| Esculturas em Madeira
Noutros tempos, a arte de talhar esculturas em madeira estendia-se
praticamente a todo o território de Timor. Os objectivos
e a motivação artística eram essencialmente
religiosos. Para o timorense, o recurso à imaginária
era a concretização da sua espiritualidade animista,
omnipresente em todos os actos da sua vida. Os membros das comunidades
locais necessitavam de estar em contacto com os seus antepassados
e mitos, evocando-os, pelo que recorriam à figuração
humana e animalista para melhor ter acesso a eles e à sua
subsequente protecção.
Com a aculturação cristã e parcial abandono
de ancestrais práticas religiosas, os cânones e modelos
escultóricos alteraram-se: Crucifixos, Virgens e representação
de “santos” começam a sair das mãos dos
artífices.
O mesmo aconteceu com a chegada de influências laicas estranhas,
que possibilitaram o aparecimento de novas formas profanas de estatuária,
numa clara intenção dos mestres artesãos irem
ao encontro de um potencial mercado: figuras humanas em poses do
quotidiano, para além de objectos que entraram no uso diário
sob a forma de animais, como cinzeiros e outras peças.
Hoje, é possível encontrar pelas ruas de Díli,
vendedores carregados dos mais variados objectos esculpidos, havendo
também locais onde se concentram em exposição
muitas estatuetas vindas principalmente da Ilha de Ataúro.
Ali, a indústria escultórica foi mais florescente,
mercê do carácter arreigado dos ataúros aos
cultos animistas que ainda subsistem e persistem, possivelmente
fruto de uma menor influência da igreja católica. Actualmente,
cerca de quinze pessoas de diversas famílias, constituindo
pequenas oficinas domésticas, enviam regularmente lotes de
peças para comercializar em Díli, onde os malais (forasteiros)
são os clientes-alvo. Contudo, raramente são agora
esculpidas cópias dos seus lulik, constituídos essencialmente
por figuras de casais atados por corda, denominados localmente por
Itaras, representando os seus antepassados. Máscaras humanas
de feições mais suaves, representações
de figuras cristãs ou cenas da sociedade actual, tomaram-lhes
o lugar.
Os materiais tradicionalmente usados para esculpir são as
madeiras que melhor se prestam a trabalhar, inclusive pelo seu baixo
grau de dureza e homogeneidade do lenho, nomeadamente o mogno de
Timor/ ai seria/cedrela toona, o ai hanec/ alstonia scholaris (L.),
ou mesmo ai nitas/ sterculia foetida L. Entretanto, o artista apercebeu-se
que a beleza da própria madeira pode também ajudar
muito ao trabalho final. E assim, possibilitado também pelo
uso de novas e mais apuradas ferramentas, trabalha agora madeiras
mais duras e mais nobres, como o sândalo / ai cameli/ santalum
alba L e o pau-rosa/ ai ná/ pterocarpus indicus wild).
Rui Fonseca
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