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Olaria - Arte Milenar no Feminino

Segundo alguns estudos efectuados, nomeadamente o teste do Carbono-14, a olaria existe em Timor há cerca de 4.500 anos.

Estranhamente, apesar da antiguidade desta arte e da abundância de matéria prima, a olaria parece ter estado sempre limitada a determinadas áreas do território, sendo a variedade de utensílios em barro relativamente escassa. A explicação para este facto poderá – talvez – residir na generosidade da Natureza em proporcionar outras matérias-primas para os mesmos fins como a madeira, o bambú e a casca de coco, bem como a expansão do comércio que acabou por introduzir na ilha recipientes fabricados nos mais diversos materiais como o ferro, o alumínio e o plástico.

Actualmente, a olaria parece ter sobrevivido apenas nas zonas de Manatuto, Suai e Lospalos, verificando-se um surgimento de novos objectos como cinzeiros e mealheiros ou outros meramente decorativos, para além de se continuarem a elaborar as panelas (Sana Rai), tigelas, vasos, pratos, taças bules e chávenas, cuja origem se perde no tempo.

Em Timor não existe a roda de oleiro e as técnicas utilizadas são das mais antigas do mundo. Todo o processo de fabrico depende única e exclusivamente da mulher. É a mulher timorense quem recolhe, selecciona e prepara os materiais, quem confecciona as peças, quem as coze e, finalmente, quem as vende no mercado. Em muitos casos é também a própria mulher quem se encarrega de conseguir a lenha ou os excrementos de búfalo necessários para a cozedura do barro.


Carmen Melo

A Olaria no Imaginário Timorense

São inúmeras as lendas timorenses em que uma bilha ou qualquer outro vaso de barro adquire, representa ou surge como um elemento mítico significativo. É essa bilha ou recipiente de barro, contentor por excelência da água sagrada que, ao ser quebrado, provocará a imolação catastrófica da comunidade de que escapará, apenas o elemento consagrado, deificado, e a partir dele, o elemento estruturante da organização social e política da comunidade, como antepassado mítico e cabeça de nova linhagem.

A cerâmica está, assim, intimamente ligada aos mitos da origem das comunidades timorenses, do seu aparecimento e instalação no território, integra-se na própria antroponímia mitológica da origem das linhagens. Isto é, quanto a nós, uma prova segura da sua antiguidade na ilha.

É esta mesma realidade que se extrai de algumas narrativas míticas onde a personagem principal toma o nome de uma peça de cerâmica sagrada – Kussi – tal como num conto de Ainaro. Na narrativa, “Ina-Cússi Rai-Boça Ina-Liurai”, isto é, “Mãe-Bilha Desde-o-Princípio Mãe de Liurais”, dá à luz dois filhos que, depois de inúmeras peripécias e feitos extraordinários, são proclamados liurais. A panela ou bilha é aqui tomada simbolicamente no sentido de contentor geral e universal, tal como a terra-mãe. Neste caso, a bilha-mãe surge como mãe e origem da linhagem.

Outras vezes, a cerâmica aparece expressamente referenciada como elemento sacralizado e de contornos totémicos, nas narrativas dos itinerários sagrados e de origem de certos clãs do leste de Timor, que aí arribaram em épocas míticas, transportando consigo os Kussu – vasos totémicos de cerâmica – contendo as sementes de plantas que depois espalharam por Timor. Estes Kussu encontram-se, aliás, em muitas casas sagradas – Uma Lulik – que existem em Timor Oriental, desde a ponta leste às terras da fronteira.


José D. C. Arez

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