao guerreiro povo maubere vencer mais essa instigante
caminhada.
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